Ron Kuntz/Reuters
LeBron James em ação pela St. Vincent–St. Mary, quando surgiu como sensação Ron Kuntz/Reuters

A GRANDE OBSESSÃO DO ASTRO KING JAMES NO CLEVELAND CAVALIERS

Estrela volta ao clube com um único objetivo em mente: o título

Marcius Azevedo, O Estado de S. Paulo

06 de junho de 2015 | 17h13

A arrogância é confundida, muitas vezes, com confiança. O excesso de confiança se transforma em arrogância rapidamente. LeBron Raymone James nunca foi imune. A dificuldade na infância nunca foi um obstáculo intransponível para o confiante garoto da pequena Arkon, Ohio. O sucesso prematuro quase o destruiu. Aos 30 anos, o astro do Cleveland Cavaliers, que decide o título da NBA contra o Golden State Warriors – o segundo jogo será hoje, novamente em Oakland, com 1 a 0 para o time da Califórnia – fez arrogância e confiança andarem juntas por uma obsessão.

LeBron escolheu voltar para o time que o selecionou na primeira posição do draft em 2003, diretamente do ensino médio (High School), porque tinha uma ideia fixa na cabeça: conquistar um título para Cleveland. A volta foi uma espécie de pedido de desculpas pela arrogância em sua saída para o Miami Heat. Indignados, os torcedores dos Cavs queimaram suas camisas, o dono da equipe, Dan Gilbert, escreveu uma carta de repúdio que ficou no site da equipe até pouco tempo antes do retorno de King James.

A ida para a franquia da Flórida, por outro lado, foi uma viagem necessária em busca de recuperar a confiança, do autoconhecimento. O jogador amadureceu, aprendeu com os erros, evoluiu, se fortaleceu... Ganhou dois campeonatos em quatro finais, colocou seu nome na história da maior liga de basquete do mundo, se posicionando no seleto grupo de campeões da NBA. Era o momento de pagar uma dívida.

Até a forma de anunciar sua decisão foi um sinal de que a arrogância havia sido abandonada momentaneamente. LeBron não sentiu necessidade de ser cortejado em rede nacional. Quando decidiu se unir a Dwayne Wade e Chris Bosh em Miami o anúncio foi ao vivo na ESPN, em um programa, chamado “The Decision” (A Decisão), com diversas franquias na expectativa. Desta vez o jogador optou por revelar o retorno “para casa” com um texto em primeira pessoa, publicado pela Sport Illustrated, primeira revista conceituada de esportes a estampar o garoto fenômeno do ensino médio na capa, uma clara volta às origens.

Após o anúncio, um confiante LeBron iniciou sua missão. Nas férias, o jogador fez uma dieta restrita de carboidratos, açúcar e laticínios e perdeu dez quilos em dois meses, indo de 123,4 kg para 113,4kg. Ao mesmo tempo em que se preparava para voltar ainda melhor, o astro ajudava na montagem do elenco. Mike Miller, James Jones, Shawn Marion, Kevin Love... A permanência de Anderson Varejão foi outro pedido. Ele só não foi consultado sobre o técnico David Blatt, contratado antes do retorno do ala.

A temporada não começou como planejado. As dificuldades trouxeram à tona o arrogante LeBron. O astro disparou críticas aos companheiros, que, segundo ele, não estavam acostumados a vencer. A cabeça do treinador também foi uma exigência do jogador. Sem sucesso, cobrou então mudanças no elenco. Foi atendido. A chegada de Mozgov, J.R. Smith e Iman Shumpert ajudaram na recuperação da equipe.

O Cleveland terminou na segunda colocação na Conferência Leste e, com LeBron confiante, foi dominante nos playoffs, passando por Boston Celtics, Chicago Bulls e Atlanta Hawks. O caminho até a final, porém, não ficou livre de momentos de arrogância (ou, quem sabe, confiança). No jogo 4 da série contra o Chicago, o astro ignorou jogada idealizada pelo treinador e decidiu com um arremesso certeiro no último segundo. Antes de eliminar os Hawks, melhor time do Leste na temporada regular, King James foi questionado por um repórter se o Cleveland era zebra no confronto. “Eu nunca sou zebra”, disparou. 

PROXIMIDADE

LeBron toma atitudes como esta porque não quer falhar na missão de dar um título para Cleveland em um grande esporte americano desde 1964, quando o Browns venceu a NFL (Liga de Futebol Americano). O jogador tem uma ligação muito forte com Ohio, estado norte-americano que abriga Cleveland e Arkon, onde nasceu no dia 30 de dezembro de 1984. Glória deu à luz aos 16 anos. O pai nunca foi ativo, nem sequer assinou o registro de nascimento do filho. “Ela era minha mãe, meu pai, tudo”, costuma dizer o jogador. “Sempre tive ela para me dar segurança.”

Apesar do dinheiro curto, Glória conseguiu isolar LeBron, o afastando da violência, das drogas. O esporte foi o caminho encontrado. Primeiro o garoto jogou futebol americano. Depois o basquete entrou em sua vida. Frank Walker foi o responsável. LeBron, inclusive, morou na casa da família do treinador Walker. Ele ficava lá durante os dias da semana e passava sábado e domingo com a mãe, até que os James conseguiram o próprio apartamento.

