Arte/Estadão
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Dorival Junior: '40% dos atletas da Série A do Campeonato Brasileiro deveriam atuar na Série B'

Para a série FUTEBOL EM DEBATE, o técnico diz que exportação em massa de atletas piora nível do futebol brasileiro

Entrevista com

Dorival Junior - técnico de futebol

Gonçalo Junior, O Estado de S.Paulo

17 de abril de 2019 | 09h00

A diminuição dos campos de várzea, a saída dos jogadores para a Europa e a pressão por resultados – nas categorias de base e no trabalho dos treinadores profissionais – ajudam a explicar a crise do futebol brasileiro. Essa é a visão do técnico Dorival Junior, quarto entrevistado na série especial Futebol em Debate, promovida pelo Estado. Neste capítulo, o treinador de 56 anos, hoje sem clube, aponta um fato da história das Copas que mudou a qualidade do futebol. “A queda da seleção brasileira em 1982 foi um desastre para o futebol mundial”. 

A entrevista pode ser ouvida em podcast. Basta acessar os canais de distribuição, como a Deezer e Spotify, e baixar o aplicativo no seu computador ou celular. O conteúdo é publicado no canal Estadão Esporte Clube. O Estado se propõe a discutir a qualidade do futebol brasileiro ouvindo personalidades do País, como jogadores, ex-jogadores e técnicos. No capítulo 1 desta série, o entrevistado foi Paulo Roberto Falcão. O capítulo 2 trouxe a análise de Rivellino. No terceiro, do técnico Emerson Leão

Por que o futebol brasileiro está em crise?

São vários fatores que vem acontecendo há 10, 15 anos para cá e dificultam sobremaneira a construção das nossas equipes. Vou citar alguns dados. Não quero questionar ninguém nas minhas colocações. Estou apenas observando o que está acontecendo no futebol. O primeiro aspecto é a formação. Estamos tendo uma dificuldade grande em um momento de transição. O jogador brasileiro foi criado livre. Isso era desenvolvido nos campinhos de rua, nas ruas, em cima de paralelepípedo. Hoje, o garoto passa o dia com o computador nas mãos. E a mãe passa o dia brigando para ele sair de casa. Ao contrário do que acontecia anos atrás. Você entrava em casa às 10h da noite sujo de terra e de barro, pois estava jogando futebol. Isso acontecia no país todo.

Como essa liberdade influencia dentro de campo?

Totalmente. Essa liberdade que o jogador teve fez com que ele fosse diferente no mundo. As bolas tinham variados tamanhos. Você fazia bola de laranja, côco, meia. Aquilo dava uma destreza e uma sensibilidade para correr e para sair de situações de forma instintiva. Aquilo preparava para o mundo. Estou falando de maneira geral sobre o improviso, o inusitado, aquele sair de uma situação de aperto... O jogador encontrava isso no dia a dia. Ele ia para um clube profissional e continuava fazendo aquilo. Ele só tinha noção tática perto dos 20 anos. Você levava a alegria para dentro de campo. O tempo passou. Os europeus foram estudando o futebol brasileiro e se adaptaram. Nós fomos para lá e trouxemos parte tática, preparação física, trabalho. Nós exportamos o que era bom e o que era usado lá fora nós trouxemos e formamos nossos métodos de trabalho.

Houve uma inversão de papéis?

Deixamos de ser os jogadores que tinham aquela desenvoltura toda e passamos a ser jogadores com posicionamento e fortalecimento. Eram valorizados aqueles que tinham resistência e força. Os jogos se tornavam mais velozes e mais disputados. Estou falando de 30, 40 anos atrás.

Nós também passamos a vender mais jogadores...

Paralelamente, nós perdemos uma média de 1500 jogadores por ano no futebol brasileiro. São atletas de ponta e de todas as séries. Com isso, 40% dos jogadores dos clubes que atuam na Série A – me desculpem se ofendo alguém – deveriam jogar na Série B. E assim sucessivamente. Assim, 40% dos atletas da Série D talvez nem poderiam ser profissionais.

Do ponto de vista técnico?

Sim, tecnicamente falando. Uma perda de 1500 atletas por ano faz com que a reposição seja feita com garotos que não estão preparados para o futebol profissional. Mais um detalhe: o imediatismo por resultados nos clubes desde as categorias de base. O resultado da base deveria a formação do cidadão e do atleta. A cobrança já é absurda na base. Um garoto de sete ou oito anos é cobrado pelo pai para que seja campeão. O pai está prestando um desserviço para a formação desse garoto. E isso ninguém percebe. Isso vai se avolumando ano a ano. São todos esses fatores que pesam negativamente na formação dos atletas.

É um circulo vicioso?

Durante muitos anos, nós passamos “batidos” por essa situação. Os atletas foram formados rapidamente para gerarem lucros para os clubes, empresários e pais, uma cadeia que sempre viveu da formação desses garotos. Não se percebia o mal que estávamos fazendo para esse garoto e para o futebol brasileiro. Nós abrimos mão da qualidade e priorizamos a velocidade da formação, comprometendo gerações que poderiam ter trazido mais resultados.

Nós vivemos um momento semelhante de reflexão e discussão após a derrota da seleção brasileira para a Alemanha na Copa do Mundo de 2014 por 7 a 1. Mudou alguma coisa?

