Arquivo/ Estadão
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50 anos do milésimo gol de Pelé: Uma ponte entre realidade e fantasia

Rei do Futebol marcou o gol de número 1.000 no dia 19 de novembro de 1969, no duelo entre Vasco e Santos, no Maracanã

Raphael Ramos e Robson Morelli, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2019 | 04h30

“Pode sair hoje o mais esperado gol de Pelé.” Esse foi o título da reportagem do Estado no dia 19 de novembro de 1969 sobre a partida entre Vasco e Santos, que seria realizada no Maracanã naquela noite. Explica-se o motivo pelo qual o milésimo gol de Pelé era tão aguardado pelos torcedores: ele quase foi marcado no Recife, em João Pessoa saiu o 999.º e em Salvador um chute no penúltimo minuto de jogo bateu na trave.

Desde as primeiras horas da manhã, centenas de torcedores começaram a se aglomerar na porta no hotel Novo Mundo, na praia do Flamengo, onde Pelé estava hospedado com a delegação do Santos. O Rei concedeu entrevistas para jornalistas estrangeiros que vieram ao Brasil para acompanhar o seu milésimo gol. “É um acontecimento que interessa a todos”, justificavam. Até o cônsul da Nigéria foi ao hotel para ver Pelé de perto. A expectativa era tanta que emissoras de TV fizeram a transmissão da partida mesmo diante de uma proibição imposta pela CBD (Confederação Brasileira de Desportos), atual CBF.

Choveu muito naquele 19 de novembro no Rio, mas a tempestade não impediu que 65.157 pessoas fossem ao Maracanã. O jogo foi uma festa do começo ao fim. Antes do apito inicial, um dos vestiários do Maracanã recebeu uma placa e o nome de Pelé, em homenagem ao golaço marcado pelo Rei contra o Fluminense em 1961 – o lance, inclusive, deu origem à expressão “gol de placa”. Uma das cabines de transmissão também passou a ter o nome de Pelé.

O milésimo gol saiu somente no fim do segundo tempo, mais precisamente às 23h17. Pelé correu para receber passe em profundidade de Clodoaldo e foi derrubado dentro da área. Pênalti. Depois de muita reclamação dos jogadores do Vasco, principalmente do goleiro Andrada, o atacante, enfim, pôde partir para a cobrança. “A bola branca atravessou a linha de gol aos 34 minutos, 12 segundos e 9 décimos, para estabelecer uma ponte entre a realidade e a fantasia: o milésimo gol de Pelé”, publicou o Estado no dia 20 de novembro de 1969. 

Todos aplaudiram Pelé. O Rei foi cercado por fotógrafos, cinegrafistas e repórteres. Nos ombros de Agnaldo e Carlos Alberto, ele deu a primeira volta olímpica no Maracanã. Quando o locutor anunciou a sua substituição por Jair Bala, ouviu-se vaias. Na sequência, no entanto, Pelé surgiu vestindo uma camisa do Vasco, branca com uma faixa preta na diagonal. As vaias, então, foram abafadas por aplausos. O Rei deu nova volta olímpica. Quando terminou, ainda restavam dez minutos de jogo, mas o público, satisfeito, já começava a deixar o estádio.

Rei agradece o respeito e o amor dos companheiros

Pelé garante ter sido pego de surpresa na última terça-feira ao ver entrar em sua sala no museu Dorval, Mengálvio e Pepe e outros mais que atuaram com ele no Santos, como Clodoaldo. Todos queriam abraçá-lo por causa da proximidade do aniversário do milésimo gol, feito em 19 de novembro de 1969, contra o Vasco, no Maracanã. Ele admitiu ao Estado ter chorado de emoção. “Vê-los me fez chorar escondido. Todos jogaram comigo no Santos. Foi uma surpresa maravilhosa. O mais importante na vida é ter alguém dizendo que te ama, que te respeita, que agradece sua companhia. Isso é o maior prêmio.”

Sobre o gol que foi noticiado no mundo inteiro, Pelé diz que parece que foi ontem. “Recentemente, estava conversando com o Zoca, meu irmão, e minha mãe. Perdi um tio há pouco, e disse a eles que parecia que foi ontem tudo aquilo, mas já faz 50 anos. Bater pênalti quando está 3 a 0 é fácil. O Maracanã lotado estava gritando meu nome. Fiquei nervoso. Quando ajeitei a bola, os jogadores do Santos foram todos para o meio de campo. Pedi ajuda a Deus, a Nossa Senhora...”, conta o Rei, com detalhes de uma história única de meio século.

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