Jose Moreno/NYT
Jose Moreno/NYT

MVP da WNBA, Breanna Stewart quer mudanças dentro e fora das quadras

'Nosso país está combatendo dois vírus ao mesmo tempo', disse jogadora ao citar o coronavírus e o racismo

Kurt Streeter, O Estado de S.Paulo

16 de junho de 2020 | 10h00

Muita coisa continua incerta para Breanna Stewart, ex-estrela da Universidade de Connecticut e MVP da WNBA que, durante a pandemia, vem se preparando para retornar ao Seattle Storm após um ano perdido por lesão. A WNBA e suas jogadoras parecem estar próximas de um acordo, mas continuam a discordar sobre os detalhes de como jogar uma temporada mais curta.

Em meio ao adiamento, os Estados Unidos vêm testemunhando nas últimas semanas uma série de protestos poderosos - inimagináveis no início do surto. “Nosso país está combatendo dois vírus ao mesmo tempo”, disse Stewart. “O coronavírus. Mas também estamos enfrentando o racismo, que existe há séculos. É o vírus do racismo que está mais nos meus pensamentos agora”.

Aos 25 anos, ela fala desde um ponto de vista incomum. Stewart é branca - e considerada uma das melhores da história de um esporte profundamente ligado à cultura e aos jogadores afro-americanos. Como as ordens de quarentena foram afrouxadas, ela se aventurou a ultrapassar os limites de seu condomínio em Seattle para falar em apoio à justiça racial.

Confira o depoimento:

"Uma vez, eu estava com um ex-namorado preto. Isso foi na época da faculdade, na UConn. A gente estava na estrada de Nova Jersey. Ele estava dirigindo, eu estava no banco do passageiro e um dos colegas de time dele, afro-americano, estava no banco de trás. Bom, aí, fomos parados. O policial veio até o meu lado, olhou e perguntou: “Está tudo bem?”. E, quando ele perguntou isso, parecia que estava falando só comigo. Aí ele pediu os documentos dos caras com quem eu estava, mas não os meus. E depois, virando para nós três, perguntou: “Aonde vocês estão indo?”.

Fomos liberados, porque não estávamos em alta velocidade nem fazendo nada de errado. Então perguntamos ao policial por que fomos parados. E a resposta foi: “Vocês estavam seguindo um carro muito de perto”.

Seguindo um carro muito de perto? De jeito nenhum. É um exemplo que vivi em primeira mão e que me ensinou como as pessoas são julgadas de maneira diferente. Se fossem dois homens brancos e eu, não seríamos parados nunca.

Essa memória ainda está fresca na minha cabeça e ainda me deixa furiosa.

É extremamente importante que os atletas brancos se manifestem por justiça racial. Os pretos e a comunidade preta lutam contra isso há anos. Para ajudar a fazer mudanças de verdade, os brancos precisam se engajar. Os brancos precisam se levantar e apoiar as comunidades pretas de todas as formas, e isso precisa acontecer não só agora, nesse período de protesto, mas numa batalha contínua. Temos que manter energia e continuar falando, continuar focando em algo que não seja nós mesmos. É uma obrigação.

Não é fácil conciliar a maneira como me sinto jogando pelo time dos Estados Unidos, o orgulho que sinto, com a vergonha que sinto pelo racismo que contribui para o meu próprio privilégio e para a opressão dos pretos. Represento a equipe americana desde os 14 anos, em todas as categorias. E, quando você pensa nos Estados Unidos, pensa naquele verso do hino: “a terra dos livres e o lar dos valentes”. Mas esse verso não é verdade. Não é o que vale para muitas pessoas. Não é mesmo.

Vestindo o uniforme da equipe dos Estados Unidos, representamos todos os americanos e, mesmo assim, também estamos representando pessoas que ainda estão envolvidas no racismo estrutural e nas injustiças raciais. Faz muito tempo que penso nisso. E acho que o nosso país é o melhor do mundo, você sabe, mas obviamente estamos fazendo muita coisa errada.

A gente já sabia que Seattle ia protestar. É uma cidade em que as pessoas sempre tentam defender o que é certo e aquilo em que acreditamos. Eu não estava lá quando a coisa começou de verdade, mas dava para ouvir. Lembro que era um dia chuvoso e, como moro no centro, consegui ouvir tudo. Ouvia as vozes, as sirenes ecoando e ricocheteando nos prédios. Os helicópteros passando bem depois da meia-noite.

Venho escutando as pessoas o máximo possível. Muitas ligações do Zoom com colegas de equipe, com amigos e com a liga. Outro dia fiz uma ligação com a Alicia Garza, cofundadora do Black Lives Matter. Enchi um caderno inteiro com umas anotações bem legais.

Durante uma semana inteira, não quis treinar. Cancelei todos os eventos de que devia participar, porque, você sabe, não quero fazer live no Instagram para falar de tênis. Não é isso que importa nas nossas vidas agora. Há coisas maiores e elas merecem estar totalmente no centro das atenções.

Fui a dois protestos até agora, e os dois foram muito energizantes, muito positivos e comunitários. Um deles foi uma reunião bem pequena, num parque local. Tinha muita gente da comunidade de basquete de Seattle, organizada por Will Conroy, assistente do Washington Huskies, e Jamal Crawford, da NBA. Fui com Jewell Loyd, minha companheira de equipe no Storm. Eu precisava daquilo. Seattle é minha casa há cinco anos e eu só queria fazer o que pudesse para ajudar. Então falei, junto com muitos outros. Estar perto de todos os jogadores me deu conforto, uma sensação de alívio, sentir o suporte que damos uns aos outros. Nesse momento tão difícil, foi uma terapia." / TRADUÇÃO DE RENATO PRELORENTZOU

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