Logo ficou claro a aptidão do garoto para o basquete. Ao lado de Sian Cotton, Dru Joyce III e Willie McGee, ele formou o “Fab Four”. Após se destacarem por uma equipe da liga da juventude, os amigos fizeram um pacto para estudarem na R. Buchtel da High School, uma escola pública predominantemente de negros com um programa de basquete bem estabelecido. A ida de Keith Dambrot, que havia treinado James anteriormente, para St. Vincent-St. Mary High School alterou o rumo da história. 

“Este é o lugar onde todos os sonhos se tornam realidade. Se você crescer pobre e negro neste país, você sonha muito, mas você realmente não acredita que vão se tornar realidade. Este é o lugar onde tudo começou, onde achei que seria possível”, disse LeBron, certa vez, ao New York Times.

A equipe se tornou uma sensação rapidamente. LeBron, claro, era o astro. O garoto era apontado por todos como futura estrela da NBA e, apesar da bagagem familiar, não conseguiu assimilar o sucesso. A arrogância surgiu com força após ele aparecer na capa da Sport Illustrated aos 17 anos. “Eu era arrogante, me achava ‘o cara’. Era pra eu ficar na minha, mas eu era só um adolescente no meio de um bando de repórteres que vinham atrás de mim.

Nós estávamos virando grandes idiotas. Eu especialmente”, escreveu em sua biografia “Shooting Stars”, escrita em coautoria com Buzz Bissinger, famoso nos EUA por livros de esporte, publicada em setembro de 2009. No livro, LeBron admitiu ainda que usou maconha uma vez em um hotel de Arkon, com os companheiros de time. 

O último ano de LeBron em St. Vincent-St. Mary High School foi bastante agitado. Em quadra, o jogador registrou médias de 30,4 pontos, 9,7 rebotes e 4,9 assistências. Alguns jogos da equipe foram transferidos para arenas da faculdade local para abrigar um público maior e transmitidos pela ESPN2, além de estarem disponíveis em pay-per-view por US$ 15.

Fora dela, ele foi suspenso por dois jogos por aceitar US$ 825 em roupas de uma loja, violando oficialmente regras do basquete colegial. Antes disso, porém, uma outra polêmica muito maior. LeBron ganhou da mãe um Hummer H2, avaliado em US$ 50 mil. Uma investigação, porém, inocentou o jogador. O dinheiro para o carrão (que ele bateu no primeiro dia em um carro de uma mulher de 88 anos) foi obtido por empréstimo. O banco, claro, liberou o alto valor porque Glória usou o talento do filho como garantia.

A NBA era o caminho natural. Quis o destino (e uma campanha ruim do Cleveland, até com os torcedores pedindo para o time perder) que LeBron, um filho de Ohio, continuasse por lá. A primeira escolha do draft de 2003 foi dos Cavs. O começo foi complicado. A equipe era ruim. O desempenho do jogador, que havia assinado um contrato de US$ 90 milhões com a Nike, foi excelente (20,9 pontos, 5,9 assistências e 5,5 rebotes por jogo), sendo eleito o melhor novato, mas o time não se classificou aos playoffs.

A melhora foi gradativa e o time alcançou o ápice na temporada 2006-2007. LeBron disputou a sua primeira final da NBA, mas não conseguiu vencer nenhuma partida, perdendo o título para o San Antonio Spurs em quatro jogos. Depois disso, apesar de o jogador continuar se exibindo em alto nível, o Cleveland acumulou duas eliminações na segunda rodada dos playoffs para o Boston Celtics e um revés na final da Conferência Leste contra o Orlando Magic. 

ERA HORA DE PARTIR

A decisão de ir para Miami desencadeou o ódio em Cleveland. Camisas queimadas, outdoor destruído... LeBron, naquele momento, abriu mão da relação com Ohio. Foi o início de um jornada pessoal, inclusive aceitando um salário não compatível com o seu status, para colocar um anel de campeão da NBA no dedo. “O Big Three”, com Wade e Bosh, foi um sucesso imediato. Antes dos dois títulos, porém, o excesso de confiança gerou arrogância e foi fatal. A cena com LeBron e Wade zombando da gripe de Dirk Nowitzki no banco será lembrada eternamente. A derrota para o Dallas Mavericks também.

LeBron foi humilde em admitir pouco depois da perda do título que precisava melhorar como jogador. O treino intensivo com o lendário Hakeem Olajuwon por três dias consecutivos foi fundamental para o ala melhorar no jogo de costas para o aro, ganhar confiança. Vieram os dois títulos e mais um revés na final para o San Antonio Spurs, aquele mesmo que o superou em 2007, pelo Cleveland.

Era hora da volta. “O mais importante para mim é trazer um troféu de volta para o Ohio”, escreveu LeBron, no texto ao anunciar o seu retorno no dia 11 de julho de 2014. A missão ficou mais complicada depois da derrota no primeiro jogo para o Golden State, mas, arrogante ou confiante, King James não vai desistir tão fácil da sua obsessão.

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