Eric Charboneau/Apple TV+
Eric Charboneau/Apple TV+

‘Sofri preconceito e discriminação. Hoje seria diferente’, diz Magic Johnson sobre HIV

Ídolo dos Lakers conta em entrevista ao 'Estadão' como ajudou a quebrar estigma em relação ao vírus da Aids que contraiu há 30 anos

Ricardo Magatti, O Estado de S.Paulo

23 de abril de 2022 | 14h00

Earvin “Magic” Johnson Jr, 62 anos, ainda se lembra muito bem do dia 7 de novembro de 1991. Naquela tarde, o astro do basquete enfrentou dezenas de repórteres, cinegrafistas e fotógrafos para anunciar que havia contraído o HIV. Soropositivo mais famoso do mundo até hoje, o ídolo do Los Angeles Lakers dedicou parte de sua vida a derrubar o estigma em torno do HIV e ajudar, por meio de sua fundação, outras pessoas com o vírus. Passadas mais de três décadas, ele está certo de que não sofreria hoje o preconceito do qual foi vítima na época em que revelou ao mundo que fora infectado com o vírus da Aids.

“Acho que a sociedade de hoje aceita mais as pessoas que vivem com HIV e Aids. Naquela época, HIV era um assunto que você tinha de sussurrar, que tinha de falar longe das pessoas”, afirma Magic Johnson ao Estadão. Ganhador de cinco títulos da NBA e eleito três vezes o melhor jogador da liga, o americano falou com exclusividade com a reportagem. Na curta conversa, disse gostar do Brasil, onde já esteve “umas dez vezes”, e dos brasileiros. 

Sorridente, o ex-armador dos Lakers, que revolucionou a forma de jogar basquete, com sua genialidade incomum, só mudou o semblante durante o bate-papo para falar sobre o HIV. Quis destacar, principalmente, seus esforços para educar as pessoas quanto à Aids, doença provocada pelo vírus que debilita o sistema imunológico. “Eu e as pessoas que vivem com HIV e Aids tínhamos que lidar com discriminação. Então tivemos que mudar essas coisas. Eu me tornei o rosto da doença”, diz.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), 37 milhões de pessoas viviam com HIV/Aids em 2020, ano em que foi divulgado o último relatório sobre o tema. No Brasil, no mesmo ano, foram registrados 29.917 casos, de acordo com boletim epidemiológico do Ministério da Saúde.

O ex-atleta e hoje empresário elencou seu quinteto ideal e falou sobre "They Call Me Magic", série documental de quatro episódios que mostra a vida e carreira de um dos maiores esportistas da história, desde sua infância em Lansing até o estrelato em Los Angeles. O documentário estreou na última sexta-feira na Apple TV+. “Acho que no documentário as pessoas vão rir, chorar e refletir. Todas as emoções vão vir à tona”, conta ele, dando importância à sua família, parte fundamental de sua jornada exitosa. “Sou como minha mãe. Ela adorava salvar o mundo”.

'They Call Me Magic' mostra sua trajetória desde a infância, em Lansing, Michigan, até se tornar uma das personalidades mais conhecidas do mundo, não só pela sua carreira vitoriosa no basquete, como pelas causas que defendeu e defende até hoje. O que você destacaria nessa jornada bem-sucedida?

Eu acho que eu destacaria meus pais primeiro porque eu sou como minha mãe e eu sou como meu pai. Herdei deles a ética no trabalho. Meu pai sempre trabalhou em dois empregos. Então, eu tinha a mesma ética de trabalho que ele e sou disciplinado como ele. Sou como ele em termos de uma pessoa que tenta tomar as decisões certas e também na forma de me vestir. Gosto de me vestir bem, usar bons ternos e garantir que tudo esteja bem coordenado. E eu sou como minha mãe, você sabe, ela adorava salvar o mundo e voltar. Tenho seu carisma e seu sorriso. E então eu sou construído como os dois e junto com minha linda esposa Cookie e meus filhos. Essas são as pessoas mais importantes da minha vida, bem como meus netos e meus irmãos e irmãs. Todos fazem parte do documentário. Isso foi importante para mim porque sou um cara de família. Para mim, a família vem primeiro.. Então eu queria que eles fossem uma grande parte desse documentário.

Quando você saiu de Lansing, no Michigan, seu nome já era muito falado, tanto que o Los Angeles Lakers te escolheu. Imaginou, um dia, que poderia alcançar tamanho sucesso em sua carreira?

Não, nem nos meus sonhos mais loucos. Tudo isso que aconteceu na minha vida, eu sair do estado de Michigan já campeão da NCAA (liga universitária americana de basquete) foi incrível. Aliás, as pessoas precisam saber que ainda nos EUA, esse jogo é o mais visto de todos os tempos, Michigan State x Indiana State, com Larry Bird. Eu pensei que ganharia a NBA. Eu não sabia que seriam cinco títulos. Eu não sabia que cresceria até me tornar o que sou hoje, não sabia que as pessoas me conheceriam em todo o mundo. E também não imaginei que seria bem-sucedido nos negócios. Tudo o que aconteceu tomou vida própria e tem sido uma jornada incrível e que tem durado tanto tempo porque normalmente não dura tanto, certo?

