Tim Ireland/AP
Tim Ireland/AP

A difícil jornada que espera a seleção nas Eliminatórias

Não, nunca foi fácil para o Brasil; mas algo indica que o torneio para o mundial da Rússia será pior

Amilton Pinheiro, especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

07 de outubro de 2015 | 11h59

"Uma vez estava conservando com o Waldir Peres, que jogou como goleiro durante muitos anos no São Paulo, e ele me disse uma grande verdade: 'Futebol é moral, se o time pega moral, ele joga mais do que pode'. Refletindo sobre isso, vejo que os adversários da seleção brasileira pegaram moral quando jogam com a gente. Dito isso, certamente vai ser (a disputa)  das Eliminatórias mais difíceis que a seleção irá enfrentar”, afirma Ugo Giorgetti, colunista da editoria de Esportes do Estado. Todos os especialistas ouvidos pela reportagem comungam da mesma opinião, mesmo porