Matheus Moura / LBF
Matheus Moura / LBF

Descoberta em projeto de basquete em Padre Miguel, mamãe Thayná Silva se fortalece na filha

Eleita MVP da Liga de Basquete Feminino, jogadora da seleção brasileira tem em Aylla sua motivação para seguir na carreira após quase desistir do esporte

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

18 de novembro de 2021 | 05h00

Quem viu aquela menina mirrada ter o primeiro contato com o basquete em uma praça de Padre Miguel, zona oeste no Rio,  não imaginava que ela poderia ir tão longe. Chegou ao projeto do professor Rogério – conhecido como Tio Preto –, por influência da irmã mais velha. E Thamara acertou em cheio.

Hoje aos 25 anos, Thayná Silva foi eleita MVP (melhor jogadora) da Liga de Basquete Feminino neste ano e faz parte do grupo da seleção brasileira do técnico José Neto. No último domingo, conquistou a medalha de prata na Copa América de 3x3, nos EUA, resultado que garantiu o País no Mundial da modalidade que deriva do basquete jogado por cinco de cada lado e estreou nos Jogos Olímpicos de Tóquio.

É como receber uma recompensa pelo esforço após passar por inúmeras dificuldades pelo caminho. O basquete, em muitos momentos, se tornou algo distante, pouco palpável. Desistir parecia sempre mais fácil do que o próximo arremesso.

Thayná foi atuar pela equipe da Mangueira aos 13 anos. Ficou lá até o final de 2016 quando, sem time adulto no projeto, ficou desempregada. "Eu estava entregando currículo, precisava arrumar um emprego. Achei que minha carreira tinha acabado", contou. A ligação de uma amiga e ex-companheira de seleção na base mudou o rumo da história. "A Lays me convidou para ir jogar em São Bernardo. Não pensei duas vezes para colocar o pé na estrada."

No ABC paulista, Thayná se reinventou como jogadora sob o comando do técnico Márcio Bellicieri. Pela equipe de São Bernardo, a ala terminou como segunda maior pontuadora da LBF de 2018, com média de 19,2 pontos, e foi ainda a mais eficiente da competição, com 20,78 (valor do cálculo dos fundamentos positivos e negativos de um jogador em uma partida).

A carreira, enfim, tomava um rumo positivo. Pintou uma primeira convocação para defender o Brasil. Mas o momento de empolgação não durou muito tempo. As dificuldades começaram com um acidente de moto, em 2019, quando Thayná sofreu um ferimento grande na perna e imaginou que poderia nunca mais andar. Imagina jogar basquete!

MATERNIDADE

Quando ainda se recuperava, ficou grávida. "Não foi planejado, mas não me fez desistir", afirmou. Pelo contrário. A filha Aylla, hoje com dois anos, serviu de motivação para prosseguir. "Faço por mim e por ela. A minha maturidade veio da maternidade. Ela me fez querer muito."

Foram quase dois anos sem jogar, apenas com treinos individuais, até entrar em quadra novamente e se destacar pelo Sodiê Doces/Mesquita/LSB. A tão sonhada convocação foi alcançada, participando da Copa América de Porto Rico, em junho deste ano. Na sequência foi chamada para atuar também no 3x3. Em Miami, o momento mais difícil não foi encarar rivais complicadas, como as americanas. Thayná sofre por ficar longe da filha.

"É uma correria que vivemos. Ficar sem conviver com ela é difícil. Às vezes é uma semana, um mês. Ela não quer falar comigo em chamada de vídeo, fica chateada, mas é para o nosso bem. Lá na frente ela vai entender tudo isso”, afirmou.

O próximo passo é ganhar o mundo. Thayná tem como objetivo atuar fora do Brasil, desde que possa levar a pequena Aylla. Mas, claro, sem esquecer aquela praça em Padre Miguel, perto da sua casa. “Qualquer coisa que faço lembro do começo, com o Tio Preto. Nunca pensei que poderia chegar onde estou."

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