As pessoas sabem quem você é enquanto está jogando, mas isso não acontece depois que se aposenta. Acho que fiquei mais popular depois que parei de jogar. Então posso dizer que realmente minha história é única e especial. Estou feliz por essa parceria com a Apple TV+ para contar ao mundo e mostrar ao mundo quem eu sou, como cresci e o que me motiva.  Há algumas pessoas especiais no documentário, contando suas histórias sobre mim também.

Atleta vencedor, empresário, filantropo, ativista, técnico, presidente. Você foi vários dentro da quadra e fora dela em sua vida. Houve algo que quis, mas não conseguiu fazer?

Só porque eu fiz todas essas coisas não significa que eu era ótimo nelas (risos). Porque em algumas dessas coisas eu era ruim e é isso que eu quero que as pessoas percebam. Nem tudo foi ótimo. Eu tive alguns solavancos nessa jornada. Tive problemas como qualquer outra pessoa. Vivo com HIV há 30 anos. Eu não tinha certeza de que estaria aqui 30 anos depois, mas graças a Deus a medicina fez a parte dela, eu fiz a minha parte e estou sentado aqui 30 anos depois. Foram grandes momentos e momentos difíceis. Acho que no documentário as pessoas vão rir, chorar e refletir. Todas as emoções vão vir à tona.

Você foi corajoso ao revelar o diagnóstico de HIV 31 anos atrás e ajudar a derrubar o estigma em relação à doença. Como foi lidar com o preconceito na época? 

Você disse bem. Houve preconceito, houve discriminação. Havia pessoas que não tinham educação sobre como você pode realmente contrair o HIV. Muitas coisas estavam acontecendo no mundo naquela época. Eu e as pessoas que viviam com HIV e Aids tínhamos de lidar com discriminação. Então tivemos que mudar essas coisas. Eu me tornei o rosto da doença, me certifiquei de aumentar o nível de conscientização das pessoas, de educá-las porque havia esse estigma associado ao HIV e à Aids naquela época. Eu tive que mudar todas essas coisas com algumas grandes pessoas que trabalham na área de HIV e Aids há muito tempo. Mais do que eu, essas organizações de base em comunidades fizeram um ótimo trabalho. Nossa parceria conseguiu reduzir os números de casos. Conseguimos educar as pessoas, aumentamos o nível de conscientização sobre essa doença mortal e acho que salvamos a vida de muitas pessoas. O documentário mostra como salvamos a vida de muitas pessoas.

Acha que se anunciasse hoje, 31 depois, que contraiu HIV, o comportamento das pessoas seria muito diferente?

Sim. Se eu anunciasse hoje, definitivamente seria diferente. Acho que a sociedade de hoje aceita mais as pessoas que vivem com HIV e Aids. Naquela época, HIV era um assunto que você tinha de sussurrar, que tinha de falar longe das pessoas. Agora temos um diálogo aberto sobre HIV e Aids. Fizemos a diferença porque minha fundação e o trabalho que fizemos em relação ao HIV e à Aids garantiram que salvássemos muitas vidas. Colocamos muita gente em moradias, isso também é importante. Eles precisavam de um teto. Também bancamos tratamento em clínicas. Fizemos muitas coisas boas nesse espaço de HIV e Aids e continuaremos fazendo.

Qual é o seu quinteto ideal na história da NBA? 

Diria que Michael Jordan, Kobe Bryant, Lebron James, Larry Bird e Kareem Abdul-Jabbar.

E você, em que lugar se coloca entre os maiores da história do basquete?

Eu não falo de mim. Eu deixo outras pessoas fazerem isso (risos). Tive uma grande carreira e sei que ganhei cinco campeonatos e as pessoas sabem disso também, mas se eu tivesse que escolher, escolheria esses cinco que mencionei. O impacto que alcancei foi incrível dentro e fora da quadra. Estou feliz com o que consegui e com o que vou conseguir porque ainda tenho mais coisas para fazer na minha vida.

Como é ver o Los Angeles Lakers fora dos Playoffs? O que deu errado nessa temporada?

Além da lesão do LeBron, que fez uma excelente temporada, realmente uma temporada de MVP, não tivemos ninguém jogando bem. Tivemos algumas lesões. Os jogadores que pensávamos que iriam se destacar não se destacaram e não fizeram uma grande temporada. Nós, como organização, temos que mudar algumas coisas. Esta foi uma das piores temporadas que os Lakers já tiveram por causa das expectativas. Não correspondemos às expectativas que foram colocadas na equipe. Quando você tem Russell Westbrook, Anthony Davis, LeBron James e Carmelo Anthony no mesmo time e você não se classifica nem para os playoffs, isso é um desastre para a organização e para os fãs dos Lakers em todo o mundo. Ninguém está feliz neste momento.Os Lakers precisam se reagrupar e descobrir como podem melhorar para a próxima temporada.

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