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'Vinda do Miami mostra interesse da NBA pelo Brasil', diz Arnon de Mello

Filho do ex-presidente Fernando Collor de Mello é responsável pelo escritório da liga no País

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

24 de maio de 2014 | 17h01

SÃO PAULO - O sobrenome soa familiar. Associado ao outro nome do pai nos remete a um dos episódios mais marcantes da história política brasileira. O profissional por trás da entrada definitiva do Brasil no mapa da NBA, maior liga de basquete do mundo, é Arnon de Mello, filho do ex-presidente da República Fernando Collor de Mello, que passou por um processo de impeachment em 1992.

Arnon é filho de Collor com Lilibeth Monteiro de Carvalho, primeira mulher do ex-presidente. À época, os pais estavam separados há mais de dez anos. Ele era um adolescente, com 16 anos, mas o fato ocorrido no dia 2 de outubro, data do afastamento do presidente após o processo de impeachment aberto pela Câmera dos Deputados - renunciaria em 29 de dezembro - o acompanharia pelo resto da vida.

Seguir os passos do pai foi o caminho natural. Primeiro o futebol, com uma passagem como presidente do CSA entre 1999 e 2001. Depois, o campo político. Em 2002, na mesma eleição em que Collor foi derrotado na disputa pelo governo de Alagoas, Arnon recebeu 51.039 votos pelo PRTB, mas não conseguiu se eleger deputado federal porque não conseguiu o coeficiente mínimo (110 mil votos).

A política saiu de cena. Entrou o basquete. Em 2010, Arnon, depois de acumular experiência em bancos de investimentos, atuando nas áreas de mídia, telecomunicações e indústria de tecnologia, no Brasil e nos Estados Unidos, onde morou por quase dez anos, entrou em contato com executivos da NBA após ver uma reportagem em que a liga queria abrir um profissional para trabalhar no país.

Depois de troca de e-mails, entrevistas, ele foi indicado por Philippe Moggio, vice-presidente da NBA na América Latina, e teve o nome aprovado, iniciando o trabalho em setembro de 2012. Em pouco menos de dois anos, Arnon, que possui mestrado em políticas públicas pela Universidade de Harvard (EUA) e um MBA em MIT (Massachusetts Institute of Technology), conseguiu trazer para o país o primeiro jogo de pré-temporada da liga entre Washington Wizards e Chicago Bulls e, neste ano, o objetivo de ter o Miami Heat, atual bicampeão, em solo brasileiro, foi alcançado. O jogo será contra o Cleveland Cavaliers, dia 11 de outubro, na HSBC Arena, no Rio de Janeiro.

Arnon não consegue, obviamente, se desvincular do nome do pai nem da política. A situação, segundo ele, ocorre apenas no Brasil. Nos Estados Unidos, ele é valorizado por transformar em realidade o plano de internacionalização e fortalecimento da marca NBA no mercado brasileiro. A verdade é que Arnon não quer viver à sombra do pai.

ESTADÃO - É difícil se desvincular da política? Quantas vezes você foi questionado sobre ser filho do ex-presidente Fernando Collor de Mello?

ARNON DE MELLO - Pela NBA e pela imprensa norte-americana, nunca. Pela imprensa brasileira, diversas vezes. Encaro essa curiosidade com naturalidade.

ESTADÃO - Por que você desistiu de seguir os passos do seu pai na política?

ARNON DE MELLO - Tenho interesse em política, acompanho bastante. Mas resolvi seguir um caminho diferente. Sou um empreendedor, gosto de desafios, e a oportunidade de trabalhar com a NBA, de trazer a liga para mais perto dos brasileiros, é algo que me motiva muito.

ESTADÃO - O Brasil vai receber o segundo jogo da NBA (pré-temporada) neste ano... O país entrou definitivamente no mapa da NBA?

