Scott Olson / Reuters
Scott Olson / Reuters

Análise: 'NBA fez do basquete americano um esporte à parte, com um ecossistema próprio muito forte'

CEO da Feel The Match e especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte fala da evolução da liga em seus 75 anos

Bruno Maia*, O Estado de S.Paulo

19 de outubro de 2021 | 05h00

Um dos grandes méritos que a NBA teve foi transformar a sua superioridade desportiva em superioridade econômica. Eles fizeram do basquete americano em si um esporte à parte com um ecossistema próprio muito forte. Isso sobretudo se deu dos anos 1990 para cá. A era David Stern (coincide com a era de Michael Jordan). Ele fez muito bem essa transição da liga enquanto um campeonato norte-americano de basquete para algo global.

Chama atenção para o momento da Olimpíada de Barcelona, quando depois de algumas derrotas do basquete norte-americano, como aquela de Indianápolis para o Brasil, os Estados Unidos resolvem disputar com os jogadores profissionais. Isso faz com que a criação do Dream Team acabe sendo um marco para a propaganda da NBA em outros territórios.

Quando se pega uma geração especial e consegue juntar todos eles, um espécie de Globetrotters, mas que competiam mesmo... você pega um posicionamento também da TV a cabo. O modelo de TV a cabo americano que cresceu muito nos anos 1980, que impulsionou marcas como ESPN, MTV... A NBA soube surfar nesse modelo e estar presente e multiplicar sua presença em dezenas de territórios no mundo todo.

Juntando isso com o brilhantismo do Jordan e aquela geração e com as atitudes de formar grandes times. Foi uma gestão muito bem-sucedida, que fez com que a NBA passasse a ter esse tamanho que tem hoje.

Além desse boom que teve ali, aproveitando muito bem o crescimento da TV a cabo e a TV no mundo todo, a NBA  também foi muito pioneira na linguagem do streaming digital. Há quase 10 anos, muito antes de se falar de transmissões de conteúdos. A NBA já tem o League Pass há anos. Já desenvolve seus próprios conteúdos, já é proprietária das suas próprias plataformas há muito tempo.

Fora que também entendeu desde sempre que o produto dela, que é a liga, é mais importante que qualquer time, qualquer franquia. Sempre inovou, sempre esteve à frente com modelos tipo o Draft. Transformou o Draft em um outro evento. O All Star Game... Tudo isso são atitudes que vão reverberando em volta do próprio produto que é o campeonato. O time que vai mal num ano tem preferência no Draft do outro ano... Isso faz com que os campeonatos se mantenham equilibrados. Você quebra hegemonias de uma maneira mais legal. Tem equilíbrio financeiro... Tudo isso e muitas outras coisas fizeram com que a NBA se tornasse uma referência.

Na contemporaneidade, nos últimos anos, o que chama atenção é a presença das redes sociais. A NBA começou a adquirir startups de inteligência artificial desde 2015, em Israel, para aumentar a quantidade de conteúdos em redes sociais... Enfim, fazer essa migração que o futebol não soube fazer num modelo de TV massificado para a distribuição de conteúdo customizado para os usuários. Isso aumentou muito a força da NBA nos últimos anos.

A liga se distanciou do basquete mundial. Ela pautou o que devia ser o campeonato, a referência do esporte de muitas maneiras e para muito além do próprio basquete. O que a NBA propôs de modelo de negócio, de competitividade, de formação de ídolos, formação de estrelas... Os próprios astros como entidades paralelas às próprias franquias. Você tem o Michael Jordan e você tem o Chicago Bulls. Você tem o Stephen Curry e você tem o Golden State Warriors. Você tem o Magic Johnson e você tem o Los Angeles Lakers. O Larry Bird e o Boston Celtics. Você teve Kobe Bryant e os Lakers também. Sempre as duas coisas se desenvolveram juntas, isso é uma coisa muito bacana.

A chegada de jogadores de fora é uma continuação no movimento de internacionalização, a abertura de pautar o esporte a partir da sua própria performance nos Estados Unidos, nas próprias regras de mercado deles lá. E atrair quem eventualmente tenha talento de fora para jogar lá. Antigamente se tinha mais complicações. O Oscar Schmidt não foi jogar lá porque queria defender a seleção brasileira. Isso não é mais uma questão nos dias de hoje. Então isso foi fazendo com que a liga fosse ficando mais interessante, mais forte e fora, evidentemente, o poderio econômico que tem.

*CEO da Feel The Match e especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte

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