Nilton Fukuda/Estadão
Nilton Fukuda/Estadão

'Ficou uma mensagem clara de que precisamos deles', afirma Magnano

Treinador da seleção de basquete fala sobre a ausência dos principais atletas brasileiros durante a Copa América

Marcius Azevedo e Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

12 de março de 2014 | 05h00

SÃO PAULO - O técnico da seleção brasileira masculina de basquete, Rubén Magnano, adotou fora de quadra estilo similar ao jogo que destina aos times que comanda. A pouco mais de quatro meses para o Mundial da Espanha não é mais hora de atacar. O argentino, adepto de uma defesa consistente, adotou um tom reconciliador em entrevista exclusiva em visita ao Estadão

O campeão olímpico, claro, repetiu que há necessidade de um comprometimento total dos jogadores, mas afirmou que o bom desempenho na competição que começa no dia 30 de agosto passa necessariamente pela presença das principais estrelas brasileiras. Neste caso, os atletas que atuam na NBA.  

"Ficou uma mensagem muito clara e objetiva para os jogadores de que precisamos deles e sem eles o Brasil não terá o nível de competição que merece", comentou Magnano, citando o que ficou de positivo da pífia campanha na Copa América da Venezuela, em agosto do ano passado. Mas reforçou: "Sem comprometimento não vamos conseguir nada."

Como foi o processo para aguardar o convite para o Mundial e, sem ele, o que afetaria o seu trabalho?

RUBÉN MAGNANO - Foi muito especial para mim porque eu nunca vivi uma situação esportiva desta maneira. A desclassificação em Caracas (na Copa América) provocou muita tristeza não só por mim, mas para o basquete. Quanto fiquei sabendo da possibilidade de ser convidado comecei a alimentar uma esperança. Vivi todos estes messes muito inquieto, com muita esperança que o Brasil não perca esta sequência de estar presente em todos os Mundiais. Mesmo porque o Brasil está vivendo um crescimento, mesmo que gradual, e ficar fora deste Mundial seria um retrocesso. Foram meses de muita expectativa até que ligaram para eu ir à Espanha. Acho que o Brasil merece estar lá, o Brasil precisa estar lá.

O quanto te incomoda não ter conseguido classificar em quadra?

RUBÉN MAGNANO - Nós fomos a Caracas com uma equipe que precisava jogar no limite total para se classificar. O nível do torneio foi muito duro, mas não é uma justificativa. Durante o torneio o time não esteve no nível das circunstâncias e sofreu várias adversidades. A avaliação que faço é que o Brasil não pode abrir mão de nenhum torneio e a quantidade de atletas que pediu dispensa, sem dúvidas, afetou muito o desempenho. De positivo ficou uma mensagem muito clara e objetiva para os jogadores de que precisamos deles e sem eles o Brasil não terá o nível de competição que merece, como aconteceu na Olimpíada, com o quinto lugar, jogando de igual para igual com as principais potências. Precisamos do comprometimento de todos. Sem comprometimento não vamos conseguir nada. Estamos tentando fazer um processo de conscientização, mas a última palavra é sempre do jogador. 

Como o resultado da Copa América vai influenciar em sua convocação?

RUBÉN MAGNANO - Hoje trato de ser muito objetivo na minha cabeça, com um porcentual saudável de cuidar da imagem esportiva do Brasil. Um treinador não pode ficar com rancor, apesar de tudo, principalmente em Caracas, quando vivemos algo muito desagradável. O técnico tem de ter a grandeza de não se colocar acima do Brasil. Ninguém está acima do Brasil, nem jogadores nem treinador ou dirigentes. Este é meu sentimento e nossa necessidade.

Você já conversou com os jogadores que atuam na NBA?

RUBÉN MAGNANO - Tenho uma intenção muito grande de fazer uma visita de uma semana ao grupo de jogadores que estão nos Estados Unidos e depois viajar para a Espanha e fazer outra visita lá. Eu preciso ter um contato direto com os atletas para esclarecer a situação. A CBB conversou com eles muito antes do convite e agora esta visita será para alinhavar esta conversa anterior.

A temporada dos brasileiros que atuam na NBA foi marcada por lesões. Como isto atrapalha na preparação para o Mundial?

RUBÉN MAGNANO - Sempre uma lesão é uma adversidade para uma futura convocação, mas não é um impedimento. Estamos a quatro meses do inicio do trabalho visando o Mundial. Temos muito tempo, mas me preocupa que os lesionados percam timing de jogo. Só espero não ter nenhum impedimento das franquias da NBA com estes jogadores.

Tem um jogador que te preocupa mais? Talvez Nenê e Varejão?

RUBÉN MAGNANO - Eu tive a oportunidade de trabalhar com eles e são caras que estão presentes nos momentos chave. O Varejão realmente está sofrendo com dores nas costas. Me preocupa um pouco o negócio do Nenê com seu pé, mas ele esteve jogando quase 29 minutos por jogo, com quase 15 pontos, 8 rebotes e três assistências de média. Estes números mostra que ele está bem.

Você disse ter ficado magoado com o Marquinhos. Você conversou com ele?

RUBÉN MAGNANO - Marquinhos foi parte importante da equipe que jogou o pré-olímpico de Mar Del Plata, atuando em um nível muito alto e é um ala que o Brasil precisa. Ainda não tive oportunidade de falar com ele, mas felizmente o Marquinhos está atuando e sua recuperação foi boa. Eu, como treinador, conto com a presença dele.

O Brasil tem uma posição mais carente?

RUBÉN MAGNANO - Nosso maior problema está nas alas. Fizemos uma experiência de ir ao mundial universitário da Rússia e nosso esforço foi direcionado a trabalhar meninos que jogam nesta posição e ainda seguimos trabalhando. Não vejo prontos substitutos para os alas de hoje, por exemplo.

A escola argentina dá ênfase na defesa, enquanto a brasileira sempre privilegiou o ataque. Como você avalia este tipo de criticas?

RUBÉN MAGNANO - Acho que já faz muito tempo que se rompeu este paradigma, até porque temos muitos jogadores que atuam em escolas europeias, que sabem perfeitamente o que acontece quando um defensor não está presente na defesa. Temos que chutar de três, mas se as condições estão boas para o tiro. Eu acredito em um jogo solidário, em boas tomadas de decisão, mas ainda com uma boa situação defensiva.

Como recebeu as críticas do Oscar Schmidt, que pediu inclusive sua demissão?

RUBÉN MAGNANO - Respeito muito o Oscar. Ele também é responsável pelo convite que recebemos para o Mundial por tudo que fez pelo Brasil, assim como Wlamir, Amauri. Não tenho problemas com as críticas dele. Ouvi algumas coisas, mas é estranho, porque antes da Copa América ele considerava o trabalho positivo. Quero ter oportunidade de encontrá-lo para esclarecer.

Como você avalia o nível técnico e tático do NBB?

RUBÉN MAGNANO - Acho que pelos anos que têm o NBB (6 anos), é uma criança. Contra as grandes ligas é muita diferença, mas para o que cresceu a competição está ótimo.Hoje estamos falando que Pinheiros e Flamengo vão jogar a Liga das Américas. É um indício muito grande de como o basquete no Brasil está crescendo. Outro destaque é a incorporação da segunda divisão, onde o principal time sobe pelo desempenho em quadra. Isso cria uma ideia de competição muito importante.

Existe alguma festa marcada para comemoração dos 10 anos do ouro olímpico em Atenas?

RUBÉN MAGNANO - Existe uma movimentação na Argentina para se fazer um amistoso entre as estrelas do mundo contra aquela equipe. Mas nada oficialmente. Pessoalmente é um enorme orgulho. Já falei isso e vou repetir, o que fica neste caso é a gratidão das pessoas. Não me canso de receber agradecimentos do povo argentino. Acho que vou ter tempo de ficar olhando a televisão e recordar o momento, mas quando quero me dar uma ducha de autoestima acabo assistindo uns minutinhos.

Foi o melhor grupo que você comandou?

RUBÉN MAGNANO -  Tenho que dizer que sim. Era um grupo muito inteligente e focado no que queriam para seu país.

É essa essência que você quer dos jogadores brasileiros?

RUBÉN MAGNANO - A comparação é muito difícil. Eu quero que isso aconteça com o time principal e também com os garotos. Na primeira vez que vim ao Brasil se preparar para o Mundial da Turquia convidei alguns garotos para treinarem com o time principal. Um garoto me pediu para assistir o treinamento e eu disse: Você não só pode assistir, vai jogar com eles. Depois do treinamento chamei todos eles e falei: Vou pedir só uma coisa para vocês.Não esqueçam de sua seleção. Alguns pegaram a mensagem, outros não.

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