Arquivo Pessoal/ Adriano Mião
Arquivo Pessoal/ Adriano Mião

Yago cria 'Projeto Monstrinho' em Tupã e usa o basquete para dar oportunidades à garotada

Armador do Flamengo e da seleção, de 22 anos, reforma espaço na Casa do Garoto, onde passou sua infância, e atende quase 100 crianças

Marcius Azevedo, O Estado de S.Paulo

22 de dezembro de 2021 | 15h00

Yago terá um Natal diferente neste ano. Será o primeiro com o sonho em andamento de retribuir o que o basquete já lhe proporcionou. Aos 22 anos, o armador do Flamengo e da seleção brasileira vai visitar pela primeira vez os jovens do 'Projeto Monstrinho', que ele criou em Tupã, sua cidade natal no interior de São Paulo, e tem pouco mais de uma semana de vida.

O jogador aproveitou um espaço que estava abandonado na Casa do Garoto de Tupã para conduzir uma reforma na quadra. Pintura e tabelas novas, além de conseguir bolas e uniformes, para retomar o basquete como atividade para os meninos e meninas que frequentam o local. Ele teve o primeiro contato com o basquete neste local. Ao lado do irmão Adriano, Yago passou parte da infância na creche de lá para que os pais Wilton Adriano e Aparecida Márcia pudessem trabalhar.

"Conseguir fazer esse projeto e, ainda mais junto da minha família, que são quem realmente me deram os primeiros exemplos, o meu irmão, os meus primos, é algo muito especial", afirmou o armador ao Estadão. "Voltar lá depois de muito tempo, ver que abandonaram aquilo e agora temos essa chance de reconstruir. É muito especial voltar com as aulas. Espero que esse projeto dê uma chance para esses garotos e garotas sonharem com algo a mais. Às vezes, você se diminuí por ser do interior, por ver que ninguém está olhando, mas não importa o lugar, você pode sonhar. Basta apenas querer", acrescentou.

O 'Projeto Monstrinho' já atende 94 crianças, sendo que 15 delas moram na própria Casa do Garoto de Tupã. Eles têm psicólogo e assistente social à disposição, além das aulas de basquete, ministrada por instrutores. Conhecido como Mião, o irmão de Yago é o coordenador, sempre conversando com o armador, que continua sua rotina de treinos e jogos.

"Não quero que todos se tornam um Yago. Quero que eles tenham chance de vivenciar coisas que eu pude vivenciar, que o basquete me proporcionou. Eu não sei o que eu seria sem o basquete. E hoje, quando vejo o meu sobrinho, os meus priminhos e os amigos deles fazendo uma coisa que eu amo e eles também podem amar, é especial", afirmou.

Yago entrou em quadra na terça-feira pelo Flamengo, diante do Fortaleza Basquete Cearense, no último compromisso pelo Novo Basquete Brasil (NBB) antes do Natal, e depois viajou para Tupã. Lá ele terá o primeiro contato com os jovens após o início das aulas. E claro vai levar muita coisa na bagagem.

"Vou matar um pouco da saudade de onde comecei. Vou entregar presentes, agradecer, é uma responsabilidade enorme. Não é fácil lidar com crianças, estou muito ansioso, fazia tempo que não ficava tão ansioso", afirmou. "Quero ver aquela garotada feliz. Com muito pouco podemos fazer muita gente feliz. O projeto está apenas começando. Espero que cresça bastante e que possa receber muito mais crianças", completou. 

O armador prefere não julgar outros atletas que preferem não tomar o mesmo caminho. Mesmo com toda uma carreira pela frente, Yago não quis esperar para colocar o sonho em prática. "Nunca parei para pensar na questão da idade. Tudo aconteceu muito cedo para mim. Tive de sair muito jovem de casa. Ninguém sabe o que o outro passou. É complicado comentar. Todo atleta deveria inspirar outras pessoas. Dar essa oportunidade de sonhar", disse.

EM QUADRA

Se fora de quadro Yago vive um momento especial, dentro dela não é diferente. Ele viveu um ano sensacional com o Flamengo, conquistando diversos títulos, entre eles NBB e Champions League Américas, garantido vaga no Mundial de Clubes. Além disso, na atual temporada, é um dos destaques da equipe de Gustavo de Conti. Não à toa, o treinador convocou o armador para defender o Brasil na sua primeira convocação como comandante da seleção brasileira.

"Vim para um clube que era vencedor, que tem uma responsabilidade enorme de conquistar títulos e foi incrível como tudo aconteceu. Não apenas por ganhar tudo, mas por todos os momentos que eu vivi, que aprendi", afirmou Yago, que foi eleito o MVP das Finais do NBB contra o São Paulo.

A relação com Gustavinho foi importante no processo de adaptação. Os dois trabalharam juntos também no Paulistano. "Eu escuto isso (cobrança) todos os dias do Gustavo. Fico animado com isso. Ouvir que preciso evoluir na marcação, na leitura de jogo, no arremesso de três, na parte física... Estar em um clube em que eles me cobram todo dia, independentemente se fiz 20 pontos ou zero na noite anterior, vou ser cobrado da mesma forma."

O armador confia no sucesso de Gustavinho na seleção. Para ele, o Brasil terá uma marca registrada do treinador. "Nos times em que o Gustavinho trabalha nunca temos o cestinha do campeonato, aquele cara que vai marcar 20 pontos todo jogo. Esse é o jeito que ele trabalha para não ter dependência de apenas um jogador", explicou. "Ele pede para jogar um basquete mais fácil. Ele sempre fala: não troca uma chance boa por uma ótima. Fez isso no Paulistano, no Flamengo e vai fazer na seleção."

Yago tem como objetivo levar o Brasil para os Jogos de Paris-2024. A ausência em Tóquio marcou muito o jogador. Ele ainda não conseguiu digerir o fato de ficar tão perto de conseguir disputar uma Olimpíada pela primeira vez. A seleção perdeu da Alemanha na disputa da vaga pelo Pré-Olímpico da Croácia. "Estava falando com o meu irmão sobre isso esses dias. Me dói bastante. O tempo vai passando e você vê o tamanho daquilo. Eu acordo todos os dias pensando nisso. Fazer o que for preciso para ganhar. É o meu sonho e o da minha família eu ser atleta olímpico", encerrou.

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