Robson Fernandjes
Robson Fernandjes

Mapeamento genético dá combustível para o basquete do Palmeiras

Programa individualizado foi fundamental para o Palmeiras reagir no returno do NBB

Alessandro Lucchetti, O Estado de S. Paulo

04 de agosto de 2013 | 08h00

SÃO PAULO - O pivô Marcão ainda lembra, com clareza, da imagem do fisiologista Paulo Correia entrando no ginásio do Palmeiras, ao lado do preparador físico Chiaretto Costa. Ele estava extenuado depois de mais um treino e, com sérias dificuldades para saltar por rebotes, pensava em encerrar a carreira aos 28 anos.

Correia, finalista no 4x400m rasos nos Jogos Olímpicos de 80 e no 4x100m nos de 84, hoje fisiologista do exercício e do esporte da Unifesp, introduziu, a pedido de Chiaretto, o método de preparação física baseado em um sistema de segmentação genética aplicado pelo geneticista João Bosco Pesqueiro.

O fisiologista pesquisou quatro genes retirados do tecido epitelial da boca dos atletas. Com esses dados, foi elaborado um programa individualizado de preparação física para o time. O trabalho foi iniciado no primeiro turno do NBB (Novo Basquete Brasil) da temporada 2012/13. O Palmeiras vencera apenas duas em 17 partidas e já se comentava que a equipe de basquete poderia seguir o rumo da de futebol do clube – e ser rebaixada. No segundo turno, o Verdão venceu dez dos 17 jogos e ficou perto da classificação para os playoffs, que não obteve devido ao mau início. De qualquer forma, a reação foi importante para encher de orgulho os seus torcedores e a diretoria teve mais incentivo para buscar um patrocinador, a Meltex, empresa que explora as lojas de produtos do Palmeiras e que foi fundamental para manter o time profissional em atividade.

Marcão, que já teve duas hérnias nas costas, tinha média de quatro pontos por partida e elevou-a para 14 no segundo turno.

Outro jogador que enfrentava problemas com a falta de fôlego, o ala-pivô Tiagão, de 32 anos, registrou três duplo-duplos (aproveitamento de dois dígitos em dois itens estatísticos) nas últimas dez partidas. “Eu tinha fama de jogador que não gostava de treinar, de dar migué em treino e viver lesionado. Graças a esse trabalho, consegui ter a minha melhor temporada desde 2008. Meu basquete subiu lá para cima”, conta Tiagão, que também pensava em se aposentar, mas agora planeja esticar a carreira por seis anos.

“O Tiagão é geneticamente mais inclinado para render em atividades que exigem força, e o Marcão é o contrário – tem mais resistência. O Tiagão passou a correr menos nos treinamentos e faz um trabalho forte na musculação. Já o Marcão está se movimentando mais em quadra. Cada um se encontrou com o seu próprio corpo”, resume Chiaretto.

O próprio técnico Ênio Vecchi, antes de assumir o Palmeiras, via Tiagão como jogador preguiçoso. “Acho que a última vez que ele me viu correndo, eu estava no juvenil”, brinca.

Com base nessas premissas, Marcão, jogador que atua mais dentro do garrafão, pode ser testado por Vecchi como ala-pivô.

Correia, um dos pesquisadores que trabalhavam no projeto Atletas do Futuro, acreditava que o método só poderia ser aplicado daqui a uns cinco anos. Já foram colhidos dados de atletas como Aurélio Miguel, Gustavo Kuerten, Joaquim Cruz, Oscar Schmidt, Hortência e Paula - é o banco genético do atleta brasileiro. Chiaretto insistiu para aplicar o método agora. “O Palmeiras é vanguardista nessa área”, orgulha-se ele.

O preparador físico, graças à anuência de Vecchi, que se interessa por ciência aplicada ao esporte, tem papel importante nas substituições. “Eu fico à beira da quadra e, às vezes, mando que um determinado jogador saia para não aumentar o risco de lesões”.

Nesta temporada, o basquete do Palmeiras pretende colher dados dos atletas de todas as categorias de base para que seus treinamentos sejam devidamente orientados desde o início da carreira. “Nós podemos eliminar o risco de lesões ou de supertreinamento utilizando a ciência”, diz Paulo Correia.

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