Jamil Chade/AE
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‘A cidade mais adequada para receber a abertura é o Rio', diz Blatter

Em entrevista exclusiva, presidente da Fifa esquenta disputa principal da Copa do Mundo de 2014

Jamil Chade, O Estado de S. Paulo

27 de agosto de 2011 | 21h16

OBERGESTELN, Suíça - Depois de meses de uma verdadeira guerra em torno da viabilização financeira da Arena do Corinthians, em Itaquera, o presidente da Fifa, Joseph Blatter, declara: quer a abertura da Copa de 2014 no Maracanã e não em São Paulo. O cartola máximo do futebol mundial abriu ao Estado as portas de sua aldeia natal, no centro das montanhas na Suíça. Nada de gravata e terno. Apenas calça de abrigo, uma paisagem alpina e uma longa conversa.

Sentado em uma mesa de um bar local, Blatter falou abertamente sobre a Copa do Mundo de 2014, a avalanche de escândalos de corrupção na Fifa, da presidente Dilma Rousseff, do ex-presidente Lula e do presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e do Comitê Organizador Local da Copa (COL), Ricardo Teixeira. Mas fez questão de alertar que é a briga política no Brasil o maior obstáculo para a preparação do Mundial.

O suíço ainda criticou o atual futebol brasileiro, disse que a seleção sub-20 não joga "o futebol brasileiro" e adverte que não há nenhuma garantia de que o País saia campeão em 2014 com o atual time.

Nos últimos meses, Blatter se transformou na imagem de uma entidade corrupta e com uma guerra declarada entre diferentes atores na Fifa. À reportagem, Blatter renovou seus ataques contra inimigos e garante que anunciará "mudanças importantes na Fifa" em outubro. Eis os principais trechos da entrevista, concedida da manhã deste sábado, no "recanto de Blatter".

Em outubro, a Fifa vai anunciar o local de abertura da Copa de 2010. Mas onde é que o senhor gostaria de estar sentado para ver a abertura da Copa do Mundo no Brasil?

Há definitivamente uma competição entre Rio e São Paulo para obter a abertura. Mas já demos o centro de Mídia para o Rio e a sede da organização da Fifa será no Rio. Portanto, a cidade mais adequada para receber a abertura é mesmo o Rio de Janeiro. O futebol brasileiro é o Rio. E para o mundo, o Rio é a cidade mais atraente para abrir uma Copa, sem dúvida.

Mas e todo o debate e financiamento dos estádios em São Paulo? Como fica?

O principal obstáculo para a organização da Copa no Brasil tem sido as brigas políticas entre prefeitos, governadores e governo federal. Isso pode de fato atrapalhar muita coisa. O Brasil sediará uma ótima Copa. Mas tem de resolver essa briga política.

A questão dos aeroportos preocupa?

Decidimos ter uma pessoa dentro da Fifa exclusivamente dedicada a ajudar o Brasil a reformar essa área de transportes para que não tenhamos problemas. Isso precisa ser equacionado.

O senhor teme um caos na organização da Copa?

É mais difícil organizar uma Copa que os Jogos Olímpicos. É um evento nacional e que atinge diferentes cidades. Não é tão fácil organizar esse vento, nem para o Brasil. Mas, olha, tenho certeza que Brasil vai realizar ótima copa. Só não tenho tanta certeza de que terá o melhor time.

Então não há garantias de que a tragédia de 1950 seja superada?

A Alemanha montou palco para ganhar Copa de 2006 e veja o que ocorreu. O Brasil tem um novo técnico (Mano Menezes, que assumiu após a Copa de 2010). Mas já há muitas criticas. Ricardo Teixeira disse que não mudará o plano. Mas a verdade é que se não houver resultados, terá de pensar. O Brasil não terá mais jogos oficiais. Apenas brincadeiras. Não há mais nenhuma pressão de competição até a Copa das Confederações. Então nunca sabe em que pé seleção estará.

Como o senhor avalia o futebol brasileiro atual?

Olha. Acompanhei de perto o sub-20. O Brasil ganhou e aplaudi. Mas eles não jogam o futebol brasileiro. Entendi que o time jovem do Brasil não joga mais o futebol brasileiro. Eles jogam como se tivessem Lúcio e Maicon na zaga. É o mesmo modelo. Forte. Mas onde está esse jogo de dribles, mudando o ritmo de jogo? Nada. É muito poder. Vimos o que ocorreu na Copa de 2010. Vimos também como jogadores perderam a cabeça. Falou-se na falha de Julio Cesar. Mas aquele era o primeiro gol só e o jogo estava empatado. O Brasil entrou em colapso. Não imaginavam que aquela defesa deixaria passar um gol.

Como o senhor vê o uso do futebol por políticos?

O envolvimento de políticos em si não é um problema. O que não pode ocorrer é o abuso do futebol para aumentarem seu poder. Temos de reconhecer que o futebol tem uma dimensão econômica tão grande hoje que ele também ganhou uma dimensão política.

O ex-presidente Lula interferia com frequência no futebol brasileiro e fez lobby até por Itaquera. Isso ajudava ou criava mais obstáculo?

Vamos dizer desta forma: era mais fácil para CBF trabalhar com Lula que agora com Dilma. Só direi isso. Ela teria tomado um distanciamento por conta dos problemas de popularidade de Ricardo Teixeira? Ah sim, ele é impopular no Brasil (risos)?

Como o senhor explica tantas acusações de corrupção na entidade que preside por tantos anos?

Outros cartolas do mundo me dizem: parabéns, você polarizou a atenção da imprensa internacional. O que eu tenho para dizer sobre isso é o seguinte : temos maus perdedores na Fifa. Temos de dizer que alguns de nossos atores e alguns dos principais atores da Fifa não agiram bem. Mas já começamos a atuar. Agora, peço que a imprensa nos de um tempo para aplicar as medidas que estamos elaborando. No dia 21 de outubro vou anunciar medidas.

Mas há quem diga que essas medidas não resolvem nada.

Essa animosidade vem da Inglaterra. Veja o timing das acusações. Foi justamente quando perderam o direito de sediar a Copa de 2018. Três semanas antes das eleições para presidente é que trouxeram acusações. Sabe, vou dizer a verdade. Tudo isso é ainda uma revanche por de terem perdido em 1974 a presidência da Fifa para João Havelange. Ainda não aceitaram que não controlam a Fifa. Como não poderiam recuperar a presidência, decidiram que iriam destruí-la.

Mas a foi eleição usada por outros também. Quando em março o senhor criticou a preparação do Brasil para a Copa de 2014, dizendo que o país estava menos preparado que a África, a CBF disse que era uma revanche sua contra Teixeira por ele estar apoiando Mohamed Bin Hammam?

Verdade? Foi isso que disseram?

O senhor acredita que haverá uma guerra em 2015 pela presidência da Fifa?

Terei 79 anos e não vou querer concorrer a nada. Mas posso dizer que a Europa fará de tudo para manter a presidência da Fifa. Digo, para recuperar a presidência, porque não me consideram europeu. Para evitar essa guerra, vamos montar um plano para permitir essa eleição. Teremos renovação, não revolução.

O senhor aposta em Teixeira com tendo alguma chance de ser eleito como o próximo presidente da Fifa?

Bom, ele é o candidato de Havelange (risos).

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