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À chucha caladinha...

Enquanto foco estava na seleção, CBF muda estatuto e dá mais força para federações

Antero Greco, O Estado de S.Paulo

26 de março de 2017 | 06h00

A expressão usada no título desta crônica surgiu em Portugal e foi popular por aqui no tempo do Onça, bem nos antigamentes, na época em que a Mata Atlântica vicejava linda e verde pela costa do País. Sempre achei simpática, apesar de fora de moda. Significa tomar uma decisão à sorrelfa (opa, esta também é do tempo da bisavô do Conselheiro Acácio), no silêncio da noite. Ou, no popular: na moita.

Pois foi à chucha caladinha que, na quinta-feira, poucas horas antes do jogo da seleção com o Uruguai, em Montevidéu, a CBF reuniu no Rio as 27 federações, com as quais definiu alterações no estatuto. As mais importantes são a que permite uma reeleição para a presidência e a que altera peso dos votos para escolha do cargo.

A geringonça funcionará assim: o presidente poderá ter dois mandatos seguidos; Mas a regra não entra em vigor agora, só vale a partir de 2019. Quer dizer, daqui dois anos, se quiser, Marco Polo Del Nero apresenta candidatura. Suponhamos que vença; fica no cargo até 2023 e, então, tenta reeleição. Se sensibilizar o Colégio Eleitoral, senta na cadeira principal até 2027. Daí, não poderá concorrer de novo. Então, não; caso contrário, será bagunça, ora essa.

A escolha de tão importante função para os destinos da nação é responsabilidade de federações, mais os 20 clubes da Série A e os 20 da Série B. Com uma ligeira mudança no “valor” de cada voto. Times da A entram com peso 2; os da B terão 1. Já o sufrágio das federações conta 3 por cabeça. Matemática de pré-primário: a soma dos votos dos 40 da turma da elite da bola chega a 60 pontos. E a das federações? 81. 

Isso mesmo, as representações burocráticas da CBF nos Estados, digamos assim, têm mais voz ativa do que as equipes. A explicação prosaica para a canetada é a de proporcionar equilíbrio e democracia na tomada de decisões. Na visão de quem comanda a CBF, seria elitizar o futebol, se um punhado de agremiações fosse mais importante do que milhares de pequenos clubes espalhados pelos mais longínquos rincões da Terra de Santa Cruz. 

No Bom Retiro velho de guerra, onde comadres não tinham papas na língua, isso se chamaria capote nos times, que na lógica são a razão da existência de federações e CBF. Essas entidades não seriam nada sem a matriz representada por quem produz o espetáculo. Foi um passa-moleque nos clubes, um recado claro para eles de que têm votos que, na prática, não valem coisa alguma. Basta que as federações fechem em torno de um nome para elegerem quem a CBF quiser. E isso geralmente acontece, porque a CBF controla seus satélites, com raras exceções. 

Alguém poderia estranhar que reunião, sem a presença dos clubes, tenha sido realizada em dia de jogo vital pelas Eliminatórias do Mundial. Não atrapalharia a rotina da CBF? A resposta, óbvia, é não. Afinal, o presidente foi tomado de pânico por avião que saia do território nacional desde maio de 2015. Não arreda pé daqui. Pavor tão insuperável que não permitiu sequer que fosse visitar o padrinho, ex-amigo e ex-aliado José Maria Marin, preso nos EUA sob acusação de corrupção. Sendo assim, a agenda está livre para assembleias domésticas a qualquer hora, independentemente de compromissos da seleção. 

A seleção evolui, sob comando de Tite e com o talento de Neymar e companheiros. Já a mentalidade administrativa do futebol de cá regride aos tempos do desembarque de Pedro Álvares Cabral e grande comitiva. Dizem, até, que alguns cartolas regionais vieram com as caravelas...

DUELO TENSO

São Paulo e Corinthians estão indo bem no Paulistão, porém têm oscilado em apresentações recentes e provocam dúvidas em torno do futuro, sobretudo em torneios como o Brasileiro. Passarão por nova provação no clássico de hoje. 

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