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A Copa de 70

Euforia patriótica tomou conta das ruas do Brasil de forma nunca vista antes nem depois

Ugo Giorgetti, O Estado de S.Paulo

21 de junho de 2020 | 05h00

Hoje, domingo, é uma grande data brasileira. É a data da inesquecível final Brasil x Itália em 1970. É muito difícil falar dessa Copa sobre a qual já se derramou tanta tinta e, ainda assim, continua assunto. Tento lembrar desse domingo de junho e, ao contrário do que se costuma dizer, não lembro dele como se fosse ontem. Foi há muito tempo, por isso me aparece mais como impressões do que como fatos.

Como todo mundo gosta mais de fatos, o que lembro claramente dessa Copa é o incrível número de pessoas desfilando pelas ruas da cidade depois das vitórias. Nunca tinha visto nada assim antes e não voltei a ver depois. Havia na época um clima de patriotismo aparente, nacionalismo truculento, e orgulho do Brasil, devidamente insuflados pelo governo militar e por parte da classe média, que desfilava em seus carros onde se liam dísticos como “Ame-o ou deixe-o”, se referindo ao País, bem entendido.

E eis que de repente apareceu o povo, que, na época, me dava impressão de ser indiferente ao governo. Foi o time que fez as multidões ganhar as ruas e não os apelos patrióticos anteriores. Foram os resultados, e, mais que os resultados, as exibições. Porque a apoteose da invasão das ruas aconteceu aos poucos e foi crescendo na medida em que crescia a admiração por aquele futebol.

Descrever essas multidões é quase impossível. Foram momentos de liberação total. O que não se podia falar alto, falava-se, o que não se podia fazer, começou a ser feito. Uma espécie de 1968 sem rebeldia política, que ninguém era louco, mas toda a rebeldia no comportamento. O que se via dos carros era menos os adesivos nos vidros traseiros e mais uma desordem infernal, com gente gritando, sacudindo enormes bandeiras, falando os piores palavrões, inclusive as moças, numa época na qual a cidade era ainda um pouco provinciana nos costumes.

Ouvia-se de tudo aos berros e via-se tudo. Essa loucura começou a partir do jogo contra a Inglaterra, quando as coisas começaram a ficar claras para os torcedores. Uma pequena história que lembro é a de um senhor, de quase 70 anos, chegado da Suíça para tratar de assuntos familiares e que estava hospedado na Rua Alagoas quase Av. Angélica. Eu tinha recomendado a ele que não saísse na rua depois dos jogos, e ele me assegurou que estava acostumado ao futebol e que tinha até sido goleiro em Berna (!!).

Quando o Brasil ganhou do Uruguai e as ruas pegaram fogo, estava eu em casa, o telefone toca e é o velho suíço. Me contou que tinha saído de casa e entrado na Angélica, onde foi colhido por uma massa ensandecida e arrastado até um lugar que ele não conhecia. Alguém tomou o telefone e uma voz me disse entre gritos, berros e cantos ao fundo, que o velho estava num bar na Av. Paulista!

Quem conhece a região sabe de que distância estou falando. Quando o resgatei trêmulo, sem óculos, atarantado, mal sabia quem era. Esse era o clima das ruas, uma cafajestada saudável, alegre e liberta. Não lembro de incidentes sérios nem agressões.

Quanto ao time, hoje vejo quanto devemos essa conquista ao Zagallo. Ele, tão contestado, mostrou que tinha futebol brasileiro nas veias. Formou um time onde o craque jogava, não importava muito a posição. Pensou, tenho certeza, que craque acha seu lugar no campo e, partindo disso, colocou Tostão, um gênio sem posição definida, Jairzinho sem posição definida, Rivellino, redescoberto pelo Zagallo, também sem posição definida. Até um craque que não tinha lugar entrou: Piazza não poderia jogar porque havia Clodoaldo, mas também era craque e Zagallo inventou Piazza na quarta zaga longe de sua posição no Cruzeiro.

Era comum ver jogadores fora da posição habitual, por isso a surpresa de Carlos Alberto fazendo o quarto gol do jogo. Zagallo tinha uma tática sábia, que não sei por que depois ele mesmo abandonou: na dúvida, punha o craque.

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