Hélvio Romero/Estadão
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A bola é sua, por gentileza

No futebol praticado no Brasil, a maioria não quer a bola. Quem está perdendo é obrigado a tê-la

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S; Paulo

04 de fevereiro de 2019 | 04h00

O juiz chama os dois capitães para o cara ou coroa, o “toss” (sorteio em inglês), como se dizia no rádio. De imediato, o da casa toma a palavra. “Professor, faço questão de que eles comecem. Nós, como mandantes, temos que demonstrar educação e espírito esportivo, cedendo a posse da bola ao oponente”. 

Experiente, o árbitro jamais havia se deparado com algo assim. E sequer teve tempo para anunciar qualquer decisão ante tão inusitado pedido, quando o representante da outra equipe interveio. “De maneira alguma. Vocês já nos receberam tão bem. Jantamos no clube, o presidente recepcionou nossa comitiva, sua mascote foi ao aeroporto recepcionar a nossa equipe. Não iremos abusar. A bola é de vocês”.

O apitador esboçava a primeira frase, quando o capitão local retomou a palavra para retrucar, eloquente. E deixou claro que era uma posição institucional. “Jamais! Somos educados para receber com fidalguia. Aprendemos isso ainda meninos. Cheguei aqui aos 13 anos e desde o sub-15 uso a braçadeira. Nunca o time deu o pontapé inicial em casa sob minha liderança”.

O juiz olhava para os bandeirinhas como quem procura auxílio. O quarto árbitro, por sua vez, mexia na súmula para se esquivar do assunto, pela total falta de ideia sobre o que dizer. “Veja bem – respondeu o líder do time de fora –, não vamos ao campo do adversário com o objetivo de tirar algum tipo de vantagem. Insisto, a bola é sua”.

A discussão se estendia, quando o cartola local adentrou a cancha. Com a enorme pança a balançar, ele se aproximava, esbaforido, daquele bolinho cada vez mais numeroso no centro do gramado. 

“Quié? Vai dizer que esses caras querem que a gente comece com a bola?”, indagou ao seu jogador, que balançava a cabeça afirmativamente, olhando para o chão. “Não tem isso, não. Aqui é respeito!”, vociferou.

O homem do apito enxugava o suor da testa com a munhequeira direita e olhava o relógio no pulso esquerdo, preocupado com o atraso no início da peleja. Até que os visitantes se afastaram para uma reunião.

“Consultei meus companheiros – disse o capitão – e não daremos a saída. Não queremos a bola, isso é contra nossos princípios. Não fomos treinados para isso”.

“Nem nós”, respondeu o da casa.

“Então os três pontos já são nossos!”, definiu o dirigente, soprando a fumaça do seu charuto cubano no rosto do delegado da partida e já pensando no “tapetão”.

Nas cadeiras, vaias. Na TV, o comentarista se referia ao árbitro como um “bananão”. Ninguém sabe se houve interferência externa, mas o mediador parecia ouvir as palavras sobre ele ditas em rede nacional.

“Priiiiiii!”– trilhou o apito, enfezado, o “homem de preto”, na oportunidade envergando fardamento composto por camisa rosa-choque, exibindo o patrocínio de um magazine no peito; e calção negro com o logo de uma marca de cuecas na traseira.

“Jogo encerrado! Quer dizer, nem vai começar. Os times não querem dar o início à partida. É WO!” – decretou, antes de se encaminhar para o vestiário, cercado por 12 policiais equipados com escudos, cassetetes e, claro, gás de pimenta.

O futebol praticado no Brasil é assim, a maioria não quer a bola. Quem está perdendo é obrigado a tê-la, mas não sabe o que fazer com ela. O que tem o placar a seu favor se fecha para distribuir rebatidas e chutões, 1 a 0 é goleada.

Sábado houve o duelo entre os dois times e dois técnicos que ganharam os dois últimos Brasileiros, Palmeiras 0 a 1 Corinthians. Quem viu compreendeu a historinha acima. Chegaremos ao dia em que tal ficção será realidade?!

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