David Berding-USA TODAY Sports
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Vexame de jogador japonês na NBA atrai elogios em seu país natal

Tornar-se viral depois de cair no chão ao tentar impedir uma enterrada? Sem chance - a menos que você seja Yuta Watanabe, cujo esforço o tornou querido por uma onda crescente de fãs de basquete em seu país, o Japão

Alex Wong, The New York Times

12 de maio de 2021 | 15h00

Em um lance que se tornou viral na internet, o ala do Toronto Raptors, Yuta Watanabe, acabou no chão ao tentar bloquear a enterrada do ala armador Anthony Edwards, do Minnesota Timberwolves, durante uma partida em fevereiro.

Fotos e vídeos de Watanabe inutilmente tentando impedir a enterrada surgiram aos montes nas redes sociais, incluindo no perfil do Instagram do ator e fã de basquete Kevin Hart, que compartilhou uma foto do lance com seus mais de 100 milhões de seguidores e escreveu na legenda: “Esse ala tem que ser expulso da liga imediatamente... não há como continuar depois disso."

Mas Watanabe ainda está aqui e, em sua terceira temporada na NBA, ele conquistou a torcida dos fãs de basquete no Japão, seu país natal, enquanto ganhava uma vaga de rodízio com os Raptors.

Takeshi Shibata é o gerente de negócios de basquete da Nippon Bunka Publishing e é escritor e editor da empresa em Tóquio desde 2010. Nascido em Tóquio, ele cresceu assistindo ao Showtime do Los Angeles Lakers na televisão por satélite na década de 1980, aprendendo inglês ouvindo o famoso locutor Chick Hearn.

Nesta temporada, ele é um dos vários repórteres japoneses que cobrem Watanabe, a quem ele segue desde que o jogador estava no ensino médio jogando pela escola Jinsei Gakuen na província de Kagawa, no Japão. “O que via era um jogador incrivelmente atlético”, disse Shibata. “Ele era um homem de força, um homem dedicado.”

Watanabe tem a camisa mais vendida da NBA no Japão nesta temporada, à frente de Stephen Curry do Golden State, LeBron James do Lakers e Rui Hachimura, o atacante do Washington Wizards que em 2019 se tornou o primeiro jogador japonês a ser convocado na primeira rodada.

Hachimura é mais reconhecido por seu nome e tem melhores chances de se tornar uma estrela na liga, mas a história de Watanabe - não foi contratado no draft de 2018 depois de quatro temporadas na Universidade George Washington, e depois assinou um contrato bidirecional com o Memphis Grizzlies - tem atraído um grande público no Japão.

“Ele seguiu um caminho mais humilde”, disse Ed Odeven, que cresceu no Bronx, um bairro da cidade de Nova York, e cobre basquete no Japão desde que se mudou para lá em 2006. “A cultura japonesa valoriza a persistência e o trabalho árduo para alcançar seus objetivos. Eles veem isso em Yuta, e isso ressoa com eles. ”

A pandemia destruiu os planos de Shibata de viajar para Toronto - onde passou a lua-de-mel com a esposa, Ayako, em 1994 - para cobrir pessoalmente Watanabe nesta temporada. Em vez disso, ele acorda às 5 da manhã e acompanha os Raptors de sua casa em Chiba, Japão, publicando até quatro matérias de basquete diariamente no site da empresa. (Os Raptors também não estão em Toronto; por causa das restrições devido a pandemia no Canadá, eles passaram a temporada em Tampa, Flórida.)

Shibata gosta da flexibilidade de trabalhar de casa e mantém contato com o treinador do Toronto, Nick Nurse, que tem respondido as perguntas dos repórteres japoneses no final de suas coletivas de imprensa virtuais. “Gosto de conversar com ele e escutar seus retornos”, disse Shibata. “Ele sabe que meu inglês não é dos melhores, mas estou dando o meu melhor para me comunicar com ele. Ele tem sido muito solidário com alguém como eu.”

Nos primeiros 66 jogos de Toronto, Watanabe jogou em 47 e tem uma média de 4,2 pontos em 14,2 minutos. “Tenho certeza de que poderia escrever uma boa matéria mesmo se Yuta jogasse cinco segundos na quadra”, disse ele. “Porque cada segundo significa muito para os fãs de basquete no Japão.”

Shibata foi contratado pela Nippon Bunka Publishing em 1992 como gerente de publicidade em um momento que ele acreditava ser o início de uma era de ouro do basquete no Japão.

