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'Tem uns manés que gostam de apontar o dedo', diz Nenê

Pivô da seleção não liga para vaga por convite e avisa que adversários estão meio apreensivos pela força do Brasil no basquete

Entrevista com

Nenê

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2014 | 17h00

O placar eletrônico do Esporte Clube Sírio, em São Paulo, local de treinos da seleção brasileira na preparação para o Mundial da Espanha, denuncia: uma hora e oito minutos de um trabalho estafante sob o comando do técnico Rubén Magnano. Lentamente, Nenê deixa a quadra, desaba em uma pequena cadeira de madeira, afinal qualquer cadeira é pequena para um sujeito de 2,11m e 113,4kg, e coloca bolsas de gelo nos dois joelhos, procedimento necessário para estar 100% para treinar no dia seguinte.

Com um tom sereno e poucas alterações na voz, Nenê foi direto, sem papas na língua, em entrevista ao Estado, concedida antes do embarque para os EUA e, em seguida, à Europa para disputar o torneio que começa no dia 30 de agosto.

Como avalia o período de preparação?

Todo o tempo que tivemos foi muito importante para ter o convívio diário, ajustar com o cenário do basquete mundial. Hoje não tem mais time bobo. Serviu também para colocar o talento no sistema, explorando os pontos positivos. A nossa equipe tem versatilidade, jogadores que vem se destacando e esse período de preparação foi importante para nós.

Em qual patamar está o time?

Nós temos uma seleção muito respeitada. Os outros países conhecem e reconhecem o nosso talento. Mas tudo isso tem de ser agregado no treino, no sistema que o Rubén está passando. Só o talento não basta, temos que ter a parte tática. Estamos sacrificando várias coisas. Nos clubes temos funções específicas, jogadas modeladas para nós. Na seleção é diferente. Aqui jogamos explorando o ponto fraco do adversário. Ganhando ou perdendo, nós somos o Brasil. Aqui não tem ego, somos operários.

Dá para ir além do quinto lugar dos Jogos de Londres... 

(Interrompe) Fomos bem na Olimpíada...

Sim, mas dá para sonhar com o pódio desta vez?

Se não formos com esse objetivo, com esse sonho, não há motivo para ir. Nós sonhamos com uma medalha, mas sonhar não quer dizer nada. Temos que ter os pés no chão, temos de ter o conjunto, união e confiança no que nós estamos fazendo diariamente.

Com você, Varejão e Splitter, o Brasil tem um dos garrafões mais fortes do Mundial. Esse é o caminho para o sucesso?

É difícil de falar porque não sabemos qual será o comportamento do adversário, mas estamos procurando explorar muito o garrafão. Mas, como eu disse, o nosso time tem muitas variações, podemos jogar de diferentes maneiras. Podemos até mesmo colocar um armador para jogar no pivô, com o Marcelinho, Larry, Leandro...

A aplicação defensiva também será fundamental?

A defesa é a chave da vitória. Se você não defender bem é 90% de chance de uma derrota. Se defender bem, facilita o trabalho ofensivo e, mesmo quando o ataque não funcionar, a defesa irá segurar. Isso vai acontecer contra rivais fortes. A pontuação será parelha, sempre muito próxima. A defesa vai fazer a diferença.

O Brasil está mais equilibrado, não há tantos arremessos forçados como em outros tempos... O que mudou?

Vem da maturidade dos jogadores, do sistema do Rubén. Isso ajuda a ter essa sensibilidade, essa mentalidade de chutar na hora certa, deixar o jogo correr e chegar a você. Tropeçamos no passado e hoje estamos sabendo como jogar o basquete realmente.

Recentemente tivemos o episódio da lesão do Paul George em um treino dos EUA que fez voltar o debate sobre a liberação dos jogadores da NBA para torneios da Fiba. Qual sua opinião?

Tudo isso tem uma explicação. Aquela lesão pode acontecer a qualquer momento, com qualquer jogador, mas as pessoas não entendem que nós dependemos do nosso corpo. Eles veem os jogadores como um show. Se o jogador está lesionado, ele precisa se tratar, se cuidar, porque a nossa carreira é curta e, naquele acidente, poderia ser o fim da carreira do menino. Temos de entender a situação. Se o jogador puder, claro, ele estará na seleção. Tem coisas em que a NBA não pode tocar. O que eles podem controlar, eles controlam. A decisão de jogar pela seleção não está no controle deles.

Kevin Durant desistiu de disputar o Mundial. Gostaria de saber sua opinião, já que esse é um tema que trouxe muita polêmica depois da Copa América quando os jogadores brasileiros da NBA abriram mão de jogar o torneio?

Foi uma decisão sensata, porque o cara jogou muito, teve um desgaste tremendo na temporada. Jogamos quase sete meses de partidas intensas, dormindo mal, comendo mal, viajando, enfrentando climas e fusos horários diferentes... As pessoas não entendem a nossa rotina e avaliam conforme querem. O que devemos fazer, iremos fazer. O público deveria ser informado melhor, mas aí vai da educação também.

O Claudio Mortari, ex-técnico da seleção, esteve na redação do Estado em agosto do ano passado e disse que o problema é que todos continuam encarando vocês como aqueles atletas que moravam debaixo da arquibancada e tomavam tubaína...

É verdade, é verdade. Não é assim que funciona. Quando você é jovem tem de fazer as coisas. Mas, quando se torna um profissional, há um cuidado, uma responsabilidade maior conforme os caras te pagam. Você precisa tomar medidas mais cabíveis. As pessoas têm de ter mais discernimento e sabedoria do que está acontecendo. Mas isso são opiniões de pessoas que não entendem de basquete.

Qual sua avaliação de tudo que aconteceu depois do episódio da Copa América e queria que você falasse das declarações do Oscar...

(Interrompe). Não, não... Eu gosto de comentar sobre coisas positivas.

Mas o Oscar influencia muita gente...

Influência negativa eu deixo para vocês comentarem.

Mas você também tem o direito de falar...

Sou uma pessoa assim: para mim, quem gosta de olhar o passado são pessoas invejosas, que queriam ser como você e não conseguiram, ou até os nossos inimigos espirituais. Eu sou cristão e eu entendo que o diabo gosta de jogar o passado para tentar influir no presente e futuro. Quem pode buscar coisas boas no passado sou eu. O presente é o que vivemos aqui, o que eu olho em volta. E olho para cima visando o meu futuro. Esse sou eu.

Neste aspecto, a atitude do Magnano, que fez críticas aos jogadores, ir para os EUA foi fundamental para sua presença na seleção?

Isso ajudou muito. Até então, existia uma distância. Anteriormente, nós íamos para a seleção e não tínhamos uma estrutura certa. O que vivemos lá, quando chega aqui, estamos acabados. Então era necessário um planejamento. A ida deles para lá, vendo o nosso dia a dia, vendo o quão difícil é, facilitou bastante. Agora o treino que era de seis horas puxado passou para três. Deu uma melhorada brusca.

Você vê mais pressão pelo fato de o Brasil ter entrado no Mundial por convite?

Não muda nada. Não tem um trabalho que você seja positivo constantemente, é natural conviver com altos e baixos. O basquete brasileiro teve isso com a ausência dos jogadores na Copa América. Mas lesão não se explica, meu irmão, se aceita. Agora tem uns manés que gostam de criticar, gostam de falar e apontar o dedo. O Brasil recebeu o convite pela história, pelo histórico do basquete brasileiro e pelo talento que nós temos. Eles (adversários) estão meio acanhados, meio apreensivos e tem de ficar mesmo porque nós temos talento. Com o grupo completo e unido sabemos que podemos conseguir um resultado positivo.

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