Kuni Takahashi/The New York Times
Kuni Takahashi/The New York Times

Indiano da NBA leva orgulho para sua pequena aldeia

Satnam Singh Bhamara treinava em tabela improvisada em Punjab

Nida Najar, The New York Times

01 de agosto de 2015 | 07h00

Nesta sonolenta aldeia do Punjab, na Índia, ninguém se surpreendeu ao ver o agricultor de 2,10 metros de altura caminhando pelas trilhas estreitas para o templo sikh local em 25 de junho. O agricultor, Balbir Singh Bamrah é uma presença familiar em Ballo Ke, e uma espécie de curiosidade local.

Mas os outros fiéis no templo, conhecido como um  gurudwara, ficaram um pouco perplexos com a oração que o guru ofereceu à família de Balbir Singh. Ele ficou de pé diante do agricultor, sua mulher e sua filha, e rezou por paz, prosperidade, saúde - e para que o filho de Balbir Singh fosse escolhido no draft da NBA.

"Eles não entendiam o que era uma seleção no draft da NBA", disse Sarabjot Kaur, a filha de 23 anos de Balbir Singh. "Só perceberam depois."

Na noite de 25 de junho no Barclays Center,  Brooklyn - que em Ballo Ke, a cerca de 11 mil quilômetros de distância, já era a manhã seguinte - os Dallas Mavericks escolheram Satnam Singh Bhamara na segunda rodada do Draft, fazendo dele o primeiro jogador nativo da Índia a ser convocado por um time da Associação Nacional de Basquete (NBA) dos EUA. Noticiou-se que o atleta de 19 anos, que é cinco centímetros mais alto  que seu pai, começaria a treinar no Texas Legend, time da liga de desenvolvimento da NBA ligado ao Dallas Mavericks.

A escolha não causou sensação nos Estados Unidos, onde a escalação da primeira rodada recebe o grosso da atenção. Na Índia, porém, ela desencadeou um surto de orgulho nacional. Os jornais locais  colocaram sua foto nas primeiras páginas. E, em Ballo Ke, uma aldeia com cerca de 800 habitantes onde o rapaz notavelmente alto e de voz suave cresceu para ficar muito parecido com seu pai notavelmente alto e de voz suave, houve uma comemoração - de conquista não individual, mas coletiva.

"Seu filho honrou o país e a aldeia", disse um político local a Balbir Singh, invadindo a sala de visitas da família enquanto sua escolta policial uniformizada esperava do lado de fora ao lado de um estábulo cheio de reses não marcadas.

Alguns agricultores idosos, de turbante, disseram praticamente a mesma coisa, sentados como faziam todos os dias em sacos de cimento fora do gurudwara. Embora muitos tivessem filhos que seguiram seu caminho na agricultura, todos almejavam vidas melhores para seus netos.

"Queremos que ele vá ainda mais longe", disse Mukhtiar Singh , de 62 anos, que cultiva arroz e trigo. "Satnam Singh pode nos ajudar a progredir."

Baldev Kaur, uma enérgica parteira de 65 anos da aldeia, lembrou orgulhosamente de ter ajudado no parto de Satnam, há 19 anos, num carro a caminho do hospital, dizendo que nunca vira um bebê tão grande, com quase 4,5 quilos.

Ela viu levas de repórteres enxamearem a aldeia nos dias após a convocação, perguntando à família sobre o número que ele calçava (48 a 20, a depender da marca), a rapidez com que  ficou grande demais para suas roupas e  o que ele lia na escola. Ela não sabia bem o que era o basquete, exceto que Satnam costumava jogá-lo no quintal da frente de sua casa quando vinha de férias.

"Ele costumava fazer isto" - ele imitou um drible e um lançamento - "como os americanos."

