Guilherme Faria/Niterói Basquete/Divulgação
Guilherme Faria/Niterói Basquete/Divulgação

Niterói Basquete joga por amor, sem salário e com o desejo de ser grande

Equipe disputa o Estadual do Rio com atletas que não recebem salário e exercem outras profissões, mas confiam no futuro do projeto

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

26 Agosto 2018 | 05h00

A diferença de 64 pontos no placar evidenciou o abismo existente entre o Flamengo e o Niterói Basquete. Mas, neste jogo válido pelo Campeonato Estadual do Rio de Janeiro, os dois lados são vencedores. O adversário do poderoso time rubro-negro, que tem orçamento superior aos R$ 6 milhões por temporada, está em quadra pelo amor ao basquete e por acreditar em um projeto idealizado em 2013. Todos têm um passado no esporte, mas ninguém recebe salário. Ainda. É um sonho que está se tornando realidade e que todos esperam não acordar antes de o clube chegar ao cenário nacional.

O mentor da empreitada é Thiago Brani, que é presidente e atleta, além de dar aulas de Educação Física. O ala-armador de 24 anos não é exceção no time. É regra. O único que atualmente se dedica integralmente ao basquete, mesmo sem receber, é Gabriel, 25 anos, que é graduado em marketing, mas havia voltado ao esporte na última Liga Ouro, divisão de acesso ao NBB (Novo Basquete Brasil), pelo Brasília Búfalos. 

Apesar de ainda ser considerado uma equipe amadora, o Niterói Basquete conta com diversos profissionais em diferentes áreas, incluindo até mesmo um responsável pelas mídias sociais. O que falta é ter dinheiro para remunerar todos eles.  “Não é uma reunião de amigos. Existe um pensamento para o longo prazo. Todos estão trabalhando para tornar o projeto uma realidade”, explica Thiago.

A organização, segundo o dirigente-atleta, foi fundamental para conseguir atrair interessados em dar pelo menos o aporte financeiro necessário, na casa dos R$ 30 mil, para o pagamento das taxas de inscrição da Federação de Basquete do Estado do Rio de Janeiro e participar do torneio Estadual ao lado de Flamengo, Vasco e Botafogo, todos times que disputam o NBB.

O Niterói conta com apoio da Honda Hayasa, da Rioport Seguros, que tem como um dos seus sócios o ala Higor Lima e da MR Assessoria de condomínios. Uma parceria com o Colégio La Salle Abel ajudou na questão de infraestrutura. A equipe atua no ginásio do Centro Esportivo da entidade educacional.

“Hoje ninguém recebe nada porque realmente não temos condições de pagar”, afirma Thiago, que não deixa de acreditar no futuro do Niterói Basquete. O desejo é chegar um dia no NBB. O caminho, claro, é longo.  “É uma coisa que penso para daqui quatro anos. Não podemos antecipar etapas desse time. Queremos dar passos firmes, mesmo que curtos.”

A confiança do presidente-atleta é compartilhada por outros integrantes da equipe carioca. Bernardo Spindola, de 26 anos, que, fora da quadra, é consultor de gestão de risco, espera que o Estadual seja apenas o início da caminhada. “Seria muito bom para Niterói ter um representante na elite nacional do basquete. O esporte no Rio precisa de iniciativa como essa”, afirmou o ala, que chegou a jogar duas edições da LDB (Liga de Desenvolvimento) do NBB pelo Tijuca e um ano no Vasco.

Entre a corretora e a quadra

O corretor de seguros pega o rebote e passa para o estudante de nutrição. A jogada é cantada. O analista de exportação aérea faz o corta-luz para o professor de Educação Física, que recebe e encontra o consultor em gestão de risco embaixo da cesta para anotar mais dois pontos. A descrição é de um ataque do Niterói Basquete. Na equipe, ninguém vive apenas do basquete.

É o caso, por exemplo, de Higor Lima, 24 anos, que até pouco tempo atrás acreditava que poderia viver do esporte. Com passagem por Limeira, Sport e Botafogo, o ala voltou ao basquete para ajudar no projeto do amigo Thiago Brani. Além do arremessos, é um dos sócios na Rioport Corretora de Seguros.

“Desde o começo, já estava acordado que não teríamos salário. E isso nem seria minha pretensão. Hoje não tenho mais vontade de ter o basquete como fonte de renda. Fico feliz em ajudar no projeto do Niterói, principalmente por ser do Thiago, que é um amigo de infância, e do Mingau (técnico do time).  Me estabilizei em outro mercado.”

Para Higor, que teve chance de enfrentar Deryk Ramos, do Flamengo, com quem fez uma forte amizade em Limeira, não é esforço conciliar sua rotina de trabalho com o basquete. “Tenho alguns treinos em horários em que deveria estar trabalhando, mas, com organização, que é uma coisa que prezo na corretora, conseguimos resolver.”

“Sempre fui muito apaixonado pelo basquete. Então fica sempre mais fácil voltar, ainda mais com um projeto bacana, com muitos amigos, isso facilitou bastante o meu retorno.”

Higor confia no sucesso do projeto. Para ele, chegar à elite do basquete é um sonho possível. “O comprometimento é tão grande, dos jogadores e dirigentes, que tudo acontece mais rápido. Até patrocinadores que não esperávamos, nós conseguimos. Pelo tamanho da cidade e pelo comprometimento, é uma realidade próxima.

 

 

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