Hélvio Romero/Estadão
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A conta da década

Futebol brasileiro é gerido há décadas por dirigentes com a marca da incompetência

Mauro Cezar Pereira, O Estado de S.Paulo

23 de dezembro de 2019 | 04h30

Tradicionalmente, o futebol brasileiro é gerido há décadas por dirigentes com a marca da incompetência. Não sabem escolher os profissionais ao contratar, demonstrando falta de entendimento sobre o futebol e suas minúcias. Compram jogadores caros de futebol barato e têm especialização em endividar clubes.

Nos últimos anos não foram poucos a mergulhar em aventuras que os enfiaram em atoleiros. Algo como cair na areia movediça, sem alguém por perto para jogar uma corda ou algo para puxá-los, apesar dos esforços históricos, com programas do governo para parcelar ou mesmo perdoar imensas dívidas.

Se na década anterior o São Paulo se autodenominava “Soberano”, do alto de títulos nacionais seguidos (2006, 2007 e 2008), mais a dobradinha Libertadores/Mundial em 2005, o jejum de títulos do Tricolor evidencia as mudanças, as transformações. O clube ganhou um troféu em 11 temporadas.

Campeões da Copa Sul-Americana em 2012, os são-paulinos já têm pelo menos duas gerações que não viram seu time vencer uma competição. Queda vertiginosa que sinaliza para o sucateamento de uma estrutura hoje obsoleta, assim como seus métodos de gestão. E dívidas, claro, dívidas.

A situação não é pior porque a base ainda revela talentosos jogadores que costumam ser bem vendidos. Mas só nos oito primeiros meses do ano que se encerra o São Paulo acumulou déficit de R$ 76,5 milhões. E faz complexas projeções para faturar pelo menos R$ 80 milhões nos dias derradeiros de 2019.

Situação complicada, apesar dos títulos em meio à seca tricolor, vive o Santos, mesmo também revelando talentos e vendendo bem. 

Endividado e sem perspectivas no curto prazo, perdeu seu treinador, Jorge Sampaoli, e encerra o ano com o torcedor orgulhoso pelo bom futebol e preocupado com 2020.

O Corinthians, que saía do fundo do poço no ano em que o rival do Morumbi iniciava sua dieta de troféus, conseguiu todos os títulos desejados nos primeiros anos da década sem loucuras. 

A dívida total em 2012, quando foi campeão de tudo, estava em torno de R$ 111 milhões. Hoje é difícil saber o tamanho do buraco.

Tudo por conta da aventura do estádio. O que poderia ser uma casa corintiana de custo compatível com sua receita, com sua capacidade de endividamento, virou algo responsável por um montante incalculável, com a arena de Itaquera envolvida na Copa do Mundo de 2014, encarecida para receber o jogo de abertura.

Ainda assim os dirigentes contratam. Onde isso vai parar? Aparentemente isso não os preocupa, ao contrário de como pensava o salvador da pátria verde. Na mesma época, o Palmeiras tinha um presidente, Paulo Nobre, que pôs seus recursos financeiros para resgatar o clube. O Palestra renasceu rico outra vez. 

Não por acaso os alviverdes vêm chamando a atenção em todas as conversas sobre os times que devem dominar o futebol brasileiro. A saúde financeira permite isso. Como o Flamengo, que em 2013 começou a cortar na própria carne, reduzindo custos, mantendo times fracos para priorizar o pagamento de sua enorme dívida.

Hoje, com as contas em dia, os rubro-negros são campeões brasileiros, da Libertadores e acabam de voltar do Catar após disputar o Mundial de Clubes da Fifa. Fizeram o caminho mais difícil, e seguro, que outros não parecem dispostos a trilhar. Se for assim, daqui a uma década teremos realmente uma hegemonia.

Já o Cruzeiro vira o ano mergulhando na segunda divisão após erros inacreditáveis.

Apesar dos exemplos positivos existirem e serem claros os efeitos de velhos erros, muitos cartolas insistem em tais métodos. Mesmo sabendo que a conta sempre chega.

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