Daniel Teixeira / Estadão Conteúdo
Daniel Teixeira / Estadão Conteúdo

Com pouco dinheiro, Pinheiros incomoda os favoritos no NBB

Time da capital paulista tem cerca de um terço da verba de Franca e Flamengo, mas monta elenco homogêneo e vai brigar pelo título

Marcius Azevedo, O Estado de S. Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 04h30

O Pinheiros não sabe o que é perder no NBB (Novo Basquete Brasil) desde o dia 7 de novembro do ano passado. As dez vitórias consecutivas mudaram o status da equipe da capital na briga pelo título. Com um terço do orçamento de Franca e Flamengo, que investem quase R$ 9 milhões por temporada, o técnico Cesar Guidetti se apoiou em uma análise detalhista para formar um grupo homogêneo dentro e fora de quadra.

Utilizando critérios técnicos (leia-se estatísticas gerais), físicos e estudando minuciosamente o perfil dos atletas, o treinador contratou pelo menos dois jogadores de nível similar para cada posição. Com carta branca da diretoria e ajuda do auxiliar Nelsinho e do analista de desempenho Fabrício Rocha, chegaram Renato Carbonari, Betinho, Isaac, Dawkins e Gabriel. O clube renovou ainda com peças fundamentais, como Marcus Toledo, Bennett e Ruivo. 

“Procuramos montar um time mais homogêneo possível dentro da nossa condição financeira”, explicou Cesar. “Eles entenderam o que quero e estou contente pelas opções. Posso realizar trocas, mudar formações e isso me deixa à vontade”.

O processo de transformação do elenco, no entanto, contou com um episódio traumático. Principal jogador nas temporadas anteriores, o americano Holloway não teve o contrato renovado por uma decisão da comissão técnica. “Ele nos ajudou muito, mas decidimos mudar a filosofia de jogo”, disse. O individualismo não cabia mais.

A adaptação de alguns atletas à nova realidade foi outro obstáculo. O ala Betinho, por exemplo, estava acostumado com o protagonismo no Basquete Cearense e demorou um pouco para compreender o papel que teria de exercer no Pinheiros. Hoje, ele soma 21,8 minutos de média e está entre os cestinhas da equipe, com 13 pontos.

“Tivemos alguns tropeços e usamos isso para aprender”, comenta Cesar. “Alguns jogadores que não estavam rendendo, agora estão”, completou. 

Aliás, os números pulverizados nas estatísticas ajudam a explicar como a divisão do protagonismo foi a chave para a obtenção dos resultados. O Pinheiros não depende apenas de um jogador. “Fica até mais difícil para neutralizar o nosso time”, comenta Marcus Toledo. “O grupo abraçou o espírito de colocar o Pinheiros em primeiro e depois o individual”, disse Ruivo.

Assim, com um basquete solidário, a equipe acumula 15 vitórias em 18 jogos – perdeu para Paulistano, Minas e Corinthians. Na campanha, há triunfos importantes sobre Flamengo (duas vezes) e Franca (se enfrentam no Pedrocão, em março). “Acredito no time. Essas vitórias só confirmam que o Pinheiros tem condições de brigar no topo, dão confiança e mostram que estamos no caminho certo”, disse o treinador.

Ruivo prefere lembrar de uma derrota para pontuar a força do elenco. Não foi pelo NBB, mas, segundo ele, serviu para ligar o sinal de alerta. Pela Copa Super 8, o Pinheiros foi eliminado pelo Botafogo. “Conseguimos enxergar o lado positivo daquela derrota. Nosso time era muito bom, estava bem na temporada, mas não era invencível. Entendemos que era preciso entrar em quadra determinados.”

Para os atletas, pensar em título ainda é algo distante. “Não podemos esquecer os rivais favoritos. O caminho é muito longo. Temos muita coisa para evoluir ainda”, comenta Toledo. “Estamos com os pés no chão. Temos de matar um leão por dia, não deixar nenhum arrependimento, fazer tudo o que podemos”, completa Ruivo.

Basta acompanhar um único treino para perceber que dedicação não vai faltar para dar ao Pinheiros o primeiro caneco da NBB. Todos realizam hora extra em quadra ao ponto de, algumas vezes, ser necessário pedir para pisar no freio. “Queremos muito, nos cobramos muito. O comprometimento deste grupo é enorme”, diz o ala Betinho.

DUAS PERGUNTAS PARA BETINHO, ALA DO PINHEIROS

 1. Qual é o mérito da equipe?

Sempre falo sobre o coletivo. Cada partida é um jogador que se destaca, que chama o jogo e os outros têm humildade suficiente para reconhecer o momento do companheiro e colocá-lo em condições de definir. Não podemos ter vaidade para fazer o time encaixar. Todos aqui gostam do papel que estão realizando. É cedo para falar se vamos brigar pelo título porque o NBB é muito competitivo, mas temos os pés no chão e sabemos que temos de melhorar, corrigir muitas coisas. 


2. Você acha que demorou para entender o seu papel até se destacar?

A filosofia de jogo dos últimos times em que joguei era muito diferente. Nos últimos anos, eu tinha posse de bola, porque tinha de decidir muitas vezes. O ataque passava pelas minhas mãos. Aqui o time não depende tanto de mim. Não que demorou para me adaptar, mas leva um tempo, é natural. Estava condicionado em atuar de uma maneira, acaba sendo instintivo. O Cesar tem um grande mérito que é conversar, tentar entender o seu ponto de vista. Ele tem me ajudado muito.

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