Paulo Liebert/Estadão
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Milwaukee!!

Jogadores do Milwaukee Bucks tiveram atitude gigante e corajosa ao paralisar liga por caso de racismo no Wisconsin

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

30 de agosto de 2020 | 05h00

Milwaukee não é uma cidade qualquer. O time de basquete da cidade, o Bucks, já foi campeão da NBA e contou em sua equipe com nomes como Lew Alcindor, que se transformou no mitológico Kareem Abdul-Jabbar quando muitas lideranças negras se aproximaram do Islam. O Bucks este ano é o favorito para vencer o poderoso campeonato da liga americana de basquete. Nesta semana, esse time tomou uma atitude de proporções imensas, inteiramente nova em competições esportivas, uma bomba que repercute mundialmente. Não entrou na quadra para enfrentar o Orlando Magic pelos playoffs, jogos finais, do torneio da NBA. 

Dada a importância dos playoffs, transmitidos mundialmente pelas TVs, não entrar em quadra equivale, mais ou menos, a se a seleção brasileira se recusasse a entrar em campo num jogo de Copa do Mundo. O motivo, a gota d’água, foi mais um negro americano baleado pela polícia numa cidade perto de Milwaukee, no mesmo Estado de Wisconsin.

Quem decidiu o boicote foram os jogadores. Os proprietários das equipes e dirigentes da NBA tiveram que se curvar aos astros do basquete amplamente conhecidos. A coisa se espalhou para outros times. Os playoffs foram paralisados. LeBron James o maior jogador em atividade nos EUA, ele mesmo um ativista da causa negra, fez declarações duríssimas, apoiando integralmente os jogadores do Milwaukee. Outros esportes importantes aderiram, como futebol americano e beisebol. O que vai acontecer ainda é incerto. Os playoffs recomeçaram ontem, mas as críticas dos jogadores negros da Liga prosseguem. O estrago foi tremendo.

Desafiar a Liga é uma atitude de grande risco. Apoiar incondicionalmente a causa negra também. O poder da classe branca dirigente é imenso. E o clima azedou de vez quando se produziram declarações, veladas ou não, contra Donald Trump. Desafiar o poder do presidente é coisa muito séria por lá.

Todo esse perigo de represálias, num pais especialista em represálias e sanções, partiu da elite dos jogadores negros, daqueles que mais têm a perder. Numa atitude assombrosa, principalmente para nós, brasileiros, deixam em segundo plano suas fortunas pessoais para se engajar na causa do seu povo.

É um erro pensar que se tratam de atletas educados, ex-alunos de universidades, de boas famílias negras. Não é nada disso. Eles vêm dos guetos miseráveis das cidades americanas. LeBron James jamais cursou qualquer universidade, o finado Kobe Bryant também não. Mesmo os que fizeram universidade também saíram dos guetos, recrutados por universidades que apenas queriam fazer seus times mais poderosos.

A atitude deles se explica mais por um longo caminho percorrido pelos negros tendo como marco a década de 30 do século passado, quando F.D. Roosevelt inaugurou um período áureo da história americana com um governo social-democrata que recuperou o país da Grande Depressão. Foi esse período que produziu educação pública de qualidade para todos, apoio a sindicatos e organizações de trabalhadores e menos desigualdade. Não durou muito esse período, é verdade, uns 20 anos talvez, mas foi suficiente para fazer surgir a identidade negra que, por sua vez, deu origem a lideranças que todos conhecemos na longa luta dos negros contra a injustiça.

Não é de admirar que os maiores astros negros, riquíssimos, se incorporem a essa tradição apesar dos sacrifícios, assassinatos, espancamentos e prisões. A história, de vez em quando, abre frestas que nos permitem ver um outro lado desse violento EUA, um lado mais generoso e civilizado. O fato de a sociedade americana, seja como for, ter permitido que os escravos levantassem a cabeça, com suas próprias forças se defendessem e se sentissem cidadãos, é admirável. Com luta e sangue, de uma maneira ou de outra, ela acabou por permitir que escravos deixassem de ser escravos.

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