Taba Benedicto / Estadão Conteúdo
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Nome de craque na dura realidade brasileira: conheça Riquelme, promessa de Paraisópolis no basquete

Garoto de 13 anos foi descoberto em projeto social, hoje está na base do Pinheiros e sonha alto com o esporte

Marcius Azevedo, O Estado de S. Paulo

22 de dezembro de 2019 | 04h30

Juan Román Riquelme, argentino, três vezes campeão da Libertadores e ídolo do Boca Juniors. Riquelme Benigno de Lima, brasileiro, morador do Jardim Colombo, que faz parte da região conhecida como complexo de Paraisópolis, zona sul de São Paulo. O garoto de 13 anos recebeu o nome do ex-jogador de futebol e tem no esporte, só que o basquete, um instrumento de transformação.

Há três anos, Riquelme foi descoberto pelo ex-jogador André Brazolin, que é gestor do projeto social “Anjos do Esporte” e dá aulas no CEU Paraisópolis. De lá para cá, o que era apenas um passatempo se tornou uma oportunidade. Após defender o São Bernardo com destaque, o garoto foi contratado pelo EC Pinheiros, um dos clubes mais tradicionais nas categorias de base do Brasil, e se apresenta no começo de 2020 para atuar pela equipe sub-14.

“O projeto foi responsável por mudar a minha vida. Amadureci, vi coisas boas e ruins, sei o que é certo e o que é errado”, afirmou Riquelme, que chamou a atenção pelo porte físico ao entrar na quadra do projeto em Paraisópolis. “Pensavam que eu tinha 16 anos”, relembra o garoto – ele tinha 10 anos na época.

A bola logo se tornou um meio para um fim. Não à toa são inseparáveis. Riquelme demonstrou um pouco de suas habilidades ali mesmo, sentado no banco de concreto no CEU Paraisópolis. Entre uma resposta e outra ao Estado, driblava com a mão direita, passava para a esquerda, pelo meio das pernas.

 Às vezes demorava para escolher a melhor palavra, mas, mesmo tão jovem, sabe o que quer e o que não quer. “Quando eles começaram, eu já me afastei”, disse, citando amizades desfeitas pela escolha do caminho que ele não considera o ideal. “Cada um tem livre-arbítrio, decide o que quer. Eu vou pelo basquete porque amo jogar, quero ajudar a minha família, quero tirar a minha mãe daqui um dia. Nunca quis algo diferente para mim. Só quero jogar basquete, só quero sair daqui um dia.”

O sair daqui, como diz o garoto, é se mudar da região de Paraisópolis. A comunidade ficou recentemente em evidência pela morte de nove pessoas após uma ação da Polícia Militar, durante um famoso baile funk no local.

Riquelme mora com sua mãe Nara, o padrasto Elias e o irmão Rogério, de nove anos, no Jardim Colombo, que só não é vizinho de porta de Paraisópolis por causa da avenida Giovanni Gronchi. “O sonho dela sempre foi sair daqui. E isso depende de mim. Vou conquistar isso para ela”, afirmou, confiante. “Ela sempre lutou para eu ter uma roupa boa, estar sempre alimentado. Às vezes, ela tira dela para me dar. Meu sonho é tirá-la daqui um dia.”

Do pai, Riquelme fala muito pouco. “Ele se separou da minha mãe quando ela estava grávida de mim, é uma longa história”, desconversou. Ficou apenas o nome do ex-jogador argentino. “Ele achava bonito e não me incomoda ele ter escolhido. É nome de craque”, disse, abrindo um sorriso tímido. Mas não tem vontade de conhecê-lo? “Não quero, deixa assim.” 

Riquelme ganhou um pai no basquete. André Brazolin adotou o garoto desde o começo e o ajuda dentro e fora de quadra. A mãe, Nara, hoje é grata por ter deixado o filho sair de casa para ir nas aulas no CEU Paraisópolis. “Todos precisam de uma oportunidade”, comentou o ex-jogador de Corinthians e Flamengo, entre outros times. “Você tem de ignorar as drogas e enaltecer o esporte.”