ARNON DE MELLO - O Brasil é, hoje, uma das prioridades para a NBA. Ficamos muito felizes com a confirmação desse segundo jogo, um confronto deste tamanho mostra o quanto o mercado é significativo para a liga. Tínhamos um grande desafio em 2013, que era realizar o primeiro jogo no país, e foi um sucesso. A missão agora é fazer um evento ainda melhor este ano. Desde a inauguração do escritório, há pouco mais de um ano e meio, nossa missão é aproximar a liga dos fãs, promover eventos, oferecer o que temos de melhor ao nosso público e, também, ajudar a massificar o basquete. Temos realizado eventos, não apenas o Global Games, mas também o Basketball Without Borders, o America's Team Camp e, mais recentemente, o NBA3X, nossa plataforma de trincas, que nos ajudam a estreitar essa conexão com o público.

ESTADÃO - Como foi o processo de negociação para trazer o Miami Heat, o bicampeão da NBA (talvez tri) para jogar por aqui?

ARNON DE MELLO - Miami é uma das franquias mais cobiçadas do mundo na atualidade e, sem dúvidas, um dos times preferidos da nova geração de fãs da NBA. É o atual bicampeão, um fortíssimo candidato ao título desse ano, é o time de LeBron James, Dwayne Wade e Chris Bosh, jogadores que fazem parte da seleção americana. Existe uma sintonia muito grande entre a equipe e os brasileiros. Hoje, assistir a um jogo da NBA faz parte do roteiro de viagem de quem vai à Flórida. Queríamos a vinda do Miami, pedimos isso e fomos atendidos, o que mostra o quanto o mercado brasileiro é importante para a liga. Foi um pedido especial, a NBA Brasil queria ter esses dois times. Ter o Cleveland Cavaliers, do Anderson Varejão, e o Miami Heat, era o presente que queríamos dar aos fãs brasileiros.

ESTADÃO - Qual o peso para consolidação da NBA no Brasil de ter um jogador do nível do LeBron James vindo pra cá? O que planeja?

ARNON DE MELLO - LeBron é um ícone, uma referência, considerado o melhor jogador da atualidade. A vinda do Miami Heat ao Brasil mostra o tamanho do interesse da liga no país. Ter os Cavs, de alguém que é tão querido pelo público como o Anderson, que sonhava com esse momento, é mais uma prova disso. Temos duas franquias muito identificadas com o Brasil, equipes que se encaixaram de forma perfeita com os planos que temos para 2014. Vamos ter muitas ações durante os dias que antecedem o jogo, a exemplo do que aconteceu em 2013. Visitas a projetos sociais, participando do NBA Cares, visitas a pontos turísticos, vamos criar também oportunidades para que os fãs possam encontrar com os seus ídolos, chegar bem perto, e para que os jogadores sintam o carinho dos brasileiros.

ESTADÃO - A NBA anunciou esta semana os preços dos ingressos para o jogo. Em média estão 60% mais baratos...

ARNON DE MELLO - Ficamos muito felizes com a resposta dos fãs. Recebemos centenas, milhares de mensagens pelas redes sociais, todas positivas e esse era o nosso objetivo. Ver que os nossos fãs estão felizes, que todo o trabalho que estamos desenvolvendo está tendo esse resultado, nos enche de orgulho. Fizemos um esforço enorme juntos aos nossos parceiros e apoiadores. Destaco a IMX, nossa parceira no Global Games, pelo empenho e pelo trabalho que estamos fazendo juntos. Tenho certeza de que teremos a arena lotada, um ambiente maravilhoso e o melhor jogo que poderíamos ter.

ESTADÃO - Você imagina uma recepção diferente (mais calorosa!) para o Anderson Varejão? No primeiro jogo no Brasil, entre Washington Wizards e Chicago Bulls, o Nenê não foi vaiado por causa da polêmica pelo pedido de dispensa da seleção...

