Sergio Castro/Estadão
O Instituto Rafael Bábby foi inaugurado no dia 31 de outubro em São Vicente, na Baixada Santista Sergio Castro/Estadão

Rafael Bábby aposta no basquete para inclusão social

Instituto em São Vicente atende 70 jovens carentes

Marcius Azevedo, O Estado de S. Paulo

28 de novembro de 2015 | 17h00

Um garoto entra no ginásio chorando. O pai havia sido preso. Uma menina de 9 anos chega ao treino acompanhada dos três irmãos porque precisa tomar conta deles enquanto a mãe trabalha. São histórias assim que fizeram Rafael 'Bábby' Araújo, que abandonou o basquete recentemente, entrar de cabeça no instituto que leva o seu nome.

O projeto nasceu em 2009, quando ele voltou ao Brasil para defender o Flamengo, era um desejo antigo, mas só se materializou há três meses. A sede é uma pequena sala, debaixo das arquibancadas do Ginásio Dondinho, uma homenagem ao pai de Pelé, no bairro de Catiapoã, em São Vicente, local cedido pela prefeitura.

No ambiente, há uma máquina de lavar, um cesto com bolas, uniformes, uma mesa, duas cadeiras, um sofá... O tapete, peça que se destaca, Bábby trouxe do apartamento que mora em Santos, contrariando um pouco a mulher Vivian Perez. Ela é parte ativa do projeto que busca atrair parceiros pela imagem do marido. O ex-pivô de 2,12m teve uma carreira sólida, atuou na NBA, por Toronto Raptors, Utah Jazz e Minnesota Timberwolves, além de jogar na Rússia e por seis equipes brasileiras antes de se aposentar aos 35 anos por causa de dores insuportáveis nas costas.

Com três meses de funcionamento, o Instituto Bábby já atende cerca de 70 jovens, entre 9 e 18 anos, sendo apenas três meninas, todos de áreas carentes de São Vicente. Os treinos acontecem às segundas e quartas pela manhã e terças e quintas à tarde, sob o comando do ex-jogador e do professor José Augusto de Souza Júnior. 

"Diariamente recebemos mais garotos", se empolga o ex-pivô. Na última terça-feira, quando o Estadão visitou o local, um garoto entrou no ginásio falando que jogava futebol e logo dava os primeiros arremessos. O projeto é aberto para qualquer jovem, desde que ele se dedique dentro e fora de quadra. Todos precisam preencher uma ficha e levar para ser assinada pela diretoria da escola onde estudam. Sem nota boa, nada de bola. "Ficam do lado de fora, só assistindo. O que cobro dos jovens é disciplina e um bom rendimento nos estudos. Só isso", comenta Bábby.

Além do treinamento bastante intenso, ministrado por Bábby com tudo que ele aprendeu ao longo da carreira, principalmente nos Estados Unidos, quando estudou em duas universidades (Arizona Western e Brigham Young University) antes de entrar na NBA, o instituto oferece frutas e vitaminas aos garotos, além de tratamento odontológico.

Tudo com ajuda de parceiros informais. As vitaminas, por exemplo, foram doados por uma farmácia que ficou sabendo do projeto quando o ex-jogador foi ao local. As frutas são entregues pelo Supermercado Fiel Barateiro a cada 15 dias. A conversa foi utilizada para conseguir tinta mais barata para pintar a quadra e atrair interessados em bancar uniformes para os treinos e camisas do projeto Até o preço do galão de água foi negociado por Bábby para evitar colocar mais dinheiro do próprio bolso. 

A partir de janeiro, os garotos terão também transporte para ir e voltar dos treinos. Desta vez, com ajuda da Ultragaz, que vai arcar com o custo de duas vans. A empresa de gás também será responsável pela confecção da mascote para utilização em promoções com futuros parceiros. A abelha foi o símbolo escolhido por representar o trabalho em equipe. Bábby só não conseguiu (ainda) aporte financeiro para comprar pares de tênis para todos os jovens que fazem parte do projeto. "Quem sabe aparece algum interessado?", completou. 

O horizonte deve ficar mais azul no começo de 2016. O Instituto Bábby fechou um acordo nesta semana para criar um apêndice do projeto nas instalações da UNIBR, faculdade que fica em São Vicente. Lá, além do basquete, os jovens terão aulas de judô, jiu-jítsu, basquete de cadeira de rodas e basquete 3x3. O parceiro vai oferecer bolsa de estudo para quem participar do projeto.

Em contrapartida, o Instituto Bábby vai desenvolver cursos com profissionais de fora do Brasil para o público em geral. "É um intercâmbio ao contrário. Vamos trazer profissionais renomados dos Estados Unidos para ministrar cursos, clínicas na faculdade", explica Vivian, que, assim como o marido, se graduou nos Estados Unidos. "Além disso, vamos oferecer estágios para os estudantes no Instituto Bábby." 

A verba para viabilizar o segundo passo do Istituto Bábby virá via Lei de Incentivo ao Esporte, tanto Municipal, assinada pelo prefeito Fernando Haddad em 2014, quanto Federal, criado pelo presidente Lula, em 2006. Na última segunda-feira, Marcelo Rigotti, chefe de representação do Ministério do Esporte, visitou o local para conhecer o trabalho desenvolvido pelo ex-pivô.

O sonho de Bábby de usar o basquete para inclusão social está apenas engatinhando, já que planeja oferecer acompanhamento psicológico, aulas de inglês e de reforço escolar em breve. Mas engana-se quem disser que é uma via de mão única. A garotada do projeto também devolveu ao ex-jogador um sentindo depois da aposentadoria forçada. Ele ficou sem chão por um período, o baque foi grande, sem ter mais uma rotina de treinamentos.

Basta vê-lo em um treino, orientando os jovens com afinco, exigindo o máximo, para perceber o quanto estar ali dentro é importante para Bábby. Além de ajudar na formação de cidadãos, o ex-jogador continua no esporte que tanto ama e que ainda pode ser o futuro. Ser técnico é um objetivo. Quem sabe até ir longe com esses garotos que, se não fosse pelo projeto, nunca seriam descobertos. 

"Tenho muito talento aqui. O objetivo do Instituto não é revelar, mas sei que logo vão aparecer equipes interessadas nos garotos. Só vou deixar sair se puder acompanhar o trabalho com eles. Quero ter o meu time aqui", revelou Bábby.

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