Arquivo Pessoal
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Do crack à seleção: Fabrício Chagas dá a volta por cima e usa sua história como motivação

Jogador de 44 anos, que já passou pela cracolândia, hoje defende o time brasileiro máster em torneio na Argentina

Sergio Neto, O Estado de S.Paulo

18 de março de 2022 | 16h00
Atualizado 18 de março de 2022 | 16h34

A palavra que melhor define Fabrício Chagas é superação. E não tem como ser outra. Quem olha para ele não diz que o ala-armador de 44 anos já esteve no fundo do poço. Hoje, ele defende a seleção brasileira de basquete na disputa do Pan-Americano de Basquete Máster, realizado na cidade de Paraná, capital da província de Entre Ríos, na Argentina. No entanto, quem não o conhece mal sabe que ele teve de percorrer um longo caminho para chegar onde está.

O Estadão entrevistou Fabrício em 2018. Na época, ele estava há dois anos sóbrio. Antes disso, foi dependente químico por 18 anos, tendo o crack como a principal substância de consumo. Após uma longa jornada de recuperação, ele conseguiu se curar e encontrar novamente sentido naquilo que sempre amou: o basquete. Hoje, faz disso sua missão de vida. Fabrício quer levar o esporte como fator de transformação social e quer mostrar um mundo totalmente diferente do proporcionado pelos entorpecentes.

Na época, Fabrício contou à reportagem que, em 2014, em apenas um mês, gastou aproximadamente R$ 25 mil, que ganhou após a morte da mãe, em sua jornada em busca do 'bem-estar falso' das drogas. Foi um momento em que as substâncias químicas venceram, momentaneamente, sua batalha interna. Mais novo, o jogador chegou a se dividir entre o esporte e os entorpecentes, mas estes acabaram se tornando prioridade em determinado momento de sua vida. Fabrício chegou até a ter passagem pela cracolândia, em São Paulo.

Começou a se reabilitar quando encontrou Fernando Ferreira, o Fernandão, em mais um dia comum em que pedia por dinheiro na rua para comprar droga. O seu 'pai', como Fabrício mesmo o chama, o levou para Blumenau, onde começou o processo de recuperação e onde ainda continua, agora como funcionário da instituição que o acolheu. Hoje, os dois dividem a convocação para a seleção brasileira. Os dois defendem, lado a lado, as cores do Brasil no Pan-Americano de Basquete Máster, que vai de 18 a 26 de março.

"Essa história não é só minha. Tem uma galera que também está por trás. Não só, mas também pela frente, pelos lados... Está tudo junto", conta. "É a turma da Pirelli, de Santo André. Eu sempre vou falar desses caras, que me trouxeram para cá, um bom lugar. E eu ainda não saí, ainda estou aqui", agradeceu o jogador.

A VOLTA POR CIMA

Fabrício não esconde seu amor pelo basquete. Pelo contrário. Acredita que o esporte tenha sido peça fundamental para seu processo de reabilitação. Do mesmo jeito que a modalidade lhe apresentou más influências no passado, também lhe trouxe fé no futuro, na sua reabilitação e na vontade de fazer o bem ao próximo.

"A importância do basquete na minha vida é imensa, não dá nem para medir", refletiu. "Principalmente as amizades que fiz jogando basquete eu vou levar para a vida toda". Fabrício conta que tem amigos desde os 11 anos e que se falam até hoje. No Clube do Aramaçan, em Santo André, acontece um encontro anual entre os antigos companheiros para festejar a sobriedade de Fabrício. O próximo evento acontece no dia 9 de abril.

"É uma satisfação poder contar novamente sobre essa caminhada, essa trajetória até agora", agradeceu ao Estadão. "Desde 2018, quando a gente falou sobre minha fase difícil como dependente químico. E depois de uns dois anos eu estava ali, fazendo o programa. Eu já tinha dado a volta por cima e tinha voltado a fazer o que mais amo: jogar basquete."

O atleta se casou com Karen, também jogadora de basquete do Sport do Recife, que disputa a LBF (Liga de Basquete Feminino). Este também foi um momento bastante marcante em sua retomada pelo prazer de viver. "Muitas coisas boas têm acontecido, mas o basquete tem sido sempre o foco da minha alegria", diz. "Eu tenho Deus em primeiro lugar, acima de tudo. Mas aquilo que Ele me permite fazer, sempre escolho jogar basquete. Então, toda vez que posso treinar, me condicionar fisicamente, ou entrar na quadra vestindo a camisa de qualquer time, ou simplesmente num racha... Esta tem sido a minha maior alegria. E peço a Deus para que Ele possa continuar permitindo que eu faça isso por muitos anos ainda."

COVID-19

Em 2019, veio a pandemia de covid-19, no momento em que Fabrício ia viver o momento mais importante de sua carreira: vestir a camisa da seleção brasileira pela primeira vez em uma competição. Para quem superou anos de dependência química, o novo coronavírus foi só mais um obstáculo a ser superado pelo jogador. "Acabei tendo de parar um pouco de treinar na pandemia, quando as academias fecharam. Os torneios pararam."

"Eu tive de manter a minha consciência de atleta e me cuidar no local onde eu vivo e trabalho", contou. "Essa nova esperança vem todo dia. Porque as dores estão aumentando, a idade está pesando, mas eu continuo tendo prazer em fazer isso: jogar basquete num nível legal, competitivo. Hoje mais como hobby, mas quando a gente entra em quadra é pra valer. Consegui estar jogando em alguns torneios e agora estou viajando para ter essa experiência inédita na minha vida, que é vestir a camisa da seleção brasileira num torneio internacional."

MISSÃO DE VIDA

Enquanto fazia alguns exames para dar início ao seu processo de reabilitação, em 2016, Fabrício descobriu que havia contraído o vírus HIV. Tratar e se recuperar de anos de vício em drogas já seria algo complicado. Tendo descoberto que neste tempo contraiu Aids, seria ainda mais difícil, devastador para a maioria das pessoas. Mas não para Fabrício. No fundo do poço, ele só ofereceu uma única possibilidade a si mesmo: começar a subir novamente.

Ele exalta, com muito orgulho, sua bandeira pela prevenção do vírus HIV e de que é possível largar o vício das drogas. "Eu vivo falando da prevenção e da recuperação. E a gente tem mais gente para resgatar", diz. Hoje, Fabrício continua morando no Cerene (Centro de Recuperação Nova Esperança), em Blumenau (SC), mas desta vez como funcionário. Uma vez paciente, hoje ele usa de sua experiência para prestar serviços na entidade que o ajudou. "É muito legal a gente poder contar um pouco da nossa história, para outras pessoas que ainda estão sonhando e isso nos motiva nos inspira", disse.

No Cerene, Fabrício faz um pouco de tudo. Com exceção dos trabalhos administrativos e de cozinha, ele ajuda em tudo que o Centro precisa. Sua principal função é, ao lado de mais um colaborador (que também já foi paciente), cuidar do pátio. Pela manhã, os dois ajudam os acolhidos adultos a fazerem atividades práticas. Uma terapia que ajuda com o cuidado e o zelo para com a instituição. Cuidam da grama, do jardim, da horta, da limpeza e zeladoria.

À tarde, começam as atividades terapêuticas, com terapeutas pastorais e psicólogos, que fazem atividades grupais, mas que também promovem um acolhimento individual. Mas o foco de Fabrício no Cerene é esse: orientar e cuidar dos acolhidos, que são aproximadamente 50 pessoas. O atleta já chegou a trabalhar com adolescentes, mas a experiência foi bem diferente. É necessário um cuidado maior com relação à convivência e a programação diária.

"É um trabalho de reeducação. Ou, muitas vezes, de educação", explica Fabrício. "Às vezes chega um alcoolista que não sabe nem arrumar a cama. Tem de todos os dias insistir e motivar. E orientar para o novo estilo de vida. Um modelo de como nós também podemos mudar esses hábitos, que vão refletir na vida em sobriedade. Tudo isso faz uma diferença muito grande."