ARNON DE MELLO - Aquilo que aconteceu com o Nenê eu vi como um 'chamado' do povo por ele. Mostra o quanto ele é importante para a seleção brasileira. Infelizmente algumas pessoas se esquecem de que ele passou por muitas lesões, teve um problema seriíssimo de saúde e se recuperou, enfim, acho que o que aconteceu lá para trás é passado. Nenê voltou para os Estados Unidos muito feliz pela semana que teve, onde ele sentiu o carinho do público, se sentiu orgulhoso de ter sido o primeiro a vir ao Brasil com a liga, e nós ficamos felizes por termos proporcionado isso a ele, pois foi o pioneiro do basquete brasileiro na NBA. Tenho certeza de que o público vai receber o Anderson com muita alegria, que vamos ter um evento, se é que é possível, ainda mais bonito e grandioso. Vai ser inesquecível, com certeza.

ESTADÃO - A partida será novamente no HSBC Arena, no Rio de Janeiro. Não há outro ginásio padrão NBA no Brasil para receber os jogos da liga?

ARNON DE MELLO - A Arena da Barra é o único local em condições, hoje, de receber um jogo oficial da liga, é o único do país que tem estrutura para isso. Infelizmente, porque gostaríamos de ter mais opções de arenas. Espero que, em breve, tenhamos outras arenas como opções, para que possamos expandir para outras cidades.

ESTADÃO - A Arena do Palmeiras seria uma opção? É verdade que já existe um acordo fechado com o consórcio (AEG/WTorre) para eventos e, inclusive, datas reservadas para 2015?

ARNON DE MELLO - Não temos detalhes do projeto da Arena do Palmeiras. A NBA é muito rigorosa em relação ao local, instalações e estrutura para a realização de um jogo, não existe um meio-termo. Vi algumas declarações de representantes da empresa que administra a arena sobre contratos, parcerias com a NBA no Brasil. Fico feliz com o interesse deles, mas nada disso existe ainda. É importante ficar claro que não temos absolutamente nenhum acordo, muito menos datas reservadas, como também foi falado, para eventos em 2015. Apenas o escritório brasileiro responde pela NBA no país e, hoje, nosso foco é o jogo de 11 de outubro, no Rio de Janeiro.

ESTADÃO - Está muito distante o sonho de ver uma partida de temporada aqui no Brasil?

ARNON DE MELLO - Acho que poderíamos, sim, pensar em uma partida de temporada regular. Mas, sinceramente, acho que um jogo de pré-temporada é muito mais interessante, ao menos nesse momento, pensando no público, nos fãs. Em um jogo de temporada, as equipes muitas vezes chegam na manhã do dia do jogo, entram em quadra e vão embora, porque o calendário é muito apertado. Não há uma interação, não podemos aproveitar a presença desses astros no país como fazemos no Global Games. Tendo como exemplo o ano passado, as equipes chegaram quatro dias antes, visitaram pontos turísticos, encontraram com o público, deram clínica em comunidade carente, puderam conhecer a cidade, aproveitar, curtir um pouco do Brasil. Isso foi importante. Todos saíram satisfeitos, público, liga, equipes, patrocinadores, tivemos uma programação rica e completa no Rio de Janeiro e esse era o nosso papel, ser um bom anfitrião. Por isso, acho que podemos aproveitar mais, curtir mais, nesse momento, um jogo de pré-temporada.

ESTADÃO - O Uruguai tem um projeto (com ajuda da NBA) para reconstruir o Cilindro de Montevidéu e transformá-lo em uma moderna arena para o basquete. Você vê chance de entrar neste mercado, levar também um jogo para o Uruguai?

ARNON DE MELLO - É verdade, a NBA tem uma área que presta esse tipo de consultoria. Isso acontece em várias partes do mundo, aconteceu na China também. Não sei responder sobre as chances de haver um jogo no Uruguai num futuro próximo mas, sem dúvidas, a existência de uma arena projetada dentro dos moldes e das exigências da liga, é um passo importante para que a NBA preste mais atenção. A liga tem como intenção estar cada vez mais presente globalmente, junto dos seus fãs.

