JF Diório/Estadão
JF Diório/Estadão

A Copa que eu perdi

Na Copa da Inglaterra, eu tinha onze anos. Morávamos em São Vicente. Todos nós gostávamos de futebol lá em casa

Fausto Macedo, O Estado de S.Paulo

22 Junho 2018 | 04h00

Foi melancólico para todos nós aquele 1966, o ano da Copa da Inglaterra. Nosso escrete submetido a uma afronta nos domínios de Sua Majestade ganhou só uma e voltou mais cedo para casa com o rabo entre as pernas. Humilhação severa para o selecionado que o mundo reverenciou em 58 e em 62, as Copas que imortalizaram Pelé e Garrincha.

Nos diários esportivos, um Rei magoado, aviltado pelos súditos em gramados britânicos, declara que não mais jogará uma Copa. Voltou a jogar sim e todos vimos o espetáculo admirável que nos ofereceu no México.

Mas eu queria voltar a 1966. O Robson Morelli, nosso diligente editor de Esportes, me colocou nessa enrascada. Pediu-me que escrevesse para o seu caderno. Passeis uns dias mergulhado em considerações. Vou falar do Brasil do Tite que não levou o Vinícius Júnior? Vai entender... Decidi, enfim, falar da Copa de mais de meio século atrás, a Copa que o Brasil perdeu, a Copa que eu perdi.

Na Copa da Inglaterra, eu tinha onze anos. Morávamos em São Vicente. Todos nós gostávamos de futebol lá em casa, porque o futebol era bonito, não era esse joguinho meia-boca de hoje, povoado de brucutus. Imaginem que eu vi jogar, pela TV e na Vila Belmiro, Pelé, Carlos Alberto, Coutinho, Ademir, Pepe, Rivelino (isso, com um ‘ele’ só), Tostão, Dirceu Lopes, Gérson, Jair, uma constelação! Tinha também o Garrincha, mas o Mané estava com a saúde das pernas debilitada. Mesmo assim, foi para a Copa.

 

A Copa se aproxima, eis que uma emissora de rádio resolve lançar uma competição. Ela oferece um aparelho de rádio a quem acertar a escalação para o jogo contra a Bulgária. Aquilo me empolgou de tal sorte que me pus a escrever cartas e cartas à emissora, cada uma com uma escalação. Caprichava na letra, mais do que nas tarefas do Ateneu São Vicente. 

Em outra frente, repeti muitas vezes o mesmo elenco. Perdi a conta de quantas correspondências enviei pelos Correios e quantas levei à emissora, em mãos. 

Chegou o dia da estreia. O Brasil nos gramados de Liverpool. O escrete formou com Gilmar, Djalma Santos, Bellini, Altair e Paulo Henrique; Denilson e Lima; Garrincha, Alcindo, Pelé e Jairzinho. Um elenco de peso, que não deu liga. Mas certamente foi uma das disposições que enviei e reenviei.

No dia seguinte, lá estava eu na porta da rádio à espera do sorteio. Qual não foi a minha surpresa, e desapontamento, quando o locutor anunciou o resultado, de bate-pronto: “O ganhador é!!..” e, sem nenhum suspense, ele comunicou que o pé-quente tinha sido o dono de uma Ótica ali das imediações, “nosso grande amigo”.

“Aliás, por acaso, diletos ouvintes, ele já está aqui para receber seu devido e justo prêmio!!”, declarou o radialista.

O Brasil perdeu a Copa do Mundo. E eu perdi o rádio.

*FAUSTO MACEDO É REPÓRTER DO ‘ESTADÃO’

 

 

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