'Somos muito fortes no papel', diz o confiante Anderson Varejão

Pivô mostra-se animado com a volta de LeBron James, e diz que o time pode brigar pelo título da temporada que começa nesta terça

Entrevista com

Anderson Varejão

Felippe Scozzafave; Marcius Azevedo; Renan Fernandes, O Estado de S. Paulo

28 de outubro de 2014 | 07h00

"As expectativas são as melhores possíveis". É assim que Anderson Varejão define o que espera da nova temporada da NBA, que começa nesta terça-feira. O pivô do Cleveland Cavaliers, empolgado com a volta de LeBron James ao time de Ohio, acredita que a presença do astro é o diferencial que a equipe precisava para voltar a fazer uma grande campanha na maior liga de basquete do planeta. Aos 32 anos, o brasileiro com carreira mais consolidada na NBA, não esconde o sonho de ser campeão nos EUA. Ele chegou perto do título em 2007, quando os Cavaliers se credenciaram para a final, mas foram derrotados pelo San Antonio Spurs.

Confirmado como titular da equipe para 2014/2015, Anderson Varejão revela ao Estado que espera uma grande parceria não só com LeBron, mas também com alguns de seus novos companheiros, como Kevin Love, Shawn Marion e Mike Miller, destaca a "melhor dupla de armadores da NBA" e garante que o clima de confiança e ansiedade toma conta da cidade de Cleveland para a temporada da NBA.

O Cleveland Cavaliers foi o grande protagonista do último mercado e contratou, entre outros, LeBron James, considerado o melhor jogador de basquete da atualidade. Quais as expectativas para a temporada?

A melhor possível e não poderia ser diferente. Sabemos dessa ansiedade da torcida, estamos contagiados com a alegria de todos e vamos lutar para fazer o melhor campeonato possível. Temos um time forte, competitivo, que é muito bom no papel e precisa ser ainda melhor em quadra, com a bola em jogo. Estamos trabalhando forte para isso, para retribuir a confiança e o carinho dos fãs.

Pelo jogo disputado no Brasil, deu para ver que a sua relação com LeBron é próxima. Ele chegou a conversar com você antes de anunciar o retorno ao Cleveland?

Não. Alguma coisa me dizia que havia uma chance, era um pouco de torcida pessoal também, mas ele não falou nada. Acho até que, se tivesse falado, a alegria que senti quando ele anunciou que estava voltando não ia ser tão grande por causa da surpresa.

Muito se diz que LeBron é um pouco "estrela", mas, ao que parece, o relacionamento entre ele e você é muito bom. Ele realmente exige um tratamento diferenciado dentro da equipe ou, apesar de todo o status que ele tem, é um cara "de grupo"?

Não. LeBron é um cara tranquilo, é um líder, um excelente companheiro e, acima de tudo, um amigo. Fiquei feliz de tê-lo novamente ao lado, como parceiro de time, e ele está muito feliz de estar de volta "em casa".

Como foi acompanhar a saída de LeBron há quatro anos e como você recebeu a notícia do retorno dele?

Claro que, quando ele saiu, não gostei. Não tinha muito o que fazer, mas não podia ser diferente. O melhor jogador do mundo estava indo embora, era uma perda sem tamanho para a nossa equipe. A volta dele foi a melhor notícia que a cidade recebeu em anos. Fãs, imprensa, time, todos ficaram muito felizes.

Acredita que com ele em quadra o seu jogo vai se desenvolver?

Estou sempre buscando melhorar meu jogo, evoluir e ser cada vez mais completo. Com jogadores como ele, (Shawn) Marion, (Mike) Miller, (Kevin) Love, Kyrie (Irving), fica mais fácil, o nível do jogo aumenta, a exigência para todos também.

Na primeira passagem de LeBron pelo Cleveland, ele, bem mais jovem, liderou a equipe até às finais da NBA, mas não conseguiu o título. Passados quatro anos, o que você acha que mudou no jogo dele?

LeBron mudou bastante. Evoluiu, conquistou títulos, isso tudo conta e muito. Hoje, ele é um jogador ainda mais decisivo, lê ainda melhor o jogo, executa papéis e funções em quadra que não fazia antes. Seu crescimento nos últimos quatro anos é visível, sua postura e seu talento, tudo isso será muito útil ao Cleveland para esta temporada.

E Kevin Love? Você acredita que pode ter menos minutos em quadra por causa da contratação dele, que atua em posição parecida com a sua?

Acho que o mais importante é que o Cleveland está mais forte. (Kevin) Love é um excelente jogador, temos nos entendido bem em quadra, e quem escala a equipe, quem sabe o que é melhor para o time é o técnico. Temos um grupo bastante experiente, rodado, com opções para todas as posições. Isso vai manter alto o nível de competitividade da equipe. Todos querem jogar e vão ter espaço e tempo para jogar. O mais importante é que os Cavs vençam suas partidas e façam uma grande temporada.

O início da temporada tem sido diferente para vocês por causa de toda a expectativa sobre a equipe?

Acho que sim, mas do lado de fora. Deixamos essa euforia para imprensa, fãs, enfim... Dentro, sabemos bem o que precisamos fazer e o que queremos fazer, onde queremos chegar.

Para vocês atletas, muda em alguma coisa o fato de a cidade de Cleveland viver grande jejum de títulos nas grandes ligas norte-americanas?

