Pai de Raulzinho se emociona com ascensão do armador no Mundial

Raul Togni Filho acalenta o sonho de ver reserva de Marcelinho Huertas se transferir para o Utah Jazz

Alessandro Lucchetti, O Estadi de S. Paulo

10 Setembro 2014 | 07h00

 Raul Togni Filho, o pai do armador Raulzinho, diz que não precisa de muita coisa para ir às lágrimas. Mas seu filho fez muita coisa - saiu do banco para se tornar um dos grandes personagens da vitória brasileira nas oitavas de final da Copa do Mundo de basquete, no domingo, com 21 pontos e um fantástico aproveitamento de 90% nos arremessos de quadra.

Foi uma bonita reviravolta na trajetória do jogador de apenas 22 anos, que temeu muito ser cortado por ter feito um mau Sul-Americano na Ilha de Margarita, na Venezuela, em julho - no final das partidas contra a Argentina e Venezuela, tentou partir para jogadas individuais e perdeu a bola, arruinando chances de reação do Brasil, derrotado nas duas partidas. Para atormentar ainda mais Raulzinho, seu concorrente à vaga, Rafael Luz, também de uma família basqueteira - é filho do técnico Nelzon Luz, o Morto, e irmão de Helen, Cintia e Silvinha - estava se destacando na competição.

"Estou numa idade em que choro por qualquer coisa. Foi muito emocionante ver o Raulzinho jogando daquela forma", diz Raul, que vive em Belo Horizonte - no último NBB, foi treinador do Minas Tênis Clube.

Nascido na capital mineira, Raulzinho cresceu dentro de quadra. Com nove anos de idade, foi levado a tiracolo pelo pai e se apresentou à ex-jogadora da seleção brasileira, Simone Bighetti, dos tempos de Norminha, Nilza e Marlene, para treinar na equipe de base da Associação Luso-Brasileira, em Bauru, quando Raul foi jogar no Tilibra/Copimax, campeão brasileiro em 2002.

A performance de Raulzinho surpreendeu até mesmo Simone, que lhe ensinou os fundamentos. "Com oito minutos de jogo, eu já estava falando, em casa, para o Magnano (técnico da seleção) tirar o Marcelinho Huertas, que não estava bem. Eu só não esperava que o Raulzinho fosse meter três bolas seguidas".

Passados os momentos de maior emoção, contudo, Simone entende que a atuação de Raulzinho foi um desdobramento de seu talento. "Quando o Raulzinho chegou para treinar na quadra do Luso, com nove anos, ele já sabia fazer bandejinha. Mas era muito novinho ainda. Seu talento mesmo apareceu quando já tinha uns 12 ou 13 anos. Aí já era um gênio. Era ele que ensinava a gente. Era um rapaz muito centrado, que sabia o que queria, com personalidade marcante e muita criatividade. Acho que é um garoto que já nasceu com as múltiplas inteligências de que se fala, para brilhar no esporte".

Raulzinho é uma aposta bem sucedida, produto de uma tentativa exitosa de renovação na posição. Com 22 anos, já tem na bagagem a experiência no Mundial de 2010 e nos Jogos Olímpicos de 2012, ainda que basicamente tenha esquentado o banco. Ele foi convocado para a seleção adulta pela primeira vez pelo espanhol Moncho Monsalve, poucos dias depois de completar 17 anos. Na época, Raul Togni Filho era treinador da seleção brasileira sub-19, na qual Raulzinho jogava, e auxiliar de Moncho na seleção adulta.

Por Raulzinho, aliás, Raul abriu mão da chance de disputar os Jogos Olímpicos de 92. "Nós fomos disputar o Sul-Americano, em Montevidéu, voltamos e, depois de uma folga, teríamos de nos reapresentar para treinar no Guarujá. Mas eu não estava feliz com a ideia, porque o Raulzinho estava prestes a nascer e eu não queria perder aquele momento. No aeroporto, resolvi não viajar. Expliquei meus motivos numa carta para o (treinador) José Medalha. Não me arrependo de jeito nenhum. São coisas do coração".

Além de torcer pelo Brasil no Mundial, Raul acalenta o sonho de ver o filho na NBA. O armador foi draftado pelo Atlanta Hawks na segunda rodada e cedido ao Utah Jazz no ano passado, o que significa que ele não tem direito a contrato obrigatório. O Utah, no entanto, pode chamá-lo futuramente. Enquanto espera por isso, Raulzinho se manterá em atividade no Murcia, que está longe de ser uma equipe de ponta da liga espanhola. Nos últimos anos, tem lutado para não ser rebaixada.

"O Murcia tem uma estrutura um pouquinho melhor do que a equipe anterior dele (Lagun Aro). Ficar na Espanha, mesmo numa equipe assim, ainda é melhor do que voltar para o NBB, apesar de o nosso campeonato estar melhorando. Mas sei que o pessoal do Utah Jazz está sempre entrando em contato com ele, acompanhando".

Por sinal, o presidente da franquia Randy Rigby, também acompanhou o clássico entre Brasil e Argentina. E gostou de Raulzinho. "Acho que temos uma pequena joia aqui. Espero que seja realmente um grande trunfo para o Utah Jazz em algum tempo", declarou.    

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