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Tragédia reveladora

Kobe Bryant era um herói negro, parte da estirpe consolidada que domina a elite da NBA

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

02 de fevereiro de 2020 | 04h00

Uma tragédia como a que cercou a morte de Kobe Bryant acaba por revelar coisas que necessitam exatamente de acontecimentos portentosos para aparecer mais claramente aos olhos de todos. Morreu, junto com sua filha, um herói negro que compunha uma estirpe já consolidada completamente e que domina a elite da NBA, a liga americana de basquete.

A ascensão dos negros até o primeiro plano desse esporte foi algo que se deu em etapas. No começo havia um Wilt Chamberlain ou um Bill Russell cercados de brancos por todos os lados. Imagens dos anos 50 mostram a total predominância branca no esporte. Mas, paulatinamente, foram surgindo Kareem Abdul-Jabar, Julius Irving, Magic Johnson.

No final dos anos 80 consolidou-se a presença definitiva do negro americano nas quadras. As épicas batalhas contra o Boston Celtics, que ainda tinha maioria de atletas brancos, revestiu-se naqueles anos de aura de batalha racial, que preocupou até as autoridades esportivas.

O fantástico time do Lakers de Magic Johnson, Kareem Jabar, Byron Scott, A.C. Green e James Worthy, todos negros, não deixava mais dúvidas. Os negros tinham se tornado absolutos no basquete e, mais do que isso, estabelecido uma outra maneira de jogar. Até os negros chegarem o basquete, como todo esporte, obedecia o binômio de eficiência e vitória. Os negros chegaram propondo um outro método: fantasia e vitória.

Aproveitando suas características corporais, suas constituições físicas particulares, inventaram um basquete cheio de malabarismos, danças, voos parados no ar, quase números de magia, diante de atônitos espectadores. O símbolo disso foi Michael Jordan, o incrível astro do Chicago Bulls, cujo jogo podia ser basquete, mas podia ser ao mesmo tempo um balé africano, selvagem e refinadíssimo como expressão corporal. O reinado dos negros no basquete estava estabelecido para sempre.

Com Michael Jordan, Isiah Thomas, Karl Malone, Charles Barkley, etc., já se tornava raro um jogador branco de destaque nas equipes. Essa desproporção só aumentou e hoje continua igual.

De qualquer modo, foi no ambiente de absoluta predominância negra que Kobe Bryant chegou, e logo se revelou direto herdeiro do reinado Jordan, com o mesmo estilo acrobático, elegante, leve, cheio de ginga e mortal. Jogou 20 anos num clube só, onde foi rei absoluto. Quem competiu com ele teve que se mudar de Los Angeles. Agora está morto e os negros do basquete americano desfilam sua dor.

O que se vê é sobretudo a dor dos demais jogadores negros. Os brancos ficam de fora como que com certo pudor de participar de uma dor à qual não têm completamente direito. Os poucos brancos que se manifestam são fãs desconsolados, atônitos, como o ator Jack Nicholson, que representa a Los Angeles das celebridades.

O resto é uma sucessão de caras negras revelando em suas expressões aquele pesar ancestral que se vê nos olhos dos negros diante das fatalidades. Reaparece a dor da raça, como que sempre à espera de se manifestar. Jogadores, de Kareem Abdul-Jabar até LeBron James, desfilam lembranças e reverências ao seu rei que tombou.

É verdade que o mito de Kobe foi além da comunidade negra e é propriedade dos fãs do mundo inteiro. É uma pena que talvez um ritual oficial e solene tome o lugar de um daqueles desorganizados enterros musicais, à moda de New Orleans. Seria a homenagem final se esse grande artista popular fosse levado ao cemitério embalado pelo som de outros artistas populares.

Para finalizar, há um aspecto dessa tragédia que vai além das tragédias habituais É quando morrem crianças. Talvez mais doloroso de tudo é a morte da pequena Gianna Maria, com esse nome italianíssimo, provável evocação de Kobe do país onde viveu sua infância. Gianna e suas amigas mortas são o que há de mais doloroso nesse desastre.

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