Fabio Motta/Estadão
Fabio Motta/Estadão

'Volto com a vontade do menino que saiu de Franca', diz Anderson Varejão

Aos 35 anos e com uma carreira consolidada, pivô está motivado para defender o Flamengo no retorno ao Brasil

Entrevista com

Anderson Varejão, pivô do Flamengo

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

22 Janeiro 2018 | 07h00

Dezesseis anos separam o garoto sonhador que partiu para conquistar o mundo do homem de carreira consolidada que agora volta ao Brasil. O sorriso fácil não se modificou, apesar dos inúmeros obstáculos que surgiram ao longo do caminho. Anderson Varejão, aos 35 anos, aceitou o desafio de defender o Flamengo e está bastante motivado para acrescentar ao currículo, que já tem um anel de campeão da NBA, mais uma conquista. Na Gávea, sede da sua nova casa, o pivô concedeu entrevista exclusiva ao Estado.

+ Em apresentação, Varejão diz estar realizando um sonho ao jogar no Flamengo

Helinho, que te chama de irmão, queria você em Franca, onde você tem uma identificação enorme. O que te fez escolher o Flamengo?

Tenho o Helinho como um irmão também, somos muito amigos, o Helião também é alguém por quem tenho um carinho grande. Tenho muitos amigos em Franca e minha história com a cidade e o time nunca vão ser apagadas. Acho que a minha decisão teve a ver com o projeto que o Flamengo me apresentou. As conversas começaram em setembro, mas só começaram a evoluir, a avançar, semana passada, quando começamos a falar sobre detalhes. Estou feliz por voltar ao Brasil, poder jogar com amigos, numa equipe muito forte, acostumada a disputar títulos, para essa torcida. Sou rubro-negro e isso também ajudou. Participar dessa última temporada do Marcelinho Machado também.

Com você, o já líder Flamengo tem obrigação de ser campeão?

Não. Ganhar e perder faz parte do esporte. O Flamengo hoje é líder, mas não começou bem o campeonato, e basquete pode ser uma gangorra. No Flamengo, você precisa matar um leão por dia, deixar sua vida em quadra, e gosto disso, quero isso, vou dar o meu melhor todos os dias para ajudar. Aqui sou mais um e vamos lutar pelo título com todas as forças. O Flamengo é um dos favoritos, há várias equipes muito fortes e em condições de brigar pelo título.

Você jogou em equipes na NBA com astros reunidos, o que é fundamental para um elenco assim dar resultado?

Comprometimento, amizade, dedicação, espírito de equipe, foco. Todos somos importantes, cada um à sua maneira, do seu jeito, mas todos com o mesmo objetivo.

Como imagina que será o duelo particular com o Leandrinho... dois campeões da NBA atuando no NBB?

Acho que vai ser bacana. Nos enfrentamos algumas vezes na NBA, mas aqui acho que vai ser diferente, no Brasil, depois de tantos anos nos Estados Unidos. Também estou curioso para saber como vai ser, mas vai ser um belo jogo, com certeza, cada um buscando o melhor para a sua equipe.

As portas na NBA se fecharam?

Tive conversas com algumas equipes, propostas de contratos não garantidos, e não queria isso para mim agora. Acho que isso mostra que as portas seguem abertas, mas no momento o meu foco está aqui, no Flamengo, em jogar o NBB. Não abro mão disso, estou fechado com o clube, vou disputar o NBB e quero ajudar o Flamengo a lutar pelo título.

O que mais te motivou no retorno?

Acho que, além de ser um desafio novo, que me motiva, o momento do basquete nacional, com o NBB crescendo, evoluindo a cada ano. E poder jogar para a torcida do Flamengo é algo especial também. Acho que tem de tudo um pouco.

Hoje, depois de um bom tempo, você já entendeu sua dispensa do Cleveland?

Faz parte do jogo, do esporte. Todos me respeitam e eu respeito a todos em Cleveland, foi a equipe que me abriu as portas e onde fiquei quase 12 anos. Foi uma vida na franquia, fui para o Golden State onde tive uma receptividade maravilhosa, um grupo muito amigo, e fomos campeões. Tenho carinho por Cavs e Warriors.

