Jogador de basquete septuagenário se torna atração nos EUA

Aos 73 anos, veterano Ken Mink dribla a idade e participa dos jogos do time da Universidade de Roane State

Jere Longman - The New York Times,

11 de dezembro de 2008 | 11h34

Antes do jogo de basquete de domingo, o técnico Yogi Woods reuniu os calouros e segundanistas do time da universidade Lambuth, e falou: "Cuidado com o 73 da equipe adversária". Ele não se referia ao número do jogador, mas à idade dele.   A equipe visitante, o Roane State Community College, tinha um jogador da defesa com mais de 70 anos, Ken Mink, o mais velho do basquete universitário. Mink resolveu começar uma segunda carreira no basquete depois que a primeira acabou há meio século, com um misterioso acidente com sabão de barbear.   Se Mink, 1,90 de altura, podia jogar, também podia ser marcado, disse Woods aos jogadores. Depois se virou para o calouro Kendrick Coleman e disse: "Se ele subir para fazer uma bandeja, não deixe ele fazer. Se ele marcar em cima de você, a gente vai fazer com que você nunca mais se esqueça disto".   Esta mistura de curiosidade e terrorismo machista acompanhou Mink durante toda a temporada em universidades do Tennessee. No começo de novembro, o técnico dos calouros do King College disse a um dos jogadores do Roane, que ele havia treinado no colégio: "Se o velho marcar pontos, vamos pra casa".   Mais tarde, durante o jogo, Mink entrou e viu que estava livre no canto. Fingiu que ia fazer um arremesso e o defensor acabou fazendo uma falta nele. Calmamente, ele acertou os dois lances livres. A estratégia de trombar em Mink não deu certo. "Achei que alguns times teriam uma atitude paternalista, não o levariam a sério", disse Randy Nesbit, o técnico do Roane State, de Harriman, Tennessee.   Nos jogos em casa, Mink é o favorito do público. Em geral, há 100 espectadores por jogo, uma vez teve até 400. A esposa de Mink, Emilia, de 68 anos, vestiu sua roupa retrô de líder da torcida. Treinando na casa de um vizinho, no verão de 2007, Mink percebeu que ainda tinha um arremesso potente. Então mandou um e-mail para oito pequenas universidades perto da sua cidade. Talvez uma universidade pequena pudesse aproveitar um sujeito com um arremesso da velha escola.   Nesbit, o técnico do Roane, ficou intrigado. Antigo armador e treinador do The Citadel, ele se manteve numa forma invejável até os 50. Ficou curioso com as possibilidades de desempenho de um atleta com uma idade em que o Gatorade precisa ser substituído pelo Metamucil. Mas antes de lhe oferecer um lugar no time, queria conhecer Mink.   Mink contou a Nesbit que havia jogado no Lees College de Jackson, Kentucky, mas foi expulso da então escola presbiteriana em 1956, quando começou sua temporada de calouro. Foi acusado de ter espalhado sabão de barbear pelo escritório do técnico, lambuzando as lâmpadas e até os sapatos do treinador.   Ele negou: "Nem faço barba", disse ao diretor da escola. Mas aparentemente, seu álibi não convenceu. Segundo sua esposa, este episódio foi um motivo de grande amargura ao longo de todos estes anos. "Ele gosta de acabar o que começou".   Segundo Marcus Mullins, manager de estudantes no time no Lees, que lembra de Mink, sabe que houve um acidente, porque de repente ele desapareceu. "Tenho certeza de que ele estava falando a verdade. O diretor da universidade na época era um cara muito rígido e intolerante".   Mink entrou na Força Aérea em novembro de 1956, e jogou regularmente em competições militares durante quatro anos. Mais tarde, começou a trabalhar em um jornal, mas nunca deixou de jogar basquete em equipes amadoras. Quando se aposentou, continuou mantendo uma vida ativa praticando golfe, esquis, fazendo caminhadas, escalando montanhas, e até mesmo voando de asa delta. Hoje, edita com a esposa uma revista de viagens online.   Seu cabelo é grisalho e começa a rarear, mas parece mais jovem do que seus 73 anos. No entanto, o basquete e a escola tiveram de fazer algumas adaptações. Neste semestre, ele teve mais problemas com o espanhol do que com os exercícios para ganhar velocidade e resistência, então o substituiu pela sociologia. Seu objetivo é obter uma marca de dois dígitos. Não para cada jogo, mas para a temporada. "Sua produtividade caiu desde que cortou o bigode", comenta Nesbit.   Entretanto, falta ainda um semestre. Quando Mink viaja com seus companheiros de time em um ônibus fretado, leva nas viagens seu material, e aproveita todos os minutos que pode. Está escrevendo um livro sobre a temporada e um rap para os companheiros.   Seus colegas admiram sua coragem. "A maioria das pessoas com 73 anos usa andador", comentou um deles. Os colegas não o poupam dos comentários grosseiras no vestiário. Quando Mink brincou que tinha amigos nos altos postos, outro companheiro do time perguntou: "Onde, no céu?"   Mink é um ótimo arremessador e pode usar a mão esquerda no entorno da cesta, mas o que o torna um exemplo tão inspirador é o caráter normal do seu talento, e não sua raridade, disse Nesbit. "Ele não é um fenômeno da natureza que consegue vencer o tempo", afirmou. "Não tem uma dieta especial. As pessoas torcem por ele, porque parece um homem de 73 anos. Se todo mundo se mantivesse ativo e saudável, muita gente poderia fazer o que ele faz".   No domingo, depois que a vantagem dos Roane chegou a dois dígitos contra o Lambuth, Mink entrou no jogo faltando 39,5 segundos. Driblou sob pressão, mas não fez o arremesso antes do sinal tocar. "Pelo menos, não perdi a bola".   Não houve tempo para comemorações por atingir a marca. Os jogadores entraram no ônibus para a longa viagem de volta para casa. Os exames finais começariam na manhã seguinte. No início da temporada, os companheiros do time convidaram Mink para uma festinha no apartamento de um dos jogadores. Ele pediu permissão para a esposa, mas ela não deixou. "Se ele começar a quebrar o ritmo do treinamento, colocará tudo a perder", disse Nesbit.

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