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'Vamos continuar cobrando e buscando visibilidade para que as coisas mudem', diz Damiris

Após excelente temporada na WNBA, principal jogadora de basquete feminino do Brasil enaltece luta pela igualdade de condições com os homens no esporte

Entrevista com

Damiris Dantas, jogadora do Minnesota Lyxn, da WNBA

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

11 de outubro de 2020 | 05h01

A luta está apenas no começo. Principal jogadora de basquete feminino do Brasil e após uma excelente temporada na WNBA, Damiris Dantas, de 27 anos, quer aproveitar o bom momento na carreira para aumentar o volume da voz das mulheres por direitos iguais ao dos homens na modalidade. 

Em entrevista ao Estadão, no Dia Internacional da Menina, data criada pela Organização das Nações Unidas em 2012, para celebrar os progressos nos direitos das meninas e mulheres adolescentes, a jogadora do Minnesota Lyxn reforça o intuito da campanha #LevanteABolaDelas, lançada em agosto, fala da dificuldade em vencer como mulher e, claro, comenta sobre o desempenho em quadra. A brasileira teve sua melhor temporada na liga americana, com médias de 18 pontos e 7,5 rebotes nos playoffs, além de um excelente aproveitamento de 51,9% nos arremessos de três pontos.

A campanha #LevanteABolaDelas, lançada em agosto, surtiu o efeito desejado por vocês, jogadoras, que lutam há muito tempo pela igualdade de gênero?

A campanha foi muito importante. Passamos a ver o basquete feminino com muito mais frequência nas mídias, na internet e a campanha ajudou bastante. Mas é claro que temos muita coisa para melhorar em nossa luta para que empresas, patrocinadores e outras pessoas também olhem para o basquete feminino. Demos um passo importante. E vamos continuar falando, cobrando e buscando visibilidade para que as coisas mudem para o basquete.

É muito mais difícil vencer como mulher no esporte?

É muito difícil. Nós mulheres precisamos provar o tempo inteiro de que somos capazes, que podemos, que conseguimos e tudo mais, só pelo fato de ser mulher. E no esporte não é diferente. Quando nós mulheres nos propomos a fazer algo, fazemos muito bem, fazemos com amor e dá muito certo. Queremos e precisamos de tanto investimento, quanto o esporte masculino.

Coincidentemente, neste domingo, 11 de outubro, é o Dia Internacional da Menina, data criada pela ONU em 2012, para celebrar os progressos nos direitos das meninas e mulheres adolescentes... O quanto isso é importante?

Importante demais para que possamos conscientizar todos sobre o que acontece com as jovens pelo Brasil e pelo mundo inteiro. É preciso dar visibilidade, promover o entendimento e buscar o respeito pela causa. Inclusive, a convite da Nike, estou participando de uma campanha para chamar atenção a essa data. Precisamos mostrar o quão importante é o incentivo ao esporte para as meninas e, juntos, ajudarmos a quebrar todas essas barreiras que as afastam da prática esportiva e do sonho de se tornarem atletas.

Você é um exemplo de superação, alcançou o sucesso, como fazer para que outras meninas possam trilhar o mesmo caminho?

Precisamos de mais meninas sonhando, se superando e conquistando sucesso no caminho que escolherem. E para isso acontecer, precisamos de mais pessoas acreditando, investindo, apoiando e incentivando todas elas. Foi assim que aconteceu comigo e é isso que todas as outras meninas precisam também.

O quanto foi importante lá atrás ter uma figura como a Janeth para o seu crescimento?

Nossa, foi importante demais! Conhecer a Tia Jane, sua história e ter a oportunidade de me desenvolver no projeto que ela criou, planejou e construiu, me ajudou muito! Estou sempre me espelhando nela. Ela sempre foi muito importante para o basquete e muito presente na minha vida e na vida de todas as meninas que passam pelo projeto. Tenho um amor muito grande por tudo o que ela fez dentro e fora de quadra. Nossa conexão é muito especial.

Hoje você tem uma visão melhor da necessidade de um posicionamento como atleta bem-sucedida para alertar para as mazelas do mundo?

Nós, atletas, temos uma grande visibilidade, nossos próprios canais de comunicação e todo o direito de se posicionar, lutar contra injustiças e, assim, vamos motivando outras pessoas a fazerem o mesmo.

Como você viu o movimento dos atletas, NBA, WNBA e outras ligas contra o racismo e pela justiça social?

Me senti muito acolhida e feliz em viver esse momento na WNBA. A luta pelas justiças sociais, também é minha luta e me sinto muito mais forte e preparada com a liga e todas as outras atletas junto comigo.

Falando um pouco do basquete, claro, que temporada na WNBA, hein! Está feliz com o seu rendimento?

Muito feliz com minha temporada. Posso dizer que foi minha melhor temporada nesses seis anos de WNBA. Foi muito especial, conquistei ainda mais a confiança da minha treinadora, das minhas companheiras e, agora, preciso focar e continuar treinando para novas conquistas no futuro.

O que faltou para o Minnesota Lyxn conquistar o título?

Difícil falar o que faltou. Mas, pra começo de conversa, era um time que poucas pessoas acreditaram. A técnica bateu no peito e acreditou na gente. A gente se superou o tempo inteiro, enfrentamos diversas lesões, perdemos 3 jogadoras importantíssimas, que fizeram muita falta. Se elas estivessem, seria outra história. Não sei o que faltou, mas chegamos bem perto. E o time é muito unido, com pensamento coletivo, nos fortalecemos na bolha e serviu para muito aprendizado. É um time que vai amadurecer ainda mais. Valeu, muito, por tudo o que aconteceu e, se Deus quiser, vamos buscar o título na próxima temporada. O time está de parabéns.

Quais os seus próximos passos? Já definiu onde vai jogar? O Brasil exportou bastante jogadoras para a Europa...

No momento não fechei com nenhum outro time, além do Minnesota. Temos mais duas temporadas pela frente. Conversei com minha técnica, com minha empresária, e decidi que vou ficar de férias. Estou há 6 anos nessa pegada de jogar duas temporadas por ano e agora é momento de cuidar do meu corpo e me fortalecer para a próxima temporada. Muitas meninas queriam experimentar essa vivência fora do Brasil e está acontecendo agora. Estou muito feliz por elas, tenho contato com todas, algumas já estão jogando e tenho certeza de que esse é o caminho. Quando a gente se juntar, estaremos melhores e mais experientes.

Depois de alguns meses já deu para digerir o fato de ter ficado fora dos Jogos de Tóquio?

Cara, muito difícil digerir isso. Queríamos muito essa classificação para Tóquio. É difícil de falar, porque eu me sentia tão preparada, com um grupo tão forte para conquistar essa vaga. Mas não foi como a gente esperava. Precisamos sempre tirar o que tem de melhor, aprender e continuar trabalhando. As coisas estão mudando para o basquete feminino e, se Deus quiser, vamos colher os frutos lá na frente.

Como imagina que precisa ser o trabalho para o próximo ciclo olímpico no basquete feminino?

O basquete feminino está evoluindo. Desde o Pan, até agora na última competição pré-olímpica, nós vimos as mudanças. A nossa mentalidade, nossa forma de trabalhar, estamos buscando evoluir a cada dia. Essa experiência das meninas na Europa vai ajudar muito, muito mesmo. Quando juntarmos, mais maduras, mais experientes, estaremos ainda mais fortes. Estou muito otimista e feliz com esse grupo do basquete feminino.

  

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