Gabriela Biló/Estadão
Gabriela Biló/Estadão

'Há necessidade de estrutura para permanecer em anos bons e ruins'

De volta à presidência da LNB, Kouros defende uma gestão profissional dos times para minimizar os efeitos da perda de patrocinadores   

Entrevista com

Kouros Monadjemi, presidente da Liga Nacional de Basquete

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

12 de dezembro de 2018 | 04h30

Kouros Monadjemi, 73 anos, está de volta à presidência da Liga Nacional de Basquete. Primeiro presidente da LNB, em 2008, o dirigente promete uma gestão de reflexão para os próximos dois anos, que terá como foco principal o desenvolvimento dos clubes para que eles possam depender cada vez menos da continuidade dos patrocinadores para sobreviver. Em entrevista ao Estado, ele defende ainda o modelo multiplataforma, fala da parceria com a NBA e da relação com a Confederação Brasileira de Basquete

Quais os primeiros passos da sua gestão?

O mundo está girando tão rápido. As coisas acontecem em uma velocidade incrível. O que fizemos em dez anos da liga? Transformamos teoria em realidade. Foi um período de construção. Agora chegou o momento de reflexão e renovação. O que podemos realizar para os clubes se integrarem mais, melhorarem sua governança. Você não começa uma equipe contratando um grande jogador, mas com gestão, estrutura, se profissionalizando, entendendo o conceito de que o basquete é um somatório  de coisas. Estamos focados em como cativar o torcedor. Tudo isso é um bumerangue, que vai te dar o retorno. O nosso maior objetivo é massificar o basquete e levá-lo para o segundo lugar entre os esportes mais amados do País. Vamos mudar algumas coisas, mas sempre buscando uma ascensão.  

Neste aspecto, Franca e Flamengo precisam ser exemplos e não causarem inveja pelo alto investimento? 

Há três anos, o Franca estava quebrado, com muitas dívidas. Estávamos preocupados que iria acabar. A dona Luiza (dona do Magazine Luiza) salvou uma cidade e virou um modelo para os clubes. O Flamengo também. No começo da liga, o Flamengo era o time que não pagava salários, era desorganizado e hoje está estruturado. Temos também Minas, Pinheiros e Paulistano, que são clubes sociais e são organizados. Fizemos uma auditoria em todos os times, sabemos os pontos fortes e fracos. Agora vamos buscar conscientizá-los de que há uma necessidade de ter uma gestão profissional para atingir um patamar maior.

Há como criar mecanismos para evitar que todos os anos algum clube desista do NBB?

A liga acredita que tem um negócio na mão. São os clubes, apoiados por patrocinadores, e estamos enveredando no mercado de mídia. É o futuro. A gestão anterior criou o conceito de multiplataforma. Saímos da concentração de um canal para abrir o leque para todo mundo. Queremos cativar o público e buscar retorno para os clubes desta maneira. Atualmente, se o patrocinador sair, o clube pode desaparecer. Por isso, há necessidade de uma estrutura para permanecer em anos bons e ruins. O nosso desejo é que a liga possa dar um retorno para os clubes do investimento que eles buscam fazer. Aí voltamos na questão da governança. Os clubes produzem espetáculo e vendem. Temos de ter este retorno para sobreviver sempre.

A saída da Globo para o modelo multiplataforma te agrada?

A liga não estaria onde está sem a Globo. Foi uma relação muito importante. Mas o mundo está mudando. Nós não saímos da Globo. A Globo nos disse que o mundo está mudando. E nós dissemos para a Globo que o mundo é outro. Nós mudamos a nossa visão. Não estou criando nada. Estou acompanhando o mundo. Será que teremos televisão daqui três anos? Não sei. Se tiver streaming, vou para streaming. Se tiver OTT, vou para OTT. Acredito que o multicanal nos abriu um leque. Temos o jovem que gosta do Facebook e do Twitter. O senhor que gosta da Band. Quanto tempo isso vai durar? Não sei. É uma experiência ousada, um investimento alto, mas quero buscar o retorno disso. Estou vendo gente querendo nos copiar, o que é um bom sinal.

Como vê a parceria com a NBA?

O nome da NBA é igual o da Coca-Cola. Todo mundo conhece. O nome da NBA tem ajudado muito, traz credibilidade. A troca de informações, com diversas clínicas de profissionais, é muito importante. A participação das equipes do NBB na pré-temporada da NBA também. Somos também um instrumento da NBA para ativar o basquete no Brasil, com lojas, etc. É uma parceria que queremos aperfeiçoar e perpetuar.

O São Paulo confirmou presença na Liga Ouro. É mais um time ligado ao futebol. Qual a importância disso?

Estes clubes são muito importantes, mas com uma ressalva. Não queremos clube de futebol que nunca ouviu falar de esporte olímpico. Flamengo, Vasco, Botafogo, Corinthians, São Paulo, todos eles têm estrutura de esporte olímpico. O que ainda está errado, e queremos cortar isso, é que o esporte olímpico ainda está ligado ao futebol. O Flamengo conseguiu. Hoje é totalmente independente. Temos de saber utilizar os times de futebol pelo interesse nas marcas. 

Pretende mudar algo no formato da Liga de Desenvolvimento?

É o nosso menino dos olhos. É onde temos de buscar os novos valores. A ideia inicial era que ela fosse sub-22. A lei brasileira, no entanto, não permite que você dê incentivo financeiro para atletas maiores de 20 anos. Reduzimos em dois anos. Mas agora estamos querendo ampliar para 22, 23 anos. Estamos atrás de patrocinadores para realizar isso. Se você me perguntar o que considerado mais importante hoje para a liga? Vou responder que é a Liga de Desenvolvimento.

Como está a relação com a CBB, que pretende organizar o seu próprio campeonato?

A gente seria absolutamente imbecil de sair brigando com a CBB por qualquer razão que seja. O objetivo da liga e da CBB é desenvolver o basquete no Brasil. Existe uma coisa que é unidade na diversidade. Temos uma diversidade de divisão, mas temos uma unidade de objetivo. Se ele quer fazer campeonato, colocar 200 equipes para disputar, vou bater palmas. Em Buenos Aires, no campeonato local, são 180 equipes. Aqui não temos 12. Vou achar ruim que ele está fazendo basquete? Seria uma loucura total. Só busco um entrosamento. Não sei direito o que eles querem. E sei que eles também não sabem o que queremos. Não quero tomar o lugar da CBB e não quero que a CBB tome o meu lugar. Temos que saber o que ambos podem fazer para desenvolverem o basquete sem conflitar. 

 

 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.