Ronald Martinez/AFP
Ronald Martinez/AFP

Este verão poderá mudar a NBA para sempre

Um calendário drasticamente reconfigurado na realidade está gerando uma discussão cada vez mais acirrada

Marc Stein, The New York Times

20 de março de 2020 | 10h00

A resposta mais autêntica a toda e qualquer pergunta sobre as eventuais esperanças da NBA de reiniciar a sua temporada 2019/2020 é: nenhum de nós tem as respostas.

Será que a liga poderá recomeçar de fato em junho se os jogadores testarem positivo para o coronavírus? Será que os times jogarão alguns jogos da temporada normal, se chegarmos a este ponto, ou iremos pular diretamente nas finais? Os estádios terão de ser fechados aos torcedores quando a liga retornar em agosto ou quem sabe em setembro? Que impacto tudo isto terá para a temporada 2020-21?

Ninguém sabe, infelizmente. Ainda não. “Estamos tentando, e estamos motivados para voltar a jogar assim que for possível”, disse Bob Myers, presidente das operações de basquete do Golden State, em uma chamada de conferência na terça-feira, seis dias depois que a liga suspendeu suas operações. “Todos nós queremos jogar, mas não pondo em risco a saúde de cada um”.

O meu plano esta semana era tentar fazer uma pausa nas questões mais dramáticas do mundo real que vêm se acumulando com a crise do coronavírus.  Queria explicar por que a direção da liga andou explorando todos os caminhos para tentar solucionar algumas destas incógnitas e salvar, de algum modo, um final adequado de sua 74ª temporada.

Então, o Brooklyn Nets anunciou que quatro dos seus jogadores haviam testado positivo para o coronavírus, e Kevin Durant informou ao The Athletic que era um deles. O mundo dos esportes, sem qualquer aviso, foi lembrado mais uma vez de que toda esta situação é muito fluida – e talvez de quão inúteis podem ser os esforços da liga .

Como um dos médicos mais experientes da NBA que eu conheço me disse pouco depois do boletim dos Nets: “Faça de conta que você está com o coronavírus, e tome todas as precauções que puder a fim de evitar que ele se espalhe.”

Entretanto, ainda há otimistas nesta liga – embora sete jogadores e quem sabe quantos mais tenham testado positivo – que se agarram à convicção de que a temporada poderá recomeçar  como estamos vendo acontecer no basquete profissional da China, de onde o vírus se originou. Entre as motivações dos otimistas vemos:

- A NBA coroou um campeão em cada uma de suas 73 temporadas anteriores e quer evitar a mesma conclusão sem brilho e mal resolvida de uma temporada que a principal liga de beisebol (MLB) enfrentou em 1994, quando um impasse trabalhista parou os jogos em agosto. Os diretores da liga querem isto, mesmo que signifique recomeçar depois de um adiamento, que é o primeiro do gênero, para jogar em arenas vazias.

- Já havia sido uma temporada brutal para a liga em termos financeiros antes da epidemia de coronavírus, desde a controvérsia com a China na pré-temporada deflagrada por um tuíte do gerente geral dos Houston Rockets, Daryl Morey, em apoio aos manifestantes pró-democracia de Hong Kong. Durante o All-Star Weekend em Chicago, o comissário da NBA, Adam Silver, calculou que o “considerável” golpe financeiro provocado pelo tuíte de Morey havia custado centenas de milhões de dólares. A próxima conta provavelmente será maior em termos de perda de receitas, reembolsos devidos aos parceiros da televisão, etc., se 11 de março se confirmar realmente como o último dia da campanha da NBA de 2019-20.

- Algumas figuras mais importantes da NBA aprovam um experimento com mudanças radicais do cronograma, como contestar as finais em agosto, estendendo a free agency (quando o jogador fica livre do contrato) até setembro e começar a temporada 2020-2021 no dia de Natal. A ideia não goza de unanimidade; há uma facção ansiosa para que o adiamento forçado da liga por causa da epidemia se torne  um terreno de testes inesperado.

Um calendário drasticamente reconfigurado na realidade está gerando uma discussão cada vez mais acirrada. No domingo, os 30 times da liga foram orientados a intensificar a procura de datas até o final de agosto, nos edifícios da Liga G da NBA (liga de desenvolvimento) e a compartilhar instalações dos times, bem como seus estádios normais, no caso de que a NBA tenha a possibilidade de ver quais serão as finais mais prováveis em julho e agosto.

Os que apoiam esta reformulação, como Steve Koonin, o presidente dos Atlanta Hawks, acreditam que um calendário que vai de setembro a agosto com a abertura no Natal, em contraposição à atual estrutura de julho a junho com abertura em meados de outubro, acabaria colocando a NBA em uma concorrência ainda mais direta com o beisebol e não com o futebol americano universitário e a NFL.

A importância cada vez maior da free agency da NBA como grande sucesso de julho, levou inevitavelmente alguns times a imaginar como seriam populares os maiores finais se fossem realizadas no final do verão e não em junho, empurrando assim o tripé escolha dos novos jogadores, free agency e a liga deste verão até setembro.

Estejam certos de que haverá também certa resistência a mudanças tão amplas, o que teria em última análise de ser negociado coletivamente com os jogadores. Algumas equipes se mostram céticas, e, mesmo no curto prazo, deverão questionar a oportunidade de uma mudança drástica na política com tão pouco planejamento ou uma melhor verificação das consequências imprevisíveis.

Entre as incertezas: Qual será o impacto, bom ou ruim, para a WNBA se a NBA jogar por um período maior de sua temporada ao mesmo tempo?

Poderíamos ver a WNBA/NBA em duas partidas, como Terri Jackson da associação feminina sugeriu recentemente ao jornal USA Today?

O que está claro é que um verão de experimentações seria o lado bom do que, de outro modo, poderia ser uma temporada extremamente difícil e emocionalmente estressante por causa das tensões com a China e a morte de Kobe Bryant e David Stern.

Principalmente depois de uns dias como a terça-feira, quando toda a NBA sofreu outro baque, seria bastante reconfortante se a epidemia, agora pandemia, abrandasse a ponto de a NBA ter a permissão de realizar os jogos em junho, julho e agosto – mesmo sem a torcida.

Significaria que os Estados Unidos, enquanto nação, deram a volta por cima de uma maneira fantástica.

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