Mark J. Terrill/AP
Mark J. Terrill/AP

LeBron reencontra o magoado Miami Heat em sua décima aparição em finais da NBA

Astro tenta levar o Los Angeles Lakers ao título contra o time em que foi bicampeão e depois decidiu ir embora

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

30 de setembro de 2020 | 05h00

As finais da NBA começam nesta quarta-feira, no Complexo da Disney, em Orlando, com um ator principal no palco. Tricampeão da NBA, LeBron James entra em quadra com o Los Angeles Lakers para sua décima decisão, feito alcançado por apenas outros três jogadores: Kareem Abdul-Jabbar, Sam Jones e Bill Russell. O oponente será um velho conhecido, o Miami Heat, que lhe proporcionou dois anéis de campeão e um rastro de mágoa após sua saída para voltar ao Cleveland Cavaliers na temporada 2014-2015.

O técnico Erik Spoelstra não quis falar muito da antiga parceria com LeBron, mas deixou claro o estrago que o jogador pode causar para sua equipe. "É sempre bom conhecer um jogador que você teve sob sua direção quando ele é um rival mais tarde, mas, no caso do James é diferente, ele pode surpreender sempre com algo novo", disse.

Ele ficou em Miami para reconstruir uma equipe que havia ficado órfã do principal jogador e demorou seis anos para se recuperar e voltar à final da NBA. Presidente da franquia, Pat Riley, foi o responsável por bancar Spoelstra. O treinador fez de Bam Adebayo uma estrela, abraçou Jimmy Butler para ele se sentir em casa e recebeu Jae Crowder e Andre Iguodala em uma troca que mudou o rumo da equipe. Agora é hora de derrubar LeBron.

"Fiquei em silêncio. Não falei nada (para o LeBron). Fiquei muito bravo quando ele foi embora. Foi algo pessoal para mim", afirmou Riley, em entrevista à ESPN. "Com o que tínhamos e o que poderíamos ter feito nos cinco ou seis anos seguintes, teria sido histórico", acrescentou ao portal Bleacher Report.

Neste seis anos, LeBron conquistou o terceiro título com o Cleveland Cavaliers, perdeu três finais para o Golden State Warriors e decidiu se transferir novamente. Escolheu o Los Angeles Lakers, que viu Kobe Bryant se aposentar ao final da temporada 2015-2016.    

A primeira temporada foi ruim. A equipe da Califórnia não conseguiu ir aos playoffs. LeBron repetiu o que havia feito nas outras equipes, trabalhou nos bastidores por reforços e tratou de se livrar de peças indesejáveis. Anthony Davis encaixou perfeitamente neste quebra-cabeça. Com um fiel escudeiro, o astro chegou novamente à final. O que, no vocabulário do camisa 23, não significa nada. 

"Entendemos que temos peixes maiores para fritar. Há uma meta maior, então não podemos dar isso como garantido. O trabalho não está terminado", afirmou LeBron, que se preparou muito para o retorno da temporada. A pandemia do novo coronavírus que paralisou o torneio de março até julho foi apenas mais um obstáculo na jornada do ala. "Estou em atividade durante todo o ano."

É difícil também não compará-lo ao último astro dos Lakers. A trágica morte de Kobe Bryant em 26 de janeiro deste ano, em um acidente de helicóptero, tem sido constantemente lembrada pelos jogadores. Antes dos jogos, por exemplo, o grito é '1,2,3, Mamba', uma referência ao apelido do jogador morto. A equipe também atuou em algumas partidas com a camisa que foi projetada pelo astro anos antes da sua morte.

LeBron prefere fugir das comparações. "Eu só quero viajar minha própria jornada, porque é minha jornada. Eu apreciei tudo o que aconteceu ao longo do caminho. Quero dizer, durante todos os altos e baixos dentro e fora da quadra, como vitórias e derrotas", disse. "Estou indo bem. Acho que como diria Frank Sinatra, 'Fiz do meu jeito'", completou.

O Los Angeles entra como favorito para o confronto, algo até incomum na trajetória de LeBron nas finais da NBA. Em apenas duas das nove decisões, o astro se viu nesta condição. O Miami Heat é o azarão e sabe que terá de parar o astro para conseguir ter sucesso. O ala registra médias de 26,7 pontos, 10,3 rebotes e 8,9 assistências. 

"Ele faz você pagar quando comete erros. Você apenas tenta apenas não errar. Você tem de colocá-lo em situações vulneráveis, seja no ataque ou na defesa", afirmou Andre Iguodala, que enfrentou LeBron em quatro finais consecutivas, entre 2015 e 2018, quando jogaram por Golden State Warriors e Cleveland Cavaliers, respectivamente. O veterano de 36 anos garante que o Miami Heat está pronto. "Nós nos preparamos melhor do que qualquer um que eu já vi em termos de determinação."

FORA DE QUADRA

A importância de LeBron vai além das quadras. Apesar de não ter sido o líder do histórico boicote ocorrido no dia 26 de agosto, o astro dos Lakers é uma voz ativa neste período na 'bolha' da NBA. Naquela oportunidade, os jogadores do Milwaukee Bucks decidiram não entrar em quadra em um jogo dos playoffs como forma de protestar em relação ao episódio com Jacob Blake, que foi alvejado sete vezes pelas costas pela polícia de Wisconsin.

LeBron defendeu até o fim da temporada. Só mudou de ideia após receber um conselho do ex-presidente dos EUA, Barack Obama. Ele entendeu que em quadra os protestos contra o racismo poderiam ser mais eficazes, afinal o espaço estava aberto desde o assassinato de George Floyd, em 25 de maio, quando os atletas receberam da NBA o compromisso de liberar qualquer manifestação. 

As quadras na 'bolha' exibem o lema "Black Lives Matter" (Vidas negras importam) a todo momento e os jogadores usam nomes reivindicativos nas camisetas de jogo, além de se ajoelharem durante o hino nacional, repetindo o gesto do quarterback da NFL Colin Kaepernick, em 2016. 

LeBron bateu de frente até com o presidente Donald Trump, em postagem fortes nas redes sociais, e pediu para que todos possam votar na próxima eleição americana. O astro também aproveita todas suas entrevistas para abordar um tema importante. "Eu sei que as pessoas se cansam de me ouvir dizer isso, mas nós estamos com medo como negros nos Estados Unidos. Homens negros, mulheres negras, crianças negras, estamos aterrorizados", afirmou, certa vez. 

Em outra oportunidade, LeBron saiu em defesa das mulheres negras e citou o caso de Breonna Taylor, que foi morta por policiais de Louisville em uma ação desastrosa. "No final de contas é o respeito. Quando olhamos para a história dos EUA, as mulheres negras sofreram nos últimos 400 anos. É algo que não podemos ignorar. No caso de Breonna Taylor mostraram mais uma vez que os muros do vizinho são mais importante do que a vida dela."

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.