Ele começou a trabalhar na empresa logo depois de assistir Michael Jordan e o Dream Team na Olimpíada de 1992 em Barcelona, que despertou o interesse pelo esporte em todo o mundo. Isso coincidiu com a publicação de um popular mangá de basquete japonês escrito e ilustrado por Takehiko Inoue e chamado “Slam Dunk”. A publicação circulou de 1990 a 1996, vendeu mais de 120 milhões de cópias no Japão e ajudou a inspirar milhões de crianças - incluindo Hachimura e Watanabe - a jogar o esporte.

Duas ligas finalmente surgiram no país. A Liga de Basquete Japonesa começou em 2005, seguida pela Liga Japonesa de Basquete, que se tornou a Liga Nacional de Basquete, em 2007. Ter duas ligas nacionais acontecendo simultaneamente violou os estatutos gerais da Federação Internacional de Basquete (FIBA), e a Associação Japonesa de Basquete, que supervisionava ambas, foi suspensa das competições internacionais em 2014. “Houve tantos obstáculos ao longo do caminho”, disse Shibata.

As coisas começaram a mudar nos últimos anos. A proibição da FIBA foi suspensa em 2015. A Liga B. - uma nova liga profissional no Japão com 47 times em três divisões - foi lançada em 2016 e tem tido sucesso em seus primeiros cinco anos, atraindo fãs no país e grandes patrocinadores.

Hachimura e Watanabe inspiram uma nova geração não apenas a acompanhar o esporte, mas também a se ver jogando no mais alto nível. (Yuta Tabuse se tornou o primeiro jogador nascido no Japão a jogar na NBA em 2004, mas durou apenas quatro partidas com o Phoenix Suns.)

No Japão, as competições de basquete são vistas muito menos do que as de beisebol, futebol, tênis e luta de sumô. Jornais locais publicam matérias sobre basquete vez por outra, como quando saiu a notícia no mês passado de que os Raptors transformaram o acordo bidirecional de Watanabe em um contrato padrão da NBA. Mas os jogos da NBA estão disponíveis apenas online, por meio de uma parceria de streaming entre a liga e a Rakuten.

Agora há um número crescente de contas de mídia social, canais do Youtube e podcasts, e eles estão ajudando a produzir material que não foca exclusivamente no que acontece em quadra, mas se baseia na personalidade dos jogadores, que reflete como o basquete é coberto na América do Norte.

“Tornou-se diferente na última década”, disse o técnico do Detroit Pistons, Dwane Casey, que treinou no Japão de 1989 a 1994 e visita o país regularmente. “Você pode ver a geração mais jovem ficando mais animada com o basquete, e eles estão cobrindo isso agora. Eles gostam das mesmas coisas que chamam a atenção da geração mais jovem na América do Norte. ”

As equipes da NBA estão reconhecendo esse novo apetite por conteúdo digital. Os Raptors apresentaram Watanabe em um episódio de “Open Gym”, sua série de vídeos dos bastidores, em fevereiro. É o episódio mais visto da temporada. E em 2019, os Wizards contrataram Zac Ikuma, um repórter esportivo bilíngue no Japão, como correspondente digital. A equipe tem uma conta no Twitter em japonês, e Ikuma apresenta um podcast em japonês para fãs no exterior.

Algumas semanas depois de o vídeo da enterrada de Edwards contra Watanabe se tornar viral, um repórter japonês perguntou a Watanabe sobre o lance. A entrevista foi traduzida para o inglês pela conta de um fã no Twitter, @RaptorsInfoJPN. “Em uma situação como essa, a maioria das pessoas evitaria fazer isso atualmente por medo de se tornar uma piada viral na internet”, disse Watanabe.  “Eu acho que, se eu fosse isso, não deveria estar mais aqui e não deveria ter nenhum tempo em quadra.”

Para Shibata, o lance exemplifica a ética de trabalho de Watanabe, que abriu a porta para uma nova geração de jogadores de basquete no Japão sonhar em um dia seguir o mesmo caminho até a NBA. “Eram apenas dois pontos”, disse Shibata. “Ficamos orgulhosos dele por sacrificar seu corpo para tentar impedir a enterrada. Para ser um jogador da NBA, você tem que parar esses caras no ar. Para fazer isso, você não pode se esconder.” / TRADUÇÃO DE ROMINA CÁCIA

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