Paulo Liebert/Estadão
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Infeliz coincidência

Infelizmente somos especialistas em desprezar nosso passado, especialmente nosso melhor passado

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

06 de janeiro de 2019 | 04h30

Na TV começava um jogo de basquete entre Flamengo e Franca. Fazia tempo que eu não assistia a uma partida jogada aqui no Brasil, entre clubes brasileiros. Dando uma rápida olhada inicial, vi que não conhecia ninguém na quadra, à exceção de um único jogador e de um dos treinadores. Em outras circunstâncias isso não seria suficiente para que continuasse vendo o jogo, mas a simples presença no vídeo não só do time de Franca, mas da torcida de Franca, fizeram desabar sobre mim uma série de lembranças.

Só quem já esteve na quadra diante da torcida de Franca pode imaginar o que é aquilo. Trata-se de uma combinação perfeita entre a loucura visual de uma torcida que não para de gritar e o som que a própria torcida produz, ensurdecedor, assustador. Um jogador mal ouve outro dentro do jogo. É algo definitivamente perturbador. Acho que é a única torcida que realmente influi no resultado. Escrevo no presente porque foi o que me fez, paralisado pelas lembranças, ficar grudado na TV e nas arquibancadas ensandecidas.

Essa torcida é o que restou da grande época do basquete de Franca, de São Paulo e do Brasil. Desde o começo dos anos 60, Franca talvez seja a única equipe que persiste jogando campeonatos brasileiros sem uma única interrupção. Muda de nome frequentemente, mas continua na mesma Franca de origem. Quando tive o duvidoso prazer de travar conhecimento com ela a equipe se chamava Clube dos Bagres de Franca, depois virou Emanuel, Amazonas, Francana, Ravelli, etc. Eram os anos de Hélio Rubens e seus irmãos, anos de Fausto, Robertão, Chuí, Guerrinha, etc, etc. Equipe sempre temível de se enfrentar, principalmente em seu ginásio.

O jogo que faz poucos dias que eu vi era bem fraquinho. Não havia ali muito que lembrasse os grandes dias. Esse novo basquete brasileiro é uma coisa estranha. Produz a ilusão de que tem qualidade a ponto de ser uma atração na TV como os jogos da NBA. Imita cuidadosamente os gestos e cacoetes dos times americanos. Só falta a qualidade e o talento deles.

O único jogador em quadra reconhecível por mim era o Anderson Varejão. Não só pela sua brilhante carreira de mais de 10 temporadas na NBA, campeão da liga ao lado de LeBron James, mas coincidentemente por também ter sido revelado em Franca, essa mesma Franca que agora enfrentava em fim de carreira, sem ser a sombra do jogador que foi. E, no entanto, era a grande atração na quadra.

Fiquei um pouco triste de vê-lo nessas circunstâncias fazendo o que podia para lembrar o jogador do passado naquele jogo medíocre, apesar da torcida de Franca.

Isso tudo afinal talvez não fosse tão sério, nem tão interessante, a ponto de valer uma coluna se não fosse outro fato ocorrido dois dias depois desse Flamengo x Franca: a morte de Antonio Salvador Sucar, jogador do E. C. Sírio, da seleção brasileira, campeão mundial de 1963, campeão sul- americano, campeão de tudo, figura imprescindível da geração mais importante da história do basquete brasileiro. A geração lendária de Amaury, Wlamir, Mosquito, Menon, Sucar, Jatir, Edson Bispo dos Santos, Vitor, Edvar Simões, etc.

Não era um astro, talvez fosse inferior a muitos deles em alguns fundamentos, mas era um componente básico de uma equipe, e de um basquete, que jogava com cinco jogadores e não com um, ou no máximo dois. Sua importância, quase invisível para o público, era imensa.

Não foi sua morte o que me deprimiu, mas a maneira pela qual foi noticiada. Ou, por outra, a maneira pela qual não foi noticiada. Uma frase ou outra jogada aqui e ali como se fosse uma morte sem importância. E a morte de Sucar é da maior importância. Ao menos para lembrar sem descanso que nessa terra já houve basquete e campeões mundiais. 

Infelizmente somos especialistas em desprezar nosso passado, especialmente nosso melhor passado.

 

 

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