Felipe Rau/Estadão
Felipe Rau/Estadão

A cerimônia que celebrou a amizade com aplausos patrióticos

É sabido que Putin raramente põe os pés em um estádio de futebol, mas certamente ele deve ter gostado do que viu

Ubiratan Brasil*, O Estado de S.Paulo

15 Junho 2018 | 04h00

As cerimônias de abertura de grandes eventos esportivos, como Copa do Mundo e Olimpíada, são criadas e organizadas como um grande cartão-postal do país organizador, que apresenta com orgulho detalhes significativos de sua cultura e sociedade. Mas, se os Jogos Olímpicos estabeleceram uma competição entre nações sobre quem surpreende mais, com arroubos tecnológicos e festas por vezes intermináveis, os Mundiais da bola exigem cerimônias mais enxutas, portanto, com um foco mais evidente.

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Diferente da festa brasileira em 2014, marcada por uma série de erros de conceito e concepção, e da África do Sul quatro anos antes, cujos destaques foram apenas a colombiana Shakira e a ensurdecedora vuvuzela, a cerimônia de abertura da Copa da Rússia foi um exemplo bem-acabado de propaganda política e cultural. É sabido que Vladimir Putin raramente põe os pés em um estádio de futebol, mas certamente ele deve ter gostado do que viu nesta quinta-feira.

Por ser um evento concebido para agradar especialmente ao público que acompanha pela televisão, a festa russa começou com o uso de recursos tecnológicos para unir passado e presente. O vídeo começou com imagens de temas marcantes da cultura, tudo ao som do Concerto nº 1 Para Piano e Orquestra, do compositor clássico romântico Tchaikovski. A melodia, além de conhecida e bela, ajuda a entender dois aspectos importantes da poética melódica do autor russo: apesar da admiração confessa pela cultura ocidental (especialmente pela música italiana), Tchaikovski se revelava um compositor profundamente nacional na escolha de seus temas e na forma rítmica de sua obra.

Uma das últimas imagens do vídeo apresenta uma das joias da coroa ufanista russa: Sputnik, o primeiro satélite artificial da Terra, lançado pela então União Soviética em 1957, fato que, junto do voo de Yuri Gagarin no Vostok (1961), mexeu com os brios dos americanos e detonou a corrida espacial.

 

Um exemplo de ousadia também representado pelo balé O Pássaro de Fogo, que foi dançado já no gramado do estádio Luzhniki. Criada por Igor Stravinski no início do século 20 e apresentada pela primeira vez em Paris, a música surpreendeu (chocou, na verdade) pelo tom fantástico, mas também pela ressaltada influência nacionalista.

A partir desse momento, tornou-se claro que a cerimônia da abertura da Copa russa se prestaria essencialmente para uma missão: ressaltar os laços com a cultura ocidental, desde que dessa simbiose se destacasse, ainda que discretamente, o valor do talento russo. Assim, o único corpo estranho no gramado era o do cantor britânico Robbie Williams, cuja apresentação não conseguiu ir além do previsível – mais vibrante foi o encontro de gerações de talentos da música clássica russa, entre os jovens Daniil Trifonov (um dos mais talentosos pianistas da atualidade) e Aida Garifullina (a soprano do momento, que já dividiu o palco com artistas renomados como Plácido Domingo e Andrea Bocelli) e o veterano violonista e maestro Yuri Bashmet, um dos mais celebrados e controvertidos artistas russos de sua geração: exímio virtuose, já recebeu críticas por posicionamentos políticos, como a assinatura de uma carta em favor da intervenção militar russa na Ucrânia. Até Putin abandonou sua fisionomia marmórea para sorrir.

*EDITOR DO ‘CADERNO 2’

 

 

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