Laura Capelhuchnik/Estadão
Laura Capelhuchnik/Estadão

Entenda por que a NBA está planejando ir para a Disney World

Atrás dos castelos e grandes atrações de entretenimento se esconde um complexo de quase um quilômetro quadrado para a prática de diversos esportes

Brooks Barnes, The New York Times

04 de junho de 2020 | 08h22

A NBA decide nesta quinta-feira como será a retomada da principal liga de basquete do mundo. Dentre outras novidades, a principal delas é o fato dos jogos serem realizados em um local fixo, na Disney. Mas, piratas cantando e xícaras de chá rodopiando. Waffles em forma de Mickey Mouse. Funcionários inacreditavelmente tagarelas cantando “Tenha um dia mágico”. Engarrafamento de carrinhos de bebê. Parece um bom lugar para esportes?

A Walt Disney World é conhecida por muitas coisas, mas poucas pessoas a associariam imediatamente ao esporte, a menos que você ache que as longas caminhadas são prova de resistência ou leve a sério os vencedores do Super Bowl que exclamam alegremente sua intenção de visitar a Disney - uma estratégia de marketing que começou em 1987. Mas, escondido atrás de carvalhos e palmeiras no extremo sul do mega-resort da Flórida, está o ESPN Wide World of Sports, um complexo de quase 1 quilômetro quadrado de basquete, futebol, vôlei, lacrosse, beisebol e muita competição que serve como um motor quase despercebido do movimento da Disney World - e que em breve deverá ser a capital do universo do basquete.

A NBA está em negociações com a Disney para reiniciar sua temporada, realizando treinos e jogos no complexo. Jogadores, treinadores e funcionários também ficariam na Disney World, onde a Disney possui 18 hotéis, formando uma forte bolha protetora contra o coronavírus. O complexo esportivo de paredes amarelas que já sediou duas vezes o Jr. NBA Global Championship, está vago desde 15 de março, quando a Disney World fechou as portas por causa da pandemia, fazendo com que a Disney dispensasse mais de 43 mil trabalhadores da Flórida.

“Obviamente, temos capacidade para comportar esse tipo de evento”, disse Bob Chapek, executivo-chefe da Disney, por telefone na semana passada. Ele acrescentou que estava “muito otimista” para fechar um acordo com a liga. Chapek observou que o complexo da ESPN conta com recursos de transmissão “para uso imediato”, como conexão de fibra ótica de velocidade ultrarrápida até a sede da ESPN em Connecticut. A ESPN, de propriedade da Disney, é uma das principais parceiras de transmissão da NBA, que suspendeu a temporada em 11 de março.

As conversas com a Disney preveem o reinício da temporada no final de julho. “Esperamos finalizar esses planos em breve”, disse Mike Bass, porta-voz da NBA, por email na segunda-feira. Aqui estão algumas coisas a considerar enquanto a Disney e a liga concluem o acordo:

O que é o complexo Wide World of Sports?

Tudo na Disney World é colossal - com 100 quilômetros quadrados, é quase o dobro do tamanho de Manhattan - e suas instalações esportivas não são exceção. Três arenas podem ser configuradas em 20 quadras de basquete, de acordo com Faron Kelley, vice-presidente da ESPN Wide World of Sports, Water Parks e runDisney. Isso possibilitaria que a NBA jogasse dois jogos ao mesmo tempo (sem torcida nas arquibancadas) e ainda sobrasse espaço para os treinos.

O complexo também oferece restaurantes, um complexo de atletismo de nove pistas, 17 campos de jogos de grama e um estádio de beisebol com 9.500 lugares - o qual o Atlanta Braves usou para seus treinamentos de primavera por mais de duas décadas. (Eles se mudaram no ano passado para um novo campo, perto de Sarasota, Flórida. A Disney não conseguiu encontrar um novo inquilino).

“O jeito Disney de atender os clientes, é claro, foi incorporado por todas as pessoas que trabalham lá”, disse Richard Lapchick, diretor do programa DeVos Sport Business Management da Universidade da Flórida, por telefone no sábado.

