Cambistas 'resolvem' problema da falta de ingressos para GP

Entrada para os 3 dias - treinos de sexta e sábado e corrida - no setor A, sai por R$ 800 no mercado negro

Martín Fernandez, Estadão

17 de outubro de 2007 | 19h38

Nas bilheterias do autódromo de Interlagos, os ingressos para a corrida de domingo estão esgotados há semanas. A menos de cinco metros de distância, no entanto, é possível comprá-los de cambistas. Com algum aumento de preço, claro. A entrada para os três dias (treinos de sexta e sábado e mais a corrida) no setor A, por exemplo, custava R$ 460. No mercado negro, sai por R$ 800. "Bom, esse é o preço que a gente começa pedindo, mas dá para fechar por R$ 700", entrega Willian da Conceição, de 38 anos, um dos cambistas que povoam a avenida senador Teotônio Vilela, onde fica a entrada principal do autódromo. No setor G, o mais barato, a inflação é menor: de R$ 345 no "oficial", para R$ 550 no "paralelo". São dezenas de cambistas. Cada um com um discurso diferente. "Quem atrapalha é a mídia", diz um deles, que omite o nome. "Vocês escrevem aí que os ingressos estão esgotados, mas ó eles aqui", completa, batendo no bolso. Outro, mais veterano, se aproxima e comenta: "A gente consegue vender mais barato do que a bilheteria. Então eu pergunto: quem é que comete crime contra a economia popular? Eu ou eles?", discursa. "Eu compro de quem desiste de vir, assim consigo um preço melhor, entende?". Mas assim que ele vai embora, outros dois o desmentem. "Aqui ninguém vende ingresso mais barato, não. Isso não existe." Divergências à parte, eles se unem nas reclamações. "Tem jogo da seleção hoje (ontem), e isso desvia a atenção daqui", chia um. "Com o dólar do jeito que está (R$ 1,82), gringo não apareceu. Bom era quando o dólar valia três reais", avalia o outro. "A polícia e a imprensa só nos atrapalham." A choradeira só é interrompida quando Dario da Silva, de 62 anos, lembra: "No tempo do Barrichello (quando o brasileiro estava na Ferrari) era pior ainda. A gente tinha que vender por R$ 10 os ingressos que tinha comprado por R$ 50." Cambismo não é crime, todos repetem a todo tempo. Mesmo assim, tomam lá seus cuidados com a polícia. Viaturas da Polícia Militar passam lentamente pela avenida, mas nenhuma pára. "O que eles fazem é levar para o distrito, mas depois liberam rápido", conta Willian da Conceição. "O problema maior é com quem vende ingresso falso, mas isso não acontece por aqui não." O policiamento aperta mesmo no sábado e no domingo, dia em que o movimento é intenso, eles relatam. E se a polícia atrapalha o negócio, como eles dizem, o mesmo não se pode dizer da organização. Os cambistas atuam na frente da bilheteria, abordando abertamente quem chega para comprar os ingressos oficiais. Cada carro que estaciona é cercado por até cinco vendedores. "A gente tem um pacto com o pessoal da corrida", conta um cambista. "Eles não dificultam nosso trabalho, a gente não dificulta o deles." O funcionário da organização do GP diz que não pode dar entrevistas nem se identifica. Mas confirma o acordo com os cambistas. "Não temos muito o que fazer", admite. "Por outro lado, não damos garantia dos ingressos que eles vendem." Ah, bom. O cambismo na Fórmula 1 não é privilégio do Brasil. Em todos os GPs existe o mesmo problema. Há pessoas que viajam para todas as corridas com o mesmo propósito: comprar entradas para vendê-las no mercado negro. Como o número de ingressos vendidos por pessoa é limitado, os cambistas encontraram uma solução: negociar com agências de viagem. "Hoje está tudo nas mãos deles. A gente só pode comprar três de cada vez, mas eles podem levar até 100, assim fica mais fácil."

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