Alex Silva|Estadão
Galitote defende que os direitos de transmissão sejam de responsabilidade apenas do mandante Alex Silva|Estadão

Galitote defende que os direitos de transmissão sejam de responsabilidade apenas do mandante Alex Silva|Estadão

'A atual lei dos direitos de transmissão é anacrônica', afirma Mauricio Galiotte

Em entrevista exclusiva, presidente do Palmeiras afirma que modelo de negociação precisa mudar e defende mobilização dos clubes

Ciro Campos , O Estado de S.Paulo

Atualizado

Galitote defende que os direitos de transmissão sejam de responsabilidade apenas do mandante Alex Silva|Estadão

O Palmeiras entrou em campo nos últimos jogos com um detalhe diferente da camisa. A mensagem do movimento "Futebol Mais Livre" presente no uniforme reforça a campanha do clube e de outros 11 participantes da Série A do Brasileirão em mudar o regime de direitos de transmissão, proposta que o presidente da equipe alviverde, Mauricio Galiotte, defende com entusiasmo, por acreditar nos impactos positivos disso para o mercado.

Em entrevista exclusiva ao Estadão diretamente da Bolívia, onde o Palmeiras está para compromisso pela Copa Libertadores, Galiotte afirmou que o Brasil precisa mudar a lei sobre os direitos de transmissão de jogos. O movimento quer transformar em lei a MP 984, assinada pelo presidente Jair Bolsonaro em junho. O texto alterou a Lei Pelé, ao determinar que o direito da exibição da partida pertence exclusivamente ao mandante em vez de exigir que os dois times envolvidos tenham contrato com uma mesma emissora para a partida poder ser transmitida.

A MP precisa ser votada até a primeira quinzena de outubro para não perder validade. Enquanto isso, o Palmeiras e outros mais de 40 clubes brasileiros como Santos e Flamengo têm feito campanhas nas redes sociais e procurado conversar com congressistas. O movimento tem o intuito de defender que se a proposta virar lei, o futebol poderá movimentar mais dinheiro, pois cada clube poderá negociar o próprio contrato, além de garantir que todas as partidas tenham transmissão.

Por que na sua avaliação a MP do Mandante pode representar um grande ganho para a torcida?

Porque com a lei do mandante não há mais apagão no futebol brasileiro. Ela permite que todos jogos estejam disponíveis para serem transmitidos pela TV. Todos ganham com a maior disponibilidade de conteúdo e também porque, com a concorrência, os direitos valorizam, os clubes ficam mais fortes para manterem os seus craques no país e atraírem os que jogam em outras ligas.

O movimento sobre a MP do Mandante tem o apoio de vários clubes. Como vocês têm se organizado para lidar com essas discussões?

A MP beneficia todos os clubes, independente de porte ou divisão. Os clubes estão entendendo que são sócios num grande negócio e que juntos são mais fortes e mais valiosos. A rivalidade deve se restringir às quatro linhas. Recentemente tivemos uma experiência positiva onde os 40 clubes das séries A e B realizaram a venda conjunta dos direitos internacionais de transmissão do Campeonato Brasileiro (2020 a 2023), por intermédio da Comissão Nacional de Clubes (CNC) e com o apoio da CBF.

Como tem sido o diálogo e a articulação entre vocês, dos clubes, e autoridades políticas?

Há o entendimento comum de que a legislação anterior à MP 984 é anacrônica e sem paralelo no mundo. Por essa razão, a necessidade premente de mudança, de adequação, para posicionar o futebol brasileiro em sintonia com as principais ligas do mundo, tais como, Inglaterra, Alemanha, França, Itália e França. Vamos implantar, com atraso, o que já está comprovado que é o melhor para o negócio futebol. Estamos a cerca de um mês do prazo-limite para votação da MP e conversando diariamente de maneira positiva com congressistas de todos os partidos para mostrá-los que a MP é para o fortalecimento do futebol brasilieiro e seus clubes. Temos confiança que o Congresso vai debater o assunto.

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Vamos implantar, com atraso, o que já está comprovado que é o melhor para o negócio futebol
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Mauricio Galiotte, Presidente do Palmeiras

O Palmeiras tem cativado a torcida a entrar também na discussão sobre o tema do direito dos mandantes. O quanto a participação popular pode representar um peso?

Os congressistas sempre olham para os interesses dos seus eleitores. A lei do Mandante é de alto interesse dos nossos torcedores palmeirenses e de todos os clubes, de qualquer série do futebol brasileiro, como se vê pela adesão ao movimento Futebol mais Livre. A participação e o engajamento do torcedor são muito importantes, para que eles entendam os benefícios da nova legislação e manifestem o seu apoio junto aos representantes no Congresso Nacional.  

Na sua visão essa grande mobilização das equipes pode gerar algum tipo de retaliação e desavença ou contra a Rede Globo ou contra clubes que por enquanto não são favoráveis ao movimento?

Não acreditamos nisso. A MP 984 assegura o direito de transmissão aos seus legítimos donos: os clubes, que até então tinham 50% de um produto, mas na prática, não tinham um produto para vender, pois dependiam sempre da anuência do clube visitante e estavam limitados em suas possibilidades de negociação. A lei não traz prejuízo a nenhuma das partes, apenas benefícios. As empresas detentoras dos direitos têm um aumento no número do jogos disponibilizados sem que tenham que pagar mais por isso. A MP viabiliza a entrada de novos investidores, aumenta a disputa por direitos, a receita dos Clubes e, consequentemente, deixa o futebol brasileiro mais forte.