ESTADÃO - Qual o custo de organizar uma partida da NBA? Vale o investimento?

ARNON DE MELLO - Não é um evento barato, com certeza. Não podemos falar em números, mas é importante que se diga que a NBA não faz dinheiro com o Global Games. É uma conta alta, que é paga pelos nossos parceiros e patrocinadores, e nessa conta está o que podemos oferecer de melhor em termos de entretenimento, conforto e esporte. Tomando o jogo de 2013 como exemplo, pelo ineditismo, pela ansiedade e pela expectativa que cercou o Global Games, acho que valeu e muito o investimento. Tivemos um retorno muito positivo dos parceiros, das equipes, da liga e, principalmente, o mais importante, do público.

ESTADÃO - Ainda há alguma negociação para transmissão da NBA em TV Aberta regularmente como ocorreu na década de 90?

ARNON DE MELLO - O nosso jogo do Brasil do ano passado foi transmitido pela TV aberta. Isso foi uma grande vitória e um grande passo para voltarmos à TV aberta com jogos da temporada. Desde que começamos a operar no país com o escritório, já conseguimos fazer com que o número de partidas exibidas mais do que dobrasse: antes era três, nesta temporada chegamos a ter sete jogos ao vivo, sendo seis na TV e um pelo site da NBA Brasil.

ESTADÃO - Como é trabalhar com o produto NBA no Brasil?

ARNON DE MELLO - É muito prazeroso, ao mesmo tempo que é uma responsabilidade muito grande. A NBA é uma das maiores empresas do mundo, que tem a admiração dos fãs e sabemos o tamanho desse desafio no Brasil. Este é um trabalho que exige muita dedicação, mas é muito recompensador. A intenção é trabalhar localmente o produto NBA. Estamos muito focados em parcerias, projetos, eventos, a liga está no Brasil para fazer negócios. Estamos lidando com o sonho e a paixão dos fãs e isso nos motiva a fazer sempre o melhor por eles..

ESTADÃO - Com o seu trabalho hoje, é possível contribuir com o basquete brasileiro de alguma maneira?

ARNON DE MELLO - Essa é uma das missões que a NBA tem no Brasil. O produto basquete valorizou muito nos últimos anos e a NBA está no país para ajudar, unir forças para que a modalidade evolua cada vez mais. Temos um bom relacionamento com LNB e CBB e nos colocamos como parceira para massificar, ajudar a desenvolver o basquete.

ESTADÃO - Como você vê esta polêmica toda envolvendo CBB, Fiba Américas e Ministério do Esporte? Vê necessidade de uma gestão mais profissional para o basquete brasileiro?

ARNON DE MELLO - A NBA não se envolve nessa questão. Acompanhamos de perto, claro, porque tudo o que acontece em relação a basquete no país nos interessa. E estamos sempre à disposição daqueles que gerenciam o esporte, LNB e CBB, que comandam o basquete no Brasil. Temos uma relação muito boa com as duas entidades e estamos aqui para ajudar, a unir forças em prol da modalidade.

ESTADÃO - Você acredita que o Brasil pode recuperar o seu espaço no cenário do basquete mundial?

ARNON DE MELLO - A evolução recente da Seleção Brasileira e a consolidação do NBB me fazem acreditar nisso. Temos uma Seleção Brasileira forte, que vem de boas campanhas no Mundial e nas Olimpíadas, voltando aos Jogos após 16 anos. Temos ídolos, jogadores brilhando na liga local, na Europa e na NBA, a mídia vem dando cada vez mais destaque ao esporte, é uma modalidade apaixonante, tudo isso me faz ter a certeza de que o basquete ainda vai crescer muito e voltar a ser um dos preferidos do público. Isso vem acontecendo, há muitos anos não se falava tanto de basquete como agora.

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