Balbir Singh, 56 anos, disse que o sucesso de seu filho era a coroação adequada para uma década de trabalho e treinamento. "O basquete é uma dádiva divina", ele disse num barítono retumbante, enquanto saudava vários visitantes e atendia ligações num celular que quase desaparecia em suas mãos enormes. "Tudo que ocorreu para ele, toda a aclamação, é do basquete", disse o pai.

As opiniões variam localmente sobre como foi que aquele garoto de uma aldeia indiana remota sem uma cancha de basquete apropriada e com uma escola que termina na quinta série, conseguiu chegar à NBA. Balbir Singh atribuiu o mérito a seu amigo Rajinder Singh Bamrah, um homem esguio que agora trabalha num  tribunal distrital. Rajinder Singh tinha um tio que era professor de educação física e que fez dele um dos poucos moradores locais a ter ouvido falar de basquete.

Quanto Satnam tinha 9 anos (e 1,60 metro), Rajinder Singh pôs o garoto em contato com administradores da Academia de Basquete Ludhiana, um complexo de treinamento a algumas horas da aldeia. Ele também fez uma cesta de basquete e a prendeu numa parede perto do estábulo para o garoto praticar, e conduziu Satnam em exercícios de coordenação num trilho ferroviário próximo.

"Ele ficava cansado e queria ir para casa", disse Rajinder Singh. "Eu costumava encorajá-lo."

Satnam passou vários anos na Ludhiana, e depois ganhou uma bolsa para uma academia particular de treinamentos esportivos na Flórida, onde  estudou e trabalho nos últimos cinco anos. Sua irmã disse que Satnam não era bom aluno, mas compensava a falta de vocação acadêmica com  trabalho duro e  havia aprendido a falar inglês na Flórida.

Os homens no templo de Ballo Ke oferecem uma explicação diferente, que reflete um lado duro numa aldeia afora isso exultante. Eles dizem que o fator crucial foi a ligação da família com Amarinder Singh, o ex-primeiro-ministro do Estado de Punjab que visitou  a aldeia como ministro da Agricultura nos anos 1980 e fez amizade com Balbir Singh, chegando a convidá-lo junto com sua família para o casamento de sua filha.

"Foi por favor dele", disse Mukhtiar Singh, um dos homens. Outro, Nirmal Singh, disse que sem esse tipo de vantagem, uma tal história de sucesso "não é somente difícil, é impossível".

Teja Singh Dhalowal, o secretário geral da Associação de basquetebol do Punjab e diretor da academia Ludhiana, disse que havia potencial para encontrar mais talentos atléticos em estado bruto nas aldeias do Punjab, com sua tradição ancestral de firmeza diante exércitos invasores.

"Eles são guerreiros", disse ele. "Nós enfrentamos de tudo - frio severo, calor severo. Somos guerreiros. Nosso sangue é forte."

Balir Singh parece tudo, menos feroz, a despeito de seu tamanho, e os aldeões o descrevem como extremamente gentil. Sua altura o deixou com os ombros curvados de uma vida inclinando-se sobre um moinho de farinha, e a preocupação de vizinhos em sua juventude de que ele jamais encontraria uma noiva adequada.

Mas quando seu filho herdou essa eminência, isso trouxe uma grande distinção a Balbir Singh. Ele foi levado de carro à cidadezinha próxima de Tapa em 28 de junho para que um grupo de empresários dali pudesse lhe presentear com uma foto emoldurada exibindo Madre Teresa e o deus indiano Krishna, entre outras figuras reverenciadas. Eles conseguiram colocar uma grinalda em torno do seu pescoço, e  beberam suco de manga no escritório simples que faz as vezes de salão municipal. E falaram de Satnam.

"Agora será muito fácil ele se casar", disse um jornalista local que estava cobrindo o evento.

Balbir Singh apenas sorriu. (Tradução: Celso Paciornik)

Notícias relacionadas
    Tudo o que sabemos sobre:
    Basquete, NBA,

    Encontrou algum erro? Entre em contato

    Tendências:

    O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.