 

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Mobilização dos clubes e novos contratos mexem com poderio da Globo nos direitos de TV

Ano de 2020 tem intensas novidades nos bastidores em processo acelerado pelo impacto econômico da pandemia

Ciro Campos, O Estado de S.Paulo

16 de setembro de 2020 | 13h03

O ano de 2020 tem provocado inúmeras mudanças nos contratos e na distribuição dos direitos de televisão dos torneios de futebol. Depois de anos de domínio no mercado, a Rede Globo perdeu os direitos da Copa Libertadores, enquanto tem visto uma entrada no mercado pela entrada de outras mídias. Além disso, mais de 40 clubes têm se mobilizado para conseguir mudar a atual lei brasileira e permitir que os direitos de exibição pertençam exclusivamente ao time mandante.

Nos últimos anos e especialmente em 2020, a Rede Globo deixou de ter os direitos de transmissão para o Brasil de torneios como a Sul-Americana e Recopa Sul-Americana, fora a Copa Libertadores, mais recente aquisição do SBT. A emissora carioca também deixou de ter os direitos da Liga dos Campeões e iniciou renegociação com a Fifa sobre a exibição da Copa do Catar. Sobre o Campeonato Brasileiro, a Globo viu no ano passado a entrada do Esporte Interativo e não tem contrato para a exibição do Athletico-PR na plataforma pay-per-view.

Diante de todo esse contexto, a MP 984 assinada pelo presidente Jair Bolsonaro em junho foi um novo fato para fazer o ano de 2020 ganhar um outro componente nos direitos de transmissão. O texto modificou o que era regulado pela Lei Pelé, ao determinar que o direito da exibição da partida pertence ao mandante em vez de obrigar que os dois clubes envolvidos tenham contrato com uma mesma emissora para ser garantida a transmissão.

Um movimento chamado "Futebol Mais Livre", com a adesão de 12 times da Série A quer que a MP seja transformada em lei. Até o momento fazem parte da mobilização: Athletico-PR, Atlético-GO, Bahia, Ceará, Coritiba, Flamengo, Fortaleza, Goiás, Palmeiras (confira aqui entrevista exclusiva com o presidente) , Red Bull Bragantino, Santos e Vasco. Ao todo, são mais de 40 participantes.

Outras equipes que até então avaliavam a causa deixaram o movimento para se reaproximar da Globo, que é contra a chamada MP do Mandante. Corinthians e Atlético-MG, por exemplo, voltaram a ter uma relação mais amigável com a emissora justamente para terem o naming rights dos respectivos estádios citados. O Inter tem negociado para renovar contrato com a Globo e foi outro a ter retomado as negociações.

Na avaliação de especialistas, três fatores têm causado essa grande comoção nos bastidores entre clubes e Globo. Fora a própria MP assinada por Bolsonaro, o impacto do novo coronavírus nas finanças da emissora carioca e o surgimento de plataformas de streaming, como o DAZN, propiciaram essa grande revolução. "O que estamos vendo é uma redistribuição de forças, com a chegada de novos players", avaliou o especialista em inovação e novos negócios na indústria do esporte, Bruno Maia, autor do livro Inovação é o Novo Marketing.

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Nenhum dos contratos que a Globo perdeu até agora, conseguiu atingir valores maiores em outras emissoras, pode-se dizer que o futebol brasileiro 'matou' a única receita fixa que ele tinha
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Bruno Maia, Especialista em inovação e negócios do esporte

Para Maia, a intensa movimentação não significa que todos os impactos serão positivos. "Nenhum dos contratos que a Globo perdeu até agora, conseguiu atingir valores maiores em outras emissoras, pode-se dizer que o futebol brasileiro 'matou' a única receita fixa que ele tinha, optando por uma venda variável e realizando a transação em um momento conturbado economicamente", explicou.

Segundo o advogado especialista em direito desportivo Eduardo Carlezzo, o fortalecimento do streaming teve um grande peso no contexto, além da própria situação econômica. "O impacto da pandemia nas finanças da Globo acelerou um processo de reestruturação de vários negócios. No futebol, a incerteza e insegurança que trouxeram a MP 984 aos contratos vigentes, precipitou uma forte reação de empresa para rediscutir ou encerrar prematuramente alguns contratos de transmissão", disse.

O fundador e diretor de criação da LMID e especialista em marketing esportivo Gustavo Herbetta também aposta que tais mudanças podem trazer prejuízo. "Não acho que a Globo esteja perdendo, quem está perdendo é o segmento futebol. A Globo está se readequando a ele, reagindo a um movimento com viés político sem nenhum planejamento, feito de maneira errada", comentou.

"Concorrência é a palavra chave. Nenhum mercado perde valor com o aumento da concorrência. Com a MP, os detentores de direitos mantém todos os jogos que compraram e ganham mais opções de jogos para transmitir. O pior cenário é ter jogo sem transmissão, prejudicar o torcedor e ainda ter um incentivo à pirataria", explicou ao Estadão o dirigente de um clube do movimento Futebol Mais Livre.

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