Você comprovou nos jogos pela seleção o quanto continua dominante, aquelas atuações te motivaram ainda mais depois de um período talvez um pouco esquecido, sem jogar?

Foi muito bom poder jogar de novo, ainda mais pela seleção brasileira e num lugar como a arena olímpica com arquibancadas lotadas. Foi maravilhoso sentir essa energia. Estou motivado, me sentindo bem, e com a motivação lá em cima para esse ciclo para a Copa do Mundo da China.

O que achou do primeiro contato com o técnico Aleksandar Petrovic?

É uma pessoa muito legal, conversamos bastante e tem me passado muita confiança. Torço para que ele possa fazer um grande trabalho aqui no Brasil, é um treinador estudioso, de uma escola de qualidade, e começou muito bem.

Todo estrangeiro que assume o Brasil fala em melhor a defesa e limitar os arremessos de três pontos. Como vê isso?

Temos de estar buscando sempre a evolução, a melhora do nosso jogo, e cada vez mais o basquete te obriga a diminuir erros, mostra que os detalhes determinam uma vitória. Um detalhe pode custar uma medalha, um pódio, um título, e precisamos estar concentrados, atentos, jogar o jogo como o jogo exige.

O Petrovic é o terceiro estrangeiro consecutivo na seleção masculina. Por que acredita que os treinadores brasileiros não ocupam esse espaço?

Essa é uma decisão da confederação. Decisões são tomadas com base em vários fatores. Temos excelentes treinadores, profissionais de alto gabarito no País, assim como estrangeiros com bastante bagagem e experiência.

A ausência nos Jogos Olímpicos do Rio, em 2016, ainda te chateia?

Fiquei muito triste. Era um sonho que eu tinha, mas aconteceu da lesão e... Enfim. Triste, claro, chateado demais porque não vou ter a oportunidade de disputar uma Olimpíada no meu país novamente, mas aconteceu.

A carga excessiva de treinos na preparação contribuiu de alguma forma na lesão que o tirou da Olimpíada?

Tive a lesão, a hérnia na lombar que me tirou dos Jogos, fiquei muito triste na época, mas o tempo não vai voltar. Então prefiro deixar isso no passado.

Magnano teve culpa?

Como falei, nada vai mudar o que aconteceu. É uma ferida que fica aberta, pelo sonho que tinha de jogar os Jogos no meu país, diante da minha família, meus amigos, dos brasileiros, mas não aconteceu.

Muitas pessoas do basquete criticaram o trabalho do Magnano, principalmente em relação ao legado para o Brasil. Como viu o trabalho dele?

Quero pensar no que temos pela frente, no que vem no futuro. Hoje temos um novo técnico, alguém experiente, que começou bem o trabalho e que pode nos ajudar muito nessa caminhada rumo ao Mundial e à Olimpíada de Tóquio 2020. Temos de apoiá-lo, trabalhar forte para buscarmos os objetivos.

Confia na recuperação do basquete brasileiro depois da crise na CBB?

Todos ficamos muito chateados por tudo o que aconteceu, não só jogadores, mas todos que vivem no basquete, todos que torcem pelo esporte. O momento atual é de reconstrução, de arrumar a casa, e isso vai depender de muito trabalho e de um trabalho bem feito, a longo prazo. Temos de apoiar e confiar na nova gestão, que está querendo oxigenar o esporte, implantar um modelo mais profissional.

Como imagina que será voltar a morar no Brasil depois de tantos anos?

Acho que vai ser muito bacana, poder rever amigos, estar mais perto da minha família. É uma experiência diferente, saí do país há 16 anos e era um garoto, ainda com um sonho, inexperiente. Hoje volto um homem, bem maduro, mais preparado, com uma carreira construída na Europa e na NBA, mas com a mesma vontade daquele menino que saiu de Franca. Estou feliz, animado e louco para jogar.

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