Fabrício conta que, mesmo inserido na instituição que o acolheu tão bem, não pensa em assumir cargos administrativos. Ele é mais do estilo 'mão na massa'. "No 'campo de batalha' acho que é mais a minha praia. É bem cansativo. No final do dia eu saio exausto. Muito cansado. Mas é gratificante. No dia seguinte eu tenho sempre conseguido levantar com ânimo e com força para começar tudo de novo. A gente está sendo um modelo para estes acolhidos que amanhã podem estar no nosso lugar. E se não for dentro do Cerene, pode ser fora também."

"A vida no uso é muito fácil, tá? A gente sofre e tal. Mas a vida com compromisso, com responsabilidades é mais difícil sim, mas ela faz sentido. Ela é muito mais gratificante. É prazerosa, de verdade. Todo dia acaba sendo uma luta e uma vitória. Agora, quando a gente está no uso, a gente não tem compromisso com nada. É só tomar mais um gole, dar mais um trago, fumar mais uma pedra", completou.

ESPORTE NO SANGUE, A SELEÇÃO E O AUGE

Fabrício teve - e ainda tem - uma trajetória bonita e vitoriosa. Vem de um lar onde sua mãe foi atleta e seu pai um respeitado árbitro profissional a nível mundial. O caminho para ele já estava praticamente traçado. Durante sua infância, acompanhou sua mãe, sua principal influência esportiva, em inúmeros campeonatos e conversou com diversos atletas que marcaram sua vida. Ela praticava basquete, vôlei e salto em altura. Era alguém que, em Jogos Abertos, participava de praticamente todas as competições.

Encerrou sua carreira em Santo André, jogando basquete. Formou-se em Educação Física, mas não exerceu a profissão por muito tempo. Abriu uma malharia e Fabrício conta que sua mãe confeccionou o primeiro agasalho usado pela rainha Hortência, que era bem nova na época e ainda dava os primeiros passos rumo a uma carreira de sucesso.

Seu pai, com quem sua mãe não era casada, foi árbitro internacional de basquete. Mas, também chegou a apitar futebol por um curto período. Uma curiosidade sobre cada um deles: a mãe de Fabrício chegou a ter índice para participar de uma Olimpíada (que ele não lembra qual exatamente), mas acabou não indo por ter medo de andar de avião. Seu pai apitou jogos em Porto Rico, um lugar bem difícil de exercer tal profissão, pois o povo tinha uma cultura mais agressiva, mais violenta. Não era qualquer um que apitava jogo por lá.

Durante sua carreira, Fabrício jogou com renomados jogadores, como Leandrinho Barbosa, Anderson Varejão e Nenê Hilário. Hoje, com a camisa da seleção brasileira master, está vivendo um sonho. E como todo atleta competitivo, sabe que deve manter o foco para representar bem o Brasil em um torneio continental. "Não sei o que eu vou encontrar lá, mas eu estou muito confiante de que a gente vai representar. Não só eu, mas o time. A gente está bem comprometido."

"Eu cheguei aqui tentando sempre me destacar nos times em que eu estive jogando, nestes torneios máster, amador... Em todos que me convidam, que eu consigo ir, eu vou. Me organizo no trabalho, tiro folga, férias, vou jogar e volto. O trabalho tem sido bem intenso, e isso também tem me ajudado bastante a me comprometer com a vida, não só com o basquete."

Bem mais que um esporte e mais que uma ferramenta de recuperação, Fabrício fez do basquete sua vida. "O basquete é o meu lifestyle, é o estilo de vida do Fabrício. Eu já tentei comprar uma prancha para surfar, mas não dá. Eu sempre volto pro basquete."

"Acho que assim, hoje a gente pode considerar que eu estou no auge. Não estou no auge da minha condição física, mas sim no auge da alegria, do prazer, sabe? De ainda estar vivendo uma vida de atleta. Uma vida de jogador de basquete. Não sou profissional, mas ainda consigo exercer bem essa atividade. Estou tentando cuidar do meu físico, do meu mental, do meu espiritual... Isso tudo junto, para que eu consiga fazer isso por muitos anos ainda", comentou. 

"É um outro tipo de auge, que vai além do jogador profissional. Eu estou muito feliz mesmo", finalizou.

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