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Fechadas e sem a temporada do basquete universitário, apostas esportivas enfrentam novas pressões

Cassinos pensavam em atrair torcedores visitantes, mas foram fechados por conta da pandemia de coronavírus

Alan Blinder e Kevin Draper, The New York Times

07 de abril de 2020 | 10h00

O cassino Horseshoe Council Bluffs tinha planejado uma campanha de publicidade, pensando em atrair os torcedores visitantes do basquete universitário para seu livro de apostas. A rival Ameristar gastou cerca de US$ 750 mil na reforma de um espaço para o grande número de amantes do esporte que esperava receber em sua propriedade às margens do Rio Missouri, que apostariam nos resultados do campeonato universitário de basquete, do torneio de golfe Masters e os demais eventos da época.

O segundo trimestre deveria servir como vitrine para os resultados do experimento de Iowa com as apostas esportivas, iniciado há oito meses. Mas a pandemia do coronavírus fechou praticamente todos os cassinos dos Estados Unidos, levando a associação de basquete universitário NCAA a cancelar seus famosos torneios masculino e feminino, tradicionalmente realizados em março. As três intensas semanas de jogos — 130 partidas somando as equipes masculinas e femininas, atraindo torcedores casuais com “bolões" no escritório e resultados decididos no último segundo — teriam se encerrado na noite de segunda feira, com a final masculina.

Mas as empresas de apostas perderam o grande fluxo de visitantes e apostas com os quais estavam contando. “Os campeonatos universitários de março são como o supra-sumo das apostas esportivas", disse Yaniv Sherman, principal executivo americano da 888 Holdings, que oferece apostas esportivas em três estados, mas não em Iowa. “Trata-se de uma combinação única de acontecimentos imprevisíveis em um intervalo curto.”

Os cassinos foram dizimados pelo acerto de contas econômico causado pela epidemia. De acordo com a Associação Americana de Jogos de Azar, grupo que representa a indústria, 987 dos 989 cassinos do país estavam fechados no início de abril, conforme os esforços para deter a disseminação do vírus se intensificaram. O valor das ações de muitas empresas de jogatina teve queda de 60% ou mais, refletindo o pessimismo do investidor em relação ao seu futuro.

Pouco depois de governos estaduais com problemas de caixa terem se voltado para as apostas esportivas como nova fonte de receita, as operadoras de apostas e cassinos que normalmente anseiam por oportunidades de expansão estão enfrentando dificuldade para manter as luzes acesas nas propriedades que já possuem.

No seu conjunto, o fechamento dos esportes e de tantos gastos com o lazer foi uma reviravolta notável para uma indústria menos de dois anos após uma decisão da suprema corte que abriu caminho para as apostas esportivas em todo o território americano, e também para uma nova geração de apostadores - ao menos essa era a esperança dos executivos de apostas. Para eles, o ano atual seria particularmente promissor. Havia mais livros de apostas esportivas abertos, a Califórnia poderia votar em novembro para decidir se pistas de turfe e cassinos de tribos indígenas poderiam oferecer apostas esportivas, e antes de se aproximar o espectro de uma recessão, um número cada vez maior de estados pensava em permitir apostas em resultados e atletas.

Até a NCAA, que há muito se opunha às apostas esportivas, ao ponto de levar à Suprema Corte um processo contra essa prática, tinha aceitado relutantemente que as apostas seriam parte da vida americana, sob uma forma ou outra. Uma dúzia de partidas do torneio masculino seriam disputadas a menos de 40 quilômetros de uma central de apostas; na temporada anterior, nenhuma das 67 partidas desse campeonato foi realizada tão perto de um local de apostas legalizadas.

A NCAA, com sede em Indianápolis, fica agora a cerca de um quilômetro e meio de uma central de apostas, e já tinha rescindido uma política proibindo campeonatos realizados em estados que permitissem apostas em resultados de partidas individuais.

A evolução desse panorama — no ano passado, Iowa decidiu legalizar as apostas esportivas a partir de agosto — deixou Council Bluffs e seus cassinos em posição de embolsar um lucro inesperado com o basquete universitário em março, mesmo sem receber nenhuma das partidas. Isso porque Omaha, em Nebraska, a menos de 10 minutos de carro, receberia seis partidas. Para fazer uma aposta legítima, tudo que um torcedor tinha que fazer seria atravessar o Missouri. “Ainda que haja uma separação entre igreja e estado, por assim dizer, é a primeira vez que essa fronteira se torna mais tênue", disse em fevereiro Samir Mowad, gerente-geral de dois cassinos da Caesars Entertainment em Council Bluffs.

As tendências em outros mercados de cassinos indicaram claramente que o campeonato universitário e as partidas em Omaha seriam uma oportunidade para os cassinos de Council Bluffs atraírem pessoas que poderiam ficar em Nebraska, interessando aos mais jovens, que costumam evitar os jogos de mesa e os caça-níqueis.

Ainda que as apostas esportivas tenham correspondido a apenas 3% da receita proveniente de jogos de azar em Nevada no ano passado, elas foram um fator importante ao trazerem muitos apostadores aos cassinos, onde gastam com quartos de hotel, restaurantes e entretenimento. E ainda que o principal objeto de apostas em Nevada em 2019 tenha sido o futebol americano, a maior quantia apostada em um único esporte em um único mês foi no basquete, em março, fenômeno impulsionado principalmente pelo campeonato universitário.

Em Iowa, onde apostadores investiram pelo menos US$ 327 milhões desde agosto, executivos de cassinos não quiseram comentar as previsões para apostas ligadas a torneios, dizendo apenas esperarem milhões de dólares em apostas que seriam feitas somente nas propriedades de Council Bluffs.

Em Nebraska, onde é mantida uma loteria desde 1993, executivos do setor de hospitalidade e críticos das apostas esportivas tinham aceitado que o estado cedesse a Iowa parte dos ganhos com o basquete. Mas alguns deles ainda hesitavam quanto à ideia de levar os jogos de azar para o outro lado do Rio Missouri. “É claro que as assembleias legislativas estaduais adorariam dizer, ‘Vamos tributar essa atividade e ganhar algum dinheiro’, mas, às vezes, não são levados em consideração os pedidos de recuperação judicial e os custos sociais da jogatina", disse o republicano Tom Osborne, ex-congressista que comandou a equipe de futebol americano de Nebraska por 25 temporadas e há muito se opõe aos jogos de azar no seu estado natal.

Um porta-voz não entrou em contato com Mowad com nosso pedido de entrevista após a decisão da NCAA e o fechamento dos cassinos. Em comunicado publicado em seu site, a Caesars disse que vai “trabalhar com as autoridades locais para definir uma data de reabertura tão logo seja possível fazê-lo".

E a NCAA, que há muito resiste às apostas e segue impedindo que muitas pessoas ligadas aos esportes universitários se envolvam com apostas, terá que esperar mais um ano para saber como uma expansão das apostas vai afetar seu principal evento. Representantes da NCAA esperavam que muitos estados buscassem a legalização das apostas após a decisão da suprema corte, mas alguns funcionários ficaram surpresos com a velocidade com a qual os governos aprovaram novas leis e regras. Catorze estados permitem algum tipo de aposta esportiva, enquanto outros seis preparam o funcionamento desse sistema, de acordo com a Legal Sports Report.

A pressão sentida pelos estados que tentam arrecadar mais com a expansão das apostas esportivas e relaxamento das regras para apostas online e cassinos na internet pode se intensificar conforme a pandemia gerar mais estragos econômicos. Mas, primeiro, os operadores de apostas esportivas terão que sobreviver por tempo o bastante.

“Lamentamos as difíceis escolhas que tivemos de fazer", disse por e-mail o diretor executivo da MGM Resorts International em março, anunciando que todas as propriedades americanas da MGM seriam fechadas. Os operadores de cassinos se juntaram a uma série de outras indústrias que pedem ajuda federal para manter suas operações em meio à crise de saúde. “Não acho que as apostas estejam particularmente isoladas das pressões econômicas", disse Chris Grove, analista da Eilers & Krejcik Gaming. / Tradução de Augusto Calil

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