O próximo passo é crescer como jogador. No Pinheiros, o garoto será treinado por Vinicius Vieira, mas estará constantemente sob os olhares de Thelma Tavernari, técnica mais vencedora nas categorias de base, com mais de 100 títulos. “É um menino em que enxergamos muito potencial”, afirmou a treinadora. “Ele foi treinado pelo André (Brazolin), parece muito com ele, e o André era excelente. Agora vai depender do esforço nos treinos, mas é um menino de muita personalidade.”

Para André Brazolin, que enalteceu o trabalho da técnica Monique Poles com Riquelme em São Bernardo, o estilo lembra mais o de Alex Garcia, ala da seleção brasileira e atualmente no Minas. Com 1,79m e boa impulsão, ele é um jogador bastante agressivo nos dois lados da quadra. “Só que o Alex é canhoto.”

No Pinheiros, Riquelme vai receber ajuda de custo, terá alimentação, assistência médica e transporte para se deslocar de casa até o Jardim Europa, onde fica o clube. Uma realidade completamente diferente da atual. “Será uma experiência nova, conhecendo outras pessoas, mas estarei lá (no Pinheiros) para o que importa, que é jogar basquete. Quero me beneficiar, ter visão, trabalhar com profissionais capacitados. Vou fazer um bom trabalho”, prometeu. 

O garoto também espera ganhar uma bolsa de estudos para seguir outro aspecto importante na carreira de um jogador. Ele está indo para o oitavo ano, mas sofre para conseguir ter aula na Escola Municipal de Ensino Fundamental Theodomiro Dias, em Paraisópolis. “Sou bom aluno, gosto de inglês”, revelou. Matéria importante para quem sonha em jogar um dia na NBA, a liga norte-americana. Antes disso, claro, tem o NBB (Novo Basquete Brasil)

Até lá, Riquelme espera já ter realizado o sonho de ajudar sua família. Desistir? Esta palavra não faz parte do vocabulário do garoto com nome de craque argentino, mas que lida todos os dias com uma realidade brasileira bastante complicada. “A vida nunca será fácil. Quando você tem um sonho é necessário encarar os obstáculos, não dá para ficar na moleza. Tenho de treinar, jogar, não adianta ficar sentado no sofá esperando um milagre.”

 

Três perguntas para André Brazolin, gestor do projeto 'Anjos do Esporte'

1. Como surgiu o projeto?

Em Minas Gerais, nas cidades de São Lourenço e Caxambu, em 2010, justamente para ajudar crianças e jovens. No começo eram duas crianças, de uma creche, usávamos os braços para simular o aro e com uma bola de futebol. Depois fizemos trabalhos em presídios porque eu queria entender como eles chegaram lá e 80%, 90% tiveram problemas familiares, de influência dos lugares onde moravam. O nome ‘Anjos do Esporte’ nasceu porque eu ia nos lugares que ninguém queria, como na cracolândia, e me chamavam de anjo. Aí iniciei um trabalho com os filhos dos detentos. Desde 2015 estou em São Paulo. 

2. Quantas crianças e jovens se beneficiam do projeto?

Ao todo atendemos 8 mil pessoas. São mil crianças em Paraisópolis, Heliópolis, Araçariguama e Taubaté. Dependo muito de doações, banco com muita dificuldade, mas com muita esperança de conseguir parceiros. Tenho ainda um título de colaboração com a prefeitura de São Bernardo do Campo, onde atendemos 7 mil pessoas no Instituto Brazolin, com aulas de zumba, futebol, basquete e handebol. 

3. O que é necessário para expandir ainda mais o atendimento? 

Tenho projetos aprovados pela Lei Estadual. Então preciso de patrocínio, de capacitação direta, empresários que acreditem. O grupo Floresta, do Boticário, por exemplo, cuida da unidade em Araçariguama. Contamos com ajuda de amigos do Master do basquete do Corinthians e do master do Pinheiros de futebol. Temos apoio do Paineiras do Morumbi nas ações com crianças e do CEO do El Corte Inglês, João Pedro Neto, que nos ajuda na administração e doações. Recebemos doações de bolas da CBB, LNB e Spalding.

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