Não. Não mudou nada depois do 7 a 1 na Copa do Mundo. Continuamos com os mesmos problemas, as mesmas dificuldades. As pessoas não falam em prevenção e só cobram em resultados. Vemos coisas terríveis acontecendo no Rio de Janeiro. Isso acontece em todas as áreas profissionais, inclusive para o futebol, que deveria ser um entretenimento. Mas o nível de cobrança sobre o futebol é maior talvez do que as cobranças que fazemos para os homens que dirigem a saúde, educação e segurança do nosso País. Se tivéssemos o mesmo nível de cobrança do futebol em outras áreas, nós seríamos outro País.

Qual é a responsabilidade do treinador nesse processo?

Ela deveria ser maior do que é. Desde que fosse dado tempo para ele preparar, desenvolver, corrigir seu trabalho. Depois, ele seria avaliado se conseguiu atingir os resultados planejados. Não tem como fazer isso. Você é avaliado pelo resultado da quarta-feira e do domingo. Não dá para preparar nada. O treinador não faz um trabalho; ele gera resultados. Ele é um gerador de resultados. Se você não for um gerador de resultados, você não serve, você não presta e não é aquilo que o clube estava esperando. Dois disputarão a final. Um será o vencedor. O segundo colocado será o primeiro dos derrotados. Não há reconhecimento. A cobrança é feita em cima do que não foi realizado. Independentemente da qualidade do time, dos investimentos realizados, de ter perdido ou não jogadores. As pessoas só avaliam o resultado alcançado. Da forma como vemos o futebol, a partir do segundo colocado para baixo, todos estão correndo risco. Se não for o primeiro, já começa a ser questionado.

Qual a saída?

Precisamos da participação de todos, inclusive a imprensa, que não pode fazer a cobrança apenas em cima de resultados. Temos de começar a entender o futebol, ler melhor o futebol e analisar uma partida de outra maneira. Todas as áreas – treinadores, atletas, diretores, imprensa torcida – devem ver o futebol de outra forma. Precisamos de uma mudança geral.

Essas dificuldades internas influenciam no desempenho da seleção brasileira?

Não, não vejo isso. A Copa do Mundo é um torneio. Você chega com uma equipe altamente qualificada como a seleção alemã chegou e acaba eliminada na primeira fase. É um torneio de sete jogos no qual uma tarde infeliz te afasta de uma competição. Como no caso da seleção brasileira de 1982, uma das maiores equipes que eu vi na minha vida. As pessoas falam que não foi campeã, não tem valor. Eu vejo de outro lado. O futebol foi penalizado. Foi uma fatalidade para o futebol mundial. A partir daquele momento, o futebol mundial começou a ser visto de outra forma e começou a buscar outras formas de jogar.

Futebol mundial?

Exatamente. Aquilo que aconteceu ali penalizou o futebol mundial. Foi uma das maiores equipes que nós vimos. A campanha foi impressionante nos quatro anos antes. A seleção jogou diante de uma seleção que atravessou a primeira fase com três empates. Deus sabe lá como se classificou a seleção italiana! Ela acabou vencendo naquela tarde desastrosa para o futebol mundial. Foi um pecado que o futebol viveu. O Brasil não teve a oportunidade de ver Zico e Ademir da Guia ganharem um Campeonato Mundial. Foi uma pena o futebol não ter visto aquela seleção ter sido campeã. O futebol jogado no mundo seria outro.

Qual é a prioridade para revertermos esse quadro?

Temos de repensar e reavaliar e buscar alternativas. Tem muita gente que apaga as luzes. Eu gostaria de ver mais pessoas acendendo as luzes. Muitas pessoas criticam em todas as áreas, não só a imprensa, todas as áreas que estão envolvidas com o futebol. Essas pessoas apagam as luzes. Gostaria de ter mais pessoas acendessem luzes e que buscassem propostas, que vivenciassem o futebol de uma maneira diferente. Tem muita gente preocupada em encontrar um novo caminho, uma nova opção. Precisamos de mais gente pensando o futebol. O voleibol brasileiro foi lá fora para buscar algumas coisas e conseguiu adaptar sua forma de jogar, criando uma identidade própria. Nos últimos 20, 25 anos, ele está sempre brigando pelos primeiros lugares. Foi uma mudança de postura no vôlei. No Brasil, aconteceu o inverso. Éramos o primeiro, mas não nos preocupamos em manter essa posição, nunca buscamos entender o que os europeus faziam para encontrar um novo caminho. Eles encontraram e passaram o futebol sul-americano. Hoje, nós estamos muito aquém do futebol europeu. Hoje, ele é o objetivo de todo profissional hoje e vem evoluindo ano a ano. O brasileiro se adapta e se refaz rapidamente. Mesmo que em pequenas doses, algumas coisas estão mudando. Elas poderão trazer resultados.

O que está mudando?

As pessoas estão se preocupando em conhecer o futebol mais a fundo, trabalhar e estudar um pouco mais. A gente não pode perder a essência do nosso jogo. Eu gostaria de ver as mudanças dentro da nossa capacidade de absorção, de poder buscar uma reinvenção com velocidade acima de tudo e dentro das qualidades que nós possuímos, que são maiores do que muitos imaginam.

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