Filipe Araujo/Estadão
Filipe Araujo/Estadão

A Copa é coisa de cinema

Se o cinema é arte, nada melhor que o futebol, naquela imensidão de tela, para ressaltar o caráter artístico de lances, atletas

Luiz Carlos Merten*, O Estado de S.Paulo

09 Julho 2018 | 04h00

Já fui redator de Esportes e sou colorado, torcedor do Inter, mas confesso que não tenho maior interesse pelo futebol de cada dia. Já a Copa é outra coisa. Os jogos entre nações possuem caráter épico. E, quando são mata-matas, a emoção redobra. A Copa continua sendo gloriosa para torcedores bissextos, mesmo após a eliminação do Brasil. Talvez não sejam grandes jogos, mas são épicos. Não é sempre que se vê, mesmo em Copas, 90 minutos medíocres serem redimidos nas prorrogações. O sonho do hexa acabou na sexta com aquele jogo sofrível. Sábado, o repórter, desiludido, saía do cinema quando começava, na TV do bar, a prorrogação de Rússia e Croácia. O brasileiro naturalizado russo Fernandes faz o que todos queriam ter visto Neymar fazer no dia anterior – gol! A decisão vai para os pênaltis. Fernandes erra.

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“É brasileiro, pô!”, complexo de vira-lata, o comentário no bar. Subasic, o goleiro da Croácia, agiganta-se. Pode ser uma equivocada impressão de cinéfilo. John Ford, a grandeza dos derrotados. A Copa tem sido pródiga nesses momentos privilegiados. O gol de Mina, aos 48, levando a decisão de Colômbia e Inglaterra para os pênaltis. O desalento de James, queridinho de Anitta, na tribuna.

A Dinamarca pode ter sido eliminada, mas o pênalti que Schmeichel salvou, visto pelo olhar de seu pai, ex-goleiro, valeria um título. O goleiro da Croácia, Subasic, merece estátua por haver defendido todas aquelas bolas. E Alisson, enquanto segurou, mudou o conhecido refrão – vai que é tua, Alisson! Por um momento, chegou a ser o menos vazado. O torcedor pode até ter perdido a dimensão superlativa desses lances. Mas houve um desenho estético em campo. Pegue aquele passe de Willian, a bola que Neymar deslizou para enfiar no gol de Ochoa. O lance, captado pelas câmeras e decupado nos estúdios, privilegiou o que diz do cinema Nicholas Ray. Cinema é a melodia do olhar. Mas o olhar, ali, não era melódico. Era o olhar incrédulo, aterrado do goleiro que parecia um paredão e via seu mundo desmoronar.

 

A Copa é coisa de cinema e pode ser vista nas telas. Nessa era de tantas plataformas, a tela de cinema não perdeu seu caráter mágico. E, se o cinema é arte, como proclamam os críticos, nada melhor que o futebol, naquela imensidão de tela, para ressaltar o caráter artístico de lances, atletas. O deslizar de “Ney”, a cabeçada de Thiago Silva, quando o sonho ainda era possível. Nosso super-herói voando sobre os rivais. O cinema possui característica única. Graças à identificação projetiva, você está no escurinho, cercado de gente – sua fruição é individual. Por isso, para vivenciar o coletivo, se você não está na Rússia, teve, em São Paulo, o Anhangabaú.

O cara ao seu lado pode ser um marmanjo, mas roía as unhas como criança indefesa. Após sufoco, o abraço coletivo. Pensei que nunca mais passaria pelo horror de 2014. Brasil e Alemanha. Havia entrado num boteco do Anhangabaú. Fui ao sanitário e, ao voltar, gol (deles). Quatro, disse. Não, já era o quinto e haveria mais. A história não se repetiu exatamente igual, mas o hexa foi protelado. As imagens não mentem – as grandiosas e as que espelharam o fracasso.

 

*REPÓRTER ESPECIAL DO CADERNO 2 DO ‘ESTADÃO’

 

 

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