Maddie Meyer/AFP
Maddie Meyer/AFP

Plano arriscado de reconstrução faz Philadelphia 76ers ressurgir na NBA

Há cinco anos, franquia monta times fracos para ter preferência nos drafts; lesões deixaram processo mais lento, mas estratégia deu certo

Gabriel Melloni, Marcius Azevedo e Renan Fernandes, O Estado de S.Paulo

02 Maio 2018 | 07h00

Um time jovem, com estrelas em potencial, semifinalista da Conferência Leste e com espaço na folha salarial para atrair grandes estrelas na próxima agência livre da NBA, a liga de basquete profissional dos Estados Unidos. O Philadelphia 76ers, enfim, começa a ter o retorno esportivo de sua dolorosa estratégia de propositalmente abrir mão das vitórias nas últimas temporadas.

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Se hoje a equipe disputa um lugar na final do Leste com o Boston Celtics (a série está 1 a 0 para os Celtis e o segundo jogo é amanhã), há cinco anos a franquia da Pensilvânia partiu para a arriscada estratégia de reestruturação de seu elenco através de tanking – quando um time monta um elenco fraco e consegue um bom posicionamento no recrutamento de calouros vindo das universidades (draft) no ano seguinte. No entanto, em vez de fazer isso em apenas um ano e começar a montar um grupo ao redor de uma jovem estrela, o então chefe de operações da equipe, Sam Hinkie, decidiu que esse modelo seria repetido por um longo período.

E o plano foi executado com excelência. Ano após ano, o Sixers terminava com a pior campanha entre os 32 times da NBA, conseguindo até alguns recordes nada gloriosos: pior começo de calendário da história, com 17 derrotas nos primeiros 17 jogos em 2014-15 e 28 derrotas consecutivas em 2015-16, temporada que terminou com apenas 10 vitórias e 72 revezes.

“O tanking foi difícil. Toda vez que você vence apenas 20 jogos em três temporadas seguidas, isso abala a relação com a torcida. Mas os verdadeiros fãs nunca abandonaram, e todos estão aproveitando agora”, diz Roy Burton, um dos editores da página Liberty Ballers, que acompanha o dia a dia do Sixers.

Sempre que questionado sobre a falta de ambição de uma das mais tradicionais franquias do basquete americano, dona de três títulos, Hinkie pedia: “Trust the process” (Acredite no processo). A frase virou piada para os rivais e dor de cabeça dentro da NBA.

Como os lucros da liga são divididos entre todas as franquias, e o Sixers começou a dar prejuízos por não ser atrativo comercialmente, os donos dos times começaram a perder dinheiro. A pressão foi tão grande por mudanças que Sam Hinkie pediu demissão em 2016 – só que a semente do seu trabalho estava plantada.

 

LESÕES

Durante todo o tempo de derrotas, o Sixers conseguiu escolher grandes prospectos no draft, como Joel Embiid (24 anos) e Ben Simmons (21 anos). A dupla, selecionada em 2014 e 2016, respectivamente, teve papel fundamental este ano, quando a equipe conseguiu vencer 52 dos 82 jogos e voltou aos playoffs após seis temporadas.

O problema é que ambos sofreram com lesões no início de suas caminhadas na NBA. Selecionado para o Jogo das Estrelas este ano, o pivô Joel Embiid perdeu suas duas primeiras temporadas por conta de uma fratura no pé direito. Em seu terceiro ano, um problema no joelho o limitou a apenas 31 partidas.

Mas nada disso foi suficiente para abalar a confiança do pivô camaronês que começou a jogar basquete com 15 anos. Dominante dentro de quadra e marrento fora dela, ele se autodenominou “O Processo” para ser o símbolo da nova fase do clube e encantou dirigentes e torcedores. A prova desse sucesso foi a sua renovação de contrato pela quantia de US$ 146,5 milhões (quase R$ 465 milhões) por cinco anos, mesmo com pouco tempo em quadra.

Eleito por ninguém menos que LeBron James como seu possível sucessor na NBA, o armador Ben Simmons também perdeu sua primeira temporada por conta de uma fratura no pé durante os treinamentos da pré-temporada de 2016-2017. Neste campeonato, porém, finalmente justificou a enorme expectativa sobre ele ao conduzir o Sixers com maestria.

“Simmons e Embiid talvez sejam a dupla mais especial da NBA neste momento. Simmons é um armador de 2,08m com visão de elite, que pode atuar em qualquer ponto da quadra. E Embiid talvez seja o melhor pivô da liga. É uma força de 2,13m que controla o jogo no ataque e na defesa. Certamente, ambos estão entre os 20 melhores jogadores da liga na atualidade”, considera Burton.

Este ano, o pesadelo das lesões voltou a acontecer. Primeira escolha do draft, o também armador Markelle Fultz, de 19 anos, teve um problema no ombro e ficou fora de combate por 68 jogos. Outro que passou por algo semelhante foi o ala-pivô Nerlens Noel. A aposta do Sixers no recrutamento em 2013 também perdeu seu ano de estreia na liga depois de uma lesão de ligamento cruzado quando ainda estava no basquete universitário. O jogador foi um dos que não teve paciência de esperar o crescimento do time e pediu para ser trocado. Hoje defende o Dallas Mavericks, que terminou em antepenúltimo no Oeste.

ATRATIVO

A boa fase do Philadelphia 76ers também começa a se tornar um chamariz. Veteranos como J.J. Redick, Ersan Ilyasova e Marco Belinelli optaram por assinar pela equipe quando estavam livres no mercado e estão sendo fundamentais para dar experiência ao time nos playoffs.

E ninguém na franquia esconde que o grande desejo é LeBron James. Durante a temporada, outdoors em uma avenida na Filadélfia apareceram pedindo a ida de LeBron para o 76ers ao fim de seu contrato com o Cleveland Cavaliers. Até Joel Embiid entrou na brincadeira e publicou uma foto ao lado do astro, na qual escreveu: “Confia no processo?”.

SPLITTER ELOGIA RECONSTRUÇÃO

Campeão da NBA com o San Antonio Spurs, o brasileiro Tiago Splitter chegou a passar pelo 76ers antes de encerrar a carreira de atleta em virtude de um problema nas costas. Ele acompanhou o crescimento das duas estrelas do time, Simmons e Embiid, que começaram a atuar regularmente apenas neste ano. E se prefere não cravar que o time tem chances de ser campeão já neste ano, acredita em um futuro bastante promissor para a franquia do Leste.

1. O que mais te impressionou ao ver de perto Joel Embiid e Ben Simmons?

Eu vi os treinos deles, porque os dois estavam machucados no ano passado. Mas o que mais me marcou do Ben Simmons foi a visão de jogo. Ele participou algumas vezes das atividades com a gente e tem uma visão de jogo espetacular. Eu acho que se ele melhorar o arremesso, será muito difícil pará-lo. O que todo mundo fala aqui nos Estados Unidos é que ele está a um arremesso de se tornar o novo LeBron James. E o Embiid impressiona pela qualidade de jogar embaixo da cesta, aberto, com movimentação, fintas.

2. É possível apontar os 76ers como uma futura potência na NBA?

É uma previsão muito factível, mas acho que para ser campeão ainda falta um pouco. O 76ers só precisa de um pouquinho mais de experiência, jogar um pouco mais junto e se entender melhor. Aí eles vão ter chance de ganhar a NBA.

3. Qual é o papel do técnico Brett Brown no processo?

Ele aguentou todo esse processo de ter um grupo mais limitado, de receber jogadores jovens e desenvolvê-los para formar um time forte. Cinco anos depois, ele está tendo a recompensa.

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