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O jeito Disney de atender os clientes, é claro, foi incorporado por todas as pessoas que trabalham lá
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Richard Lapchick, Diretor do programa Devos Sport Business Management da Universidade de Flórida

Como a NBA escolheu a Disney World?

A liga pensou em vários locais, entre eles a IMG Academy, o complexo esportivo de propriedade da Endeavor em Bradenton, Flórida, mas dois lugares se destacaram na lista: Disney World e Las Vegas. Além da segurança - para criar aquela bolha - também foram levados em consideração os custos. Certamente não passou despercebido por Adam Silver, o encarregado da tarefa pela NBA, que a Disney é o maior cliente da liga, pagando uma quantia estimada por analistas em US$ 1,4 bilhão por ano para transmitir jogos na ESPN e na ABC. A Disney World também dá menos chance de os jogadores arranjarem problemas fora da quadra.

Silver e Robert Iger, diretor executivo da Disney que vem conduzindo as negociações pelo lado da empresa, vivem o que você pode chamar de "bromance". No verão passado, eles posaram para fotos - junto com Mickey e Minnie - na abertura do NBA Experience, uma atração interativa de dois andares na Disney Springs, um shopping center ao ar livre da Disney World. “Ninguém melhor que a Disney para criar experiências memoráveis”, Silver disse na época.

Qual é a vantagem para a Disney?

Os quatro principais parques temáticos da Disney World serão reabertos em meados de julho, mas a entrada será severamente restrita, pelo menos no início. Um acordo com a NBA daria ao resort uma injeção de ânimo muito necessária. Traria os funcionários de volta ao trabalho, passaria a inestimável mensagem de marketing de que é seguro visitar o lugar e geraria ganhos com o uso da instalações e hotéis. Analistas disseram que a NBA gastará, no mínimo, dezenas de milhões de dólares.

Mas o verdadeiro ganho para a Disney viria da ESPN, que está louca para voltar a transmitir esportes ao vivo. Michael Nathanson, analista de mídia, recentemente estimou que a ESPN perderia US$ 481 milhões (R$ 2,4 bilhões) em receita publicitária se a NBA não completasse sua temporada e playoffs. Lapchick caracterizou o acordo como “um grande jogo de ganha-ganha” para a liga e para a Disney.

Onde os jogadores ficarão no resort?

Os fãs do esporte estão se divertindo só de imaginar como as acomodações da Disney World podem ser distribuídas. Será que os jogadores mais bem classificados vão ficar com as mais luxuosas, como as casas com vista para o lago de US$ 1.150 (R$ 5,8 mil) por noite no Grand Floridian da Disney? Um blog sugeriu que os New York Knicks montassem barracas em Fort Wilderness, o camping do resort, a US$ 102 (R$ 515) por noite. Ai!

A Disney e a NBA não comentaram, mas não há chance de os jogadores serem espalhados por uma dúzia de hotéis. A liga usará apenas um ou dois. O Four Seasons, com 443 quartos, está no topo da lista. Ele fica dentro de uma área fechada e ultraexclusiva, perto do centro da Disney World, chamada Golden Oak.

E a Major League de futebol?

A liga de futebol profissional (MLS, na sigla em inglês) também conversou com a Disney sobre os possíveis cenários de retorno aos jogos, mas há discordâncias dentro da liga sobre o momento de voltar aos gramados e os pagamentos.

Uma proposta inicial previa que as equipes ficariam isoladas dentro da Disney World a partir do início deste mês. Os jogadores treinariam por algumas semanas antes de retomar os jogos em agosto. Agora, a liga - depois de uma reação da Associação de Jogadores da MLS - pode ver algumas equipes se reagrupando em seus centros de treinamento antes de se alojarem na Disney World no início de julho, para um torneio que duraria várias semanas. Um porta-voz da liga não quis comentar.

A MLS traria pelo menos 1.200 pessoas ao resort. Um dos alojamentos possíveis: Coronado Springs, hotel da Disney com 2.345 quartos que normalmente hospeda convenções. Ele passou por uma reforma e expansão no ano passado. O Coronado também é bem isolado: não há hotéis adjacentes, como é o caso em outros lugares da Disney World. ESPN, Fox Sports e Univision detêm os direitos de transmissão de futebol. A MLS está suspensa desde 12 de março. / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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