Tiago Splitter comemora sucesso na NBA depois de aguardar três temporadas

Brasileiro do San Antonio Spurs vibra com titularidade e mira título nos Estados Unidos

Marcius Azevedo, O Estado de S. Paulo

23 de março de 2013 | 07h30

SÃO PAULO - Tiago Splitter estava sentado em uma confortável poltrona capaz de comportar uma pessoa de 2,11m de altura, em mais uma viagem pelo San Antonio Spurs, quando o seu status na NBA mudou. Foi dentro de um avião que o brasileiro ouviu do técnico Gregg Popovich que seria definitivamente titular a partir da próxima partida.

Após três temporadas na NBA, o pivô, que construiu sua carreira no basquete espanhol, viu todo o seu esforço e paciência serem recompensados. A chance não foi desperdiçada. Splitter entrou na equipe na vitória sobre o Boston Celtics por 103 a 88, no dia 15 de dezembro do ano passado, no AT&T Center, casa dos Spurs, e não saiu mais.

O brasileiro faz sua melhor temporada na maior liga de basquete do mundo, com números sólidos. São médias de 10,6 pontos, 6,1 rebotes e 1,5 assistências, com pouco mais de 24 minutos em quadra por jogo. O pivô evoluiu como jogador e caminha com passos firmes com o San Antonio para brigar pelo título da NBA.

Em entrevista exclusiva ao Estado por telefone, Splitter fez uma análise do seu momento, elogiou o seu companheiro de garrafão, Tim Duncan, com quem está formando uma dupla afinada, vive a expectativa de ser o primeiro brasileiro a ganhar o anel de campeão, além de falar sobre o seu futuro - está em seu último ano de contrato com os Spurs -, da vinda de um jogo da liga norte-americana para o Brasil e de seleção brasileira.

Você concorda que essa é sua melhor temporada?

É uma temporada que está sendo bastante produtiva para mim. Estou sendo titular, estou ficando mais minutos em quadra e, com isso, você ganha confiança e tudo fica mais fácil. Os números estão comprovando isso também.

Você acha que demorou muito para ter sua chance de ser titular?

Você sempre quer antecipar etapas, jogar mais tempo, é natural de qualquer atleta. Mas o San Antonio é uma equipe competitiva, que está sempre jogando playoffs, finais de playoffs, finais de NBA... Então eles não têm tempo para experimentar um novato, eles precisam que todos os jogadores joguem bem desde o começo. O que eles fizeram comigo foi aos poucos me colocar dentro do sistema. O segundo ano já foi melhor do que o primeiro e é neste terceiro que eu estou me sentindo melhor adaptado e as coisas estão dando certo para mim.

Então o Gregg Popovich, o seu técnico, acertou?

Ele tem suas sensações dentro de uma temporada e ele sentiu que era necessário esperar este tempo para me adaptar e o time também me conhecer melhor.

 

Tiago Splitter anota 25 pontos na vitória sobre o New Hornet Orleans, o seu melhor desempenho ofensivo na temporada

Como foi a conversa com ele antes de virar efetivamente titular?

Ele só chegou em uma viagem, dentro do avião, e disse que eu seria titular no próximo jogo, que eu estava jogando bem, nada além disso. Mas ele sempre me ajudou muito desde que eu cheguei aqui, mesmo quando não jogava muitos minutos, me dava dicas para melhorar o meu jogo.

Como é o trabalho diário com ele?

O Popovich é um cara que fala muito com os jogadores. Dentro da quadra, ele tem este jeito durão, dá bronca, quer corrigir os erros... E fora ele é diferente. Vem perguntar como você está, como estão os familiares, dá conselhos...

Splitter anota 23 pontos na vitória sobre o Boston Celtics, o seu segundo melhor desempenho ofensivo da temporada

O fato de o San Antonio ter historicamente muitos estrangeiros te ajudou?

A própria dinâmica do time fica mais fácil para entrar, se adaptar, porque tudo mundo está na mesma situação, em um país diferente. Neste aspecto é muito mais fácil. O San Antonio é uma equipe que tem tradição de ter muitos jogadores internacionais.

Dá para explicar o que Tim Duncan, aos 36 anos, tem feito em quadra?

Todo mundo sabe o que ele já faz no basquete, mas, ultimamente, ele está se adaptando ao próprio corpo. As pessoas sabem que ele já tem 30 e poucos anos, que os joelhos não são mais os mais rápidos da liga e ele está se adaptando muito bem a essa velocidade de jogo. Ele emagreceu bastante para aguentar. Ele está jogando com muita paciência, em um ritmo que é perfeito para o nosso estilo de jogo.

E sua parceria com ele? Você está sendo para o Duncan o que ele foi para o David Robinson?

Nós estamos nos entendendo bem, estamos sendo um bom complemento um para outro dentro do garrafão. Aprendemos cada dia mais. Nós sabemos que em algumas noites será mais difícil defender os outros jogadores, em outros, vai encaixar um pouquinho mais. Tentamos traduzir isso de uma forma coletiva. Estamos nos entendendo bem, passando bem a bola entre a gente. As jogadas estão funcionando, espero que continue assim e que possamos fazer um bom playoff.

Tiago Splitter faz 19 pontos e pega nove rebotes na vitória sobre o Golden State Warriors

Em quadra, o Duncan não muda de fisionomia. É sempre sério. Ele não sorri?

Claro que sorri. Mas, dentro do jogo, ele é um cara que está sempre muito focado. Ele não deixa nada abalá-lo. É uma virtude que poucos jogadores têm hoje. Ele não se emocionado quando acerta um arremesso incrível nem quando erra uma bola fácil. Essa talvez seja sua maior virtude.

Você falou nos playoffs... Como vê a disputa pelo título da Conferência Oeste?

É sempre uma pedreira. Você tem o Oklahoma jogando bem, o Denver também... O Los Angeles Clippers... Você ainda tem os Lakers, que montaram uma equipe para ser campeã e estão em oitavo e podem ser os nossos adversários já no primeiro cruzamento dos playoffs. Não será nada fácil. É difícil fazer uma previsão. Emoção não vai faltar.

Vocês conversam sobre enfrentar Kobe Bryant e os Lakers?

Sim, até porque pode acontecer. Nós comentamos dentro do time. Mas estamos confiantes de chegar até uma final e, quem sabe, conquistar esse título. E para isso temos de ganhar de qualquer time que aparecer pela frente. Se for Lakers, Clippers, Oklahoma, Miami..., não importa. Para ser campeão, você precisa derrotar grandes times em casa, fora, precisa ganhar jogos importantes.

Você citou o Miami. Como vê um possível confronto na final?

Eles vêm em uma dinâmica incrível. São 20 e poucos jogos sem perder, é um time muito complicado de se enfrentar. Às vezes, eles jogam com cinco jogadores abertos. O LeBron (James) jogando de cinco (pivô), sendo que é um armador de 2,08m e 120kg. É um time difícil de você defender, eles têm um jogo muito agressivo, com muito talento. Vamos ver. Primeiro queremos estar lá na final.

Já se imaginou como o primeiro brasileiro campeão da NBA?

Ainda não. Estou pensando no próximo jogo. Nós temos muita estrada pela frente até lá, mas, claro que seria bacana ter um título da NBA.

Dupla entrosada: Tim Duncan dá assistências a Tiago Splitter

Existe alguma definição em relação ao futuro? Você está em seu último ano de contrato com o San Antonio... Se vê jogando em outra franquia?

Eu comentei com os meus agentes que queria dar um tempo, não pensar nisso durante a temporada, esperar o fim dela para conversar, ver quais são as minhas opções, o que é melhor para mim... Mas, com certeza, estou muito bem e cômodo aqui em San Antonio. Temos que valorar todas as opções.

Como viu a confirmação do primeiro jogo da NBA no Brasil?

Fiquei muito feliz. É o sonho de muita gente ver um jogo da NBA no Brasil e, com certeza, vai lotar o ginásio. Espero que possa ser um jogo bacana, que todos possam se divertir. Cada vez mais a NBA está olhando para o Brasil, para a América do Sul, e isso é muito bacana.

Você tem conversado com o Rubén Magnano? Vai estar na Copa América da Venezuela? É possível montar uma seleção forte sem você, Varejão e Leandrinho, que estão se recuperando de lesão?

Vou conversar com ele. Ele está vindo para cá em breve (viaja no começo de abril para os Estados Unidos), mas realmente não sei o que vai acontecer. As minhas férias serão um pouco corridas por causa do contrato. Tem também o Anderson voltando de lesão, o Leandrinho é uma incógnita. Espero que o Brasil possa ter o melhor time possível, forte e que possa conquistar o título novamente.

O bom trabalho que já levou o Brasil aos Jogos de Londres foi mantido com a permanência do Magnano. Dá para fazer um bom Mundial e ir bem em 2016, no Rio?

O caminho é esse, demonstramos isso com o basquete que jogamos em Londres. Nós temos vários jogadores jovens, alguns jogando fora, na Espanha, bons valores na própria liga do Brasil... Você vê muitos garotos querendo jogar basquete e isso é bom, é o caminho. Espero que possamos fazer um bom trabalho no Mundial (da Espanha, em 2014) e ainda mais no Rio, em uma Olimpíada, jogando em casa.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.