Jeenah Moon/AFP
Jeenah Moon/AFP

Caronas, refeições compartilhadas, jogo em quadra? Rastreando o vírus na NBA

Uma onda de casos de coronavírus e jogos adiados impôs regras mais rígidas sobre as interações entre os jogadores, dentro e fora das quadras. Mas nem sempre se sabe onde os surtos começaram

Sopan Deb, The New York Times

25 de janeiro de 2021 | 10h00

Em 12 de janeiro, a NBA e o sindicato de seus jogadores reforçaram os protocolos de coronavírus - exigindo que os jogadores passassem pelo menos as próximas duas semanas quase exclusivamente em casa ou em seus hotéis na estrada, quando não estivessem jogando basquete.

Três dias depois, o Washington Wizards deu uma entrevista coletiva dizendo que seis de seus jogadores haviam testado positivo para o coronavírus e que o time não tinha jogadores suficientes para treinar. Naquele mesmo dia, Karl-Anthony Towns, estrela do Minnesota Timberwolves cuja mãe morrera de covid-19, disse que também ele tinha testado positivo.

Quase um mês depois do início da temporada, a NBA fez de tudo para conter o coronavírus jogando fora do campus restrito do Walt Disney World, na Flórida, onde terminou a última temporada. As estrelas ficaram em segundo plano. Diversos times, entre eles Wizards, Boston Celtics e Phoenix Suns, adiaram vários jogos.

Alguns times, como o Philadelphia 76ers e o Miami Heat, entraram em quadra com equipes mínimas, pois perderam a maioria de seus melhores jogadores por causa do rastreamento de contato. Mais de 40 jogadores testaram positivo desde o começo dos treinamentos, no início de dezembro - 27 deles nas últimas duas semanas. Apenas 7 dos 30 times da liga não tiveram algum jogo adiado por terem jogadores infectados.

As mudanças de protocolo sinalizam a dificuldade de tentar praticar um esporte de contato em ambiente fechado durante o inverno, quando especialistas em saúde disseram que a pandemia estaria pior. A NBA recebeu elogios por estar entre as primeiras grandes ligas esportivas a suspender os jogos quando a pandemia apareceu em março e por encerrar sua temporada no verão. Mas agora algumas pessoas estão perguntando abertamente se a liga deveria ser disputada.

Mesmo assim, a liga continua confiante de que seus protocolos de saúde e segurança são fortes o suficiente para resistir aos surtos e de que os adiamentos não ameaçarão a integridade da temporada. O sindicato dos jogadores não quis comentar.

“Acho que está de acordo com o que imaginávamos que poderia acontecer diante da gravidade da pandemia”, disse David Weiss, vice-presidente sênior da liga, sobre os adiamentos. Ele acrescentou: “Este exato período é o que sabíamos que seria o mais difícil”.

A NBA agendou apenas a primeira metade da temporada, que foi encurtada dos 82 jogos habituais para 72, em parte porque previu alguns adiamentos. Em quase 160 páginas de protocolos enviados às equipes antes da temporada, a NBA disse que era “provável” que alguns jogadores e funcionários testassem positivo em algum momento e que poderia “ser necessário” modificar as diretrizes posteriormente.

“O protocolo só é bom quando as pessoas conseguem segui-lo”, disse a Dra. Cindy A. Prins, pesquisadora de saúde pública da Universidade da Flórida. Ela disse que não estar em uma bolha, como a liga durante o verão, é mais relevante do que quaisquer regras.

“Os protocolos podem ser ótimos”, disse ela. “Mas dependem muito dos indivíduos. Agora estão contando de novo com os indivíduos, com muito menos supervisão. E esperam que as pessoas entendam o que as coloca em risco de contrair covid. Não somos bons nisso. Acho que o país todo já deu provas disso.”

766E3C01-53A8-483E-9B06-CCE0C7108013
Os protocolos podem ser ótimos. Mas dependem muito dos indivíduos
E0EAB005-9061-4B3D-86B9-AEB61693E313
Cindy A. Prins, pesquisadora de saúde pública da Universidade da Flórida

George Hill, armador do Oklahoma City Thunder, disse a repórteres na semana passada sobre os protocolos mais rígidos: “Sou homem feito, então vou fazer o que eu quero. Se eu quiser ver minha família, vou ver minha família. Ninguém vai me dizer que tenho que ficar no quarto 24 horas por dia, 7 dias por semana. Se fosse tão grave assim, então talvez seria melhor não jogar, para começo de conversa. É a vida. Ninguém vai cancelar a vida inteira por causa desse negócio”.

Os protocolos de rastreamento de contato da liga, os testes positivos e as lesões algumas vezes deixaram várias equipes sem o mínimo de oito jogadores necessários para entrar em quadra. As pessoas que testam positivo devem se isolar por pelo menos 10 dias, ou entregar dois testes negativos com mais de 24 horas de intervalo. A exposição a alguém com teste positivo também pode exigir uma quarentena, dependendo do ambiente e do momento da interação. A NBA usa as diretrizes dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês) para definir o contato próximo como “efeito de estar a menos de 2 metros de uma pessoa infectada, por um total cumulativo de 15 minutos ou mais, em um período de 24 horas” nos dois dias antes do resultado de teste positivo ou do aparecimento de sintomas.

Dr. John DiFiori, diretor de medicina esportiva da NBA, disse em entrevista que, ao explorar as causas da propagação, a liga encontrou pontos de transmissão comuns, como caronas sem máscaras e refeições compartilhadas.

“Nossos jogadores e membros de comissões técnicas têm família”, disse DiFiori. “Alguns deles têm filhos. Alguns deles vão para a escola. E eles vão para a comunidade. Todos nós estamos sujeitos aos mesmos tipos de riscos que qualquer outra pessoa.”

Nenhum time foi mais afetado do que o Wizards, que não joga desde 11 de janeiro, obrigado a adiar seis jogos, entre eles o confronto de sexta-feira em Milwaukee. Nos dias anteriores ao teste positivo de seus jogadores, o Washington havia jogado contra o Celtics, o Sixers, o Heat e o Brooklyn Nets - todos com pelo menos um jogador que teve resultado positivo ou foi exposto ao vírus. A posição da liga é que jogar um jogo com um jogador positivo não constitui, por si só, um contato próximo, porque os jogadores normalmente não passam mais de 15 minutos perto de qualquer outro jogador. A liga usa câmeras para rastrear a proximidade dos jogadores durante os jogos e quanto tempo durou essa proximidade.

Tommy Sheppard, gerente geral do Wizards, disse a repórteres na semana passada que não tinha certeza sobre a origem do surto em sua equipe. Mas sugeriu que pode ter se espalhado por causa de algum jogo.

“Os jogadores estão na quadra, sem máscara, durante os jogos”, disse Sheppard. “É uma coisa óbvia. Eles estão expostos uns aos outros. Às vezes, no banco, os jogadores abaixam as máscaras, conversam entre si, coisas assim.”

Prins, que analisou os protocolos para o The New York Times, observou que, ao definir o contato próximo, a NBA incluiu uma citação do CDC de que a transmissão de uma pessoa infectada é baseada em vários fatores, entre eles “a susceptibilidade de gerar aerossóis respiratórios”.

“Bom, o que a gente acha que acontece na quadra?”, disse Prins. “Não se trata de duas pessoas sentadas na frente uma da outra por 10 minutos, sem conversar nem nada. Dentro da quadra, os jogadores respiram forte e gritam uns com os outros. Acho muito provável que estejam gerando muitos aerossóis. Para mim, seria necessária uma definição muito mais conservadora de contato próximo aqui.”

Uma solução pode se apresentar nos próximos meses. Na terça-feira, o comissário da NBA, Adam Silver, disse durante um evento ao vivo com o Sportico que houve “conversas” sobre os jogadores serem vacinados como parte de uma campanha de saúde pública.

Algumas autoridades, disse Silver, “sugeriram que haveria um verdadeiro benefício para a saúde pública se conseguíssemos vacinar alguns afro-americanos famosos, para demonstrar à comunidade em geral que a vacina é segura e eficaz”.

Silver também disse várias vezes que não queria que os jogadores da NBA fossem vacinados antes das populações que correm maior risco. Ele disse na terça-feira que os jogadores seriam vacinados apenas se as autoridades de saúde pública julgassem que era o momento certo.

Então, por enquanto, essa parece ser a realidade para a NBA. Na quinta-feira, a liga anunciou que o Memphis Grizzlies teria de reagendar suas próximas três partidas por causa do rastreamento de contato, aumentando para 20 o número de jogos adiados nesta temporada.

“O que aprendemos - e isso não é surpresa para ninguém - é que a pandemia afeta todos os associados à NBA da mesma forma que afeta a população dos Estados Unidos e do mundo”, disse DiFiori. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.