Paulo Liebert/Estadão
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16 de julho

Além do racismo, derrota na Copa de 1950 também gerou disputas bairristas entre Rio e São Paulo

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

18 de julho de 2020 | 21h00

Há uma data no Brasil que me acompanha desde a infância: é a data da derrota do Brasil para o Uruguai em 1950. Ficou dela a condenação de jogadores como Barbosa, goleiro, Juvenal e Bigode, zagueiros. Os três negros, informação que fala por si. Fui tomar consciência dessa perseguição sobre os três já adulto.

Antes, isso não era tão claro e evidente. A própria tragédia tomou proporções maiores na medida em que o tempo passava. Ao contrário de outras desgraças que o tempo costuma suavizar, o 16 de julho cresceu com os anos. A partir de uma certa idade isso começou a me intrigar e passei a investigar. Constatei, por exemplo, que uma desgraça dessa magnitude teria ocasionado o fim da carreira dos acusados. O que se escrevia muitos anos depois do fracasso afirmava isso.

No entanto, a carreira de todos prosseguiu por longo tempo depois do trauma. Barbosa, por exemplo, eu mesmo o vi jogar pelo gol do Vasco da Gama no Pacaembu, na partida final do Rio-São Paulo de 1958 num jogo contra a Portuguesa. O Vasco já era campeão do torneio com um grande time, de um ataque raro, e jogava apenas para cumprir tabela. Mas eu queria ver Barbosa. E ele lá estava no gol, mas, para minha decepção, a Portuguesa também só cumpria tabela e não ameaçou o gol do Vasco em nenhum momento. Barbosa não me pareceu absolutamente em desgraça, pelo menos naquele dia, 8 anos depois da sua crucificação.

Quanto ao país, desolado e ferido profundamente, também não mostrava isso logo depois. O Campeonato Carioca de 1950 começou em 30/7, isto é, praticamente 15 dias depois da tragédia! O Vasco da Gama entrava em campo com 8 jogadores sobreviventes do dia do vexame, pelo menos cinco, titulares absolutos da equipe.

A decisão do campeonato em janeiro de 1951, a escassos seis meses do Maracanazo, foi entre Vasco e América, vitória do Vasco, diante de 121.750, há pouco tempo, inconsoláveis torcedores. Aliás, o Vasco se tornou o primeiro campeão carioca da história do Maracanã. Esses dados começaram me fazer olhar o que se passou mais detalhadamente.

Por exemplo, a maldição do goleiro negro. Não só Barbosa voltou a ser convocado para a seleção brasileira como tivemos no gol do Fluminense e da seleção brasileira de 1954 o negro Veludo. Cheguei à conclusão que houve racismo de fato, mas não de forma especial. Houve o racismo normatizado sempre presente no Brasil. Tanto é verdade que na Copa de 1954 havia vários negros na equipe titular.

O que motivou o exagero, após desgraça de 1950, a meu ver, foi outra coisa: a indignação contra o Rio de Janeiro e contra o treinador Flavio Costa, principalmente por parte de São Paulo. Nunca lhe foi perdoado escalar tantos jogadores cariocas no time titular, esquecendo-se de jogadores como Noronha, Oberdan, Claudio Cristóvão Pinho, Pinga, Rodrigues e muitos outros jogadores de São Paulo.

A coisa ainda não era só com os negros. Na Copa de 54 havia Djalma Santos, Brandãozinho, Baltazar, Didi, só no time titular, bem mais do que em 1950. Mas 1954 também foi um fiasco. E quem chefiava a delegação? O dirigente carioca João Lyra Filho. Apesar de já contar com muito mais paulistas o fracasso foi de novo atribuído aos cariocas.

E aí, em 1958, a CBD na época, se rendeu a São Paulo. Nessa sim, o racismo aparece mais visível, pelo menos no início. Depois de impor uma gerência empresarial para a seleção, retirando dela os vestígios cariocas de funcionalismo público, aproveitou-se Paulo Machado de Carvalho, ele mesmo homem dos anos 30 e com influência das teorias do tempo sobre raça, para embranquecer a seleção. Ela entrou nos dois primeiros jogos com um único negro, Didi.

Até o grande Djalma Santos era reserva. Só no terceiro jogo, por iniciativa dos líderes em campo, entraram Pelé e Garrincha. Justamente no ano em que vi o negro Barbosa ainda no gol do Vasco.

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