Divulgação/FPB
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Documentos apontam diferença de R$ 200 mil nas contas da Federação Paulista de Basketball

Em 2019, presidente Enyo Correia fez transferências da conta da FPB para a da sua empresa e, vice-versa, e parte do valor não voltou para a entidade

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

14 de janeiro de 2020 | 18h00

Documentos obtidos com exclusividade pelo Estado apontam uma diferença de R$ 201.793,00 nas contas da Federação Paulista de Basketball em 2019, após o presidente Enyo Correia, reeleito para o quadriênio 2020-2024 em dezembro, realizar diversas transferências bancárias da conta da FPB para a da SPM Comércio e Promoção de Eventos Esportivos, sua empresa, ambas no Banco do Brasil, e vice-versa, durante todo o ano passado.

Ao todo foram 87 transferências da conta da FPB para a da SPM no valor de R$ 1.335.350,00 e outras 148 da conta da empresa para a da entidade, totalizando R$ 1.133.557,00. Questionado pela reportagem, Enyo não explicou o motivo das transações para sua empresa nem o destino da diferença de R$ 201.793,00. A última transferência de 2019 foi realizada no dia 30 de dezembro, quando R$ 32 mil foram enviados da conta da FPB para a da empresa.

"Qualquer opinião sobre movimentações estará disposta no balanço a ser apresentado, quando então serão esclarecidos eventuais questionamentos e demonstradas a origem e o destino de valores monetários", explicou Enyo, em nota. "Os dados serão apresentadas na prestação de contas do ano em assembleia competente, cujo balanço estará à disposição", completou.

O presidente reconheceu a veracidade dos documentos obtidos pela reportagem ao confirmar, em nota, que os mesmos foram alvo, segundo ele, de um furto virtual e que há uma perícia em andamento na FPB para descobrir o responsável por vazá-los.

A SPM, segundo afirmou Enyo, foi criada apenas para uma situação emergencial. A empresa, que é uma Eireli (Empresa Individual de Responsabilidade Limitada), emitiu boletos de cobranças - primordialmente para o recebimento do pagamento de taxas dos clubes - em nome da FPB de dezembro de 2017 até junho de 2018 por ocasião do bloqueio das contas da entidade por causa de dívidas. A manobra é alvo de investigação da Polícia Civil, que pediu o indiciamento de Enyo pelo crime de estelionato, em agosto de 2019.

O Ministério Público fez alguns pedidos à polícia para dar continuidade ao processo e determinou segredo de Justiça. A investigação é conduzida pelo 65º Distrito Policial de São Paulo, localizado em Artur Alvim, próximo da estação de metrô de mesmo nome onde os boletos da SPM foram encontrados por uma pessoa e entregues no DP em 30 de julho do ano passado.

Segundo o Estado apurou, os investigadores receberam os dados da conta pessoal do presidente na última sexta-feira após o pedido de quebra do sigilo bancário de Enyo ter sido atendido e esperam receber os da conta da FPB e da SPM nesta semana.

Apesar da investigação em andamento, o dirigente se reelegeu em dezembro do ano passado em uma eleição bastante polêmica. A chapa de oposição, formada por Marco Antonio Aga, Antonio Souza e Paulo Tadeu, entrou com uma ação para suspender o pleito alegando ilegalidade na votação do novo estatuto em 2017.

Na ação, a advogada Erika Parisi de Oliveira Machado pediu a suspensão dos efeitos da alteração do estatuto realizada em uma suposta assembleia geral extraordinária datada de 31 de maio de 2017 e registrada apenas em 26 de junho de 2019. Segundo o pedido, as pessoas que assinaram o documento ou eram funcionários da entidade ou representantes de clubes sem poder de voto, como o ex-diretor do EC Pinheiros, Carlos Osso. Ele chegou a enviar uma notificação ao presidente da FPB para ter o nome retirado do documento 15 dias antes do pleito.  

O pedido de suspensão da eleição não foi aceito, mas o processo para invalidar o estatuto continua em andamento. A chapa de oposição, no entanto, não conseguiu atender aos requisitos determinados por Enyo para se inscrever no pleito e ele foi reeleito sem necessidade de votação. Ao todo 27 dos 48 clubes filiados à FPB compareceram à sede da entidade no dia 20 de dezembro.

DESPESAS

Os documentos obtidos pela reportagem mostram ainda que Enyo, além de receber salário como presidente da FPB - situação prevista na Lei Pelé - teve diversas despesas pagas pela entidade, como aluguel e condomínio do apartamento em que mora em São Paulo.

Enyo informou que os seus gastos são baseados nos benefícios recebidos pelo antecessor. Ele assumiu o cargo na FPB após o então presidente Antônio Chakmati morrer em 2015. "Tenha a certeza que todas as ações referentes a despesas envolvendo este diretor foram informadas à diretoria baseado sempre nas despesas do antecessor. Para se ter uma ideia, o antecessor dispunha de uma assistência médica cujo montante somente dele atingia um valor de R$ 6.000,00, o que não ocorre atualmente", se defendeu, em nota.

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