Imagem Antero Greco
Colunista
Antero Greco
Conteúdo Exclusivo para Assinante

A Champions brasileira

A força do restringe cada vez mais ao Sudeste e ao Sul. Alguém pode alegar que não se trata de modismo, mas de constatação histórica, porque sempre foi assim. Fato. Mas agora a distância financeira, técnica e de visibilidade aumenta, e a diferença não é boa, nem sensata, tampouco inteligente do ponto de vista comercial e esportivo. Se o joguinho de bola é business, importa ampliar e melhorar mercados. 

Antero Greco, O Estado de S. Paulo

28 de agosto de 2015 | 03h00

A supremacia das áreas mais prósperas do País, também no esporte, restringe um negócio que pode ser mais rentável – e divertido, por que não? Apesar da interessante disputa por títulos, há certa monotonia no Campeonato Brasileiro e na Copa do Brasil de 2015, por causa da pouca diversidade regional. Como? Vamos lá.

Na Série A, só Goiás (Centro-Oeste) e Sport (Nordeste) estão fora desse polo. Os demais concorrentes são do Sudeste (5 de São Paulo, 3 do Rio, 2 de Minas) e do Sul (2 do Rio Grande do Sul, 2 do Paraná e 4 de Santa Catarina). Na Copa do Brasil, na fase de oitavas de final, encerrada ontem, havia 10 times do Sudeste, um do Norte (Paysandu) e um do Nordeste (Ceará). Esses últimos devidamente eliminados. 

A concentração restringe horizontes, estrangula ações de marketing, represa a expansão da atividade. Ora, diria o descolado, os gigantes do Sudeste e do Sul têm milhões de simpatizantes entre nordestinos e nortistas. Portanto, são excelentes alternativas para audiência e exposição de marcas. 

Discutível essa saída, e até certo ponto simplista e comodista. Nada contra a simpatia que Flamengo, Corinthians, Botafogo, Vasco, Palmeiras, São Paulo e outros do igual quilate despertem em todo canto; ótimo, bacana, mas não se trata disso. A questão é como ter um comércio (se permitem o termo) local em ebulição permanente. 

Nada desprezíveis a venda de pacotes de assinatura de jogos dos notáveis e estrelados do futebol pátrio. Dá uma grana boa para as emissoras e para os próprios clubes. Lindo ver os estádios lotados, quando as equipes badaladas visitam o Norte e o Nordeste. No entanto, é preciso lembrar que ocorrem de maneira esporádica, ocasional, só quando a tabela prevê deslocamentos. O roteiro sempre idêntico: chegam na véspera, treinam, jogam e vão embora. Depois disso, a ressaca e o vazio.

O Norte e o Nordeste abrigam 85 milhões de brasileiros, tiveram crescimento na renda per capita e estão ávidos por orgulhos domésticos. Imagine o quanto seria atraente ter, digamos, Remo e Paysandu como potências suficientemente preparadas para desafiar Grêmio e Santos? Ou ver esquadrões de Bahia, Vitória, Ceará, Sport, Náutico, Fortaleza com reais chances de disputar títulos com Inter, Cruzeiro? 

O Brasileiro é dos mais equilibrados torneios do mundo, como comprovou a excelente pesquisa de José Roberto Toledo e equipe publicada neste espaço no domingo. Com agremiações de peso nessas regiões, teria tudo para tornar-se espetacular. Sob diversos aspectos, e não só o futebolístico.

Empresas investiriam nos uniformes, porque seriam associados a sucesso. O comércio de camisas, ingressos, pay-per-view ligados a times do Norte e do Nordeste seriam beneficiados. Turismo e serviços ligados a ele, idem. O mercado para jogadores, técnicos e demais atividades paralelas, igualmente. Os meios de comunicação ganhariam – em publicidade, audiência, campo de trabalho. 

Ainda surgirá um visionário para colocar em pé esse ovo de Colombo. Falta sujeito (ou grupo) com visão, seriedade, perseverança – e dinheiro, lógico – para investir numa ideia rentável, a de pegar um time de renome local e transformá-lo em símbolo de modernidade. Outros seguiriam o exemplo, num círculo virtuoso com benefícios e lucros amplos.

Certo, primeiro precisaria derrubar velhos costumes, preconceitos, tabus, resistências. Superadas barreiras, com o tempo o Brasil teria competição nacional (de porte continental) de provocar inveja até na endeusada Champions League. 


Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.