Não. Não fazemos disso qualquer tipo de pressão.

Como está sendo o começo de trabalho com David Blatt?

Excelente. Blatt é um treinador muito inteligente, detalhista, que já se mostrou um técnico bom de estratégia, que sabe muito sobre basquete.

O que mais mudou no sistema de jogo em relação à época de Byron Scott?

A equipe mudou bastante, são outros jogadores, outro técnico, situações bastante distintas, não dá para fazer comparações.

David Blatt já disse que vai te utilizar arremessando mais bolas do perímetro. Como você se sente com esse novo papel no sistema ofensivo?

Quanto mais puder ajudar e ser útil ao time, melhor. Tenho trabalhado muito os arremessos de média distância, tentando aprimorar outros fundamentos também, e com a ajuda de todos, com a confiança do técnico, isso é algo que vai ser mais natural.

Existe algum planejamento para limitar seus minutos em quadra este ano?

Não fico pensando nisso. Espero poder jogar bem, se tiver mais ou menos minutos, isso vai ser uma opção. Pode ser uma questão de momento ou estratégia, o importante é que eu consiga fazer o meu melhor jogo, contribuir para os Cavaliers, ser eficiente.

Você acha que pode repetir aqueles 14 rebotes por jogo da temporada 2012-13, ou aquilo foi um ponto muito fora da curva?

Espero ajudar seja com rebotes, com tocos, pontos, da melhor maneira. Jogando mais dentro (do garrafão), vou estar sempre na briga pelos rebotes. Quero pegar não "só" 14, quero pegar todos. Brincadeiras à parte, é claro que é difícil, é uma média muito alta, ainda mais no alto nível do campeonato. Se deixarem, vou pegando meus rebotes.

Você disputa posição com o Tristan Thompson. Curiosamente, ele mudou a mão de arremesso depois que entrou na NBA. Você já tinha visto isso antes?

Não me lembro, mas já vi jogadores que arremessam com ambas as mãos com ótimo aproveitamento. É uma questão de adaptação, de evolução. Tristan é um jogador de muito potencial, vai ser uma peça importantíssima no nosso esquema de jogo esse ano.

Os Cavs fizeram uma pré-temporada quase perfeita. Até onde este time pode chegar na temporada regular?

Espero que longe, alto, o máximo que pudermos. Temos um caminho longo, não podemos ficar pensando lá na frente, temos de jogar uma partida de cada vez, dar um passo de cada vez. O campeonato está muito forte e temos rivais de excelente nível no Leste e, também, no Oeste.

O Dion Waiters disse recentemente que forma a melhor dupla de armadores da NBA ao lado do Kyrie Irving. Ele disse isso para responder a Bradley Beal, que disse formar a melhor dupla ao lado de John Wall. Qual dupla é melhor para você?

Tenho de concordar com ele. São meus companheiros de time, excelentes atletas e, claro, estou com eles. Beal e Wall formam uma dupla fora de série, mas sou um Cavalier. Estou com Kyrie e Waiters, para mim os melhores são os que estão comigo, corro por eles, dou meu máximo por eles, e sei que eles fazem o mesmo por mim em quadra.

Qual a importância da chegada de jogadores veteranos ao elenco? E como foi lidar com o ego dos garotos promissores dos Cavs na temporada passada?

Nunca tivemos qualquer tipo de problemas dentro do grupo. Muito pelo contrário. Os mais novos sempre se mostraram muito interessados em aprender, em evoluir, e isso foi importante para a reconstrução da equipe. A contratação de atletas mais experientes é fundamental para que o Cleveland consiga algo maior, tenha uma base forte e que ajude no amadurecimento da equipe. Chegaram grandes jogadores, conseguimos montar uma base de qualidade, com atletas mais rodados e outros mais jovens, e isso vai ser importante ao longo da temporada.

O que você pode falar do Anthony Bennett? Ele treinava bem, mas não conseguia demonstrar isso em quadra ou ele teve dificuldades para entender o sistema de jogo em seu ano de calouro?

Bennett é um jogador de muito talento. Uma pena que não conseguiu mostrar todo o seu basquete aqui, teve alguns problemas de lesão também, mas espero que ele possa se desenvolver, jogar bem e crescer como atleta, porque é um garoto que merece.

Como foi "perder" os melhores anos de sua carreira em uma franquia em reconstrução? Você pediu para ser trocado em algum momento?

Não, nunca. Claro que não fiquei feliz com as lesões, com a doença, enfim, com tudo o que aconteceu nos últimos anos. Mas agora estou bem, saudável e pronto para ter uma temporada inteira, assim como foi a última, para jogar basquete e passar longe do departamento médico.

Os Spurs impediram Manu Ginobili de defender a Argentina no Mundial deste ano. Você teme que os Cavs comecem a adotar uma medida parecida com você e a seleção brasileira?

Não. Nunca ninguém do Cleveland me impediu de jogar pela Seleção Brasileira, pelo contrário, sempre me incentivaram, sabem o quanto é importante e o quanto eu tenho orgulho em defender o meu País.

Este é seu último ano de contrato. Podemos imaginar o Varejão em outra cidade ou veremos você como um Cavalier no próximo ano?

Gosto daqui, estou adaptado. Cleveland é a minha segunda casa e não me vejo fora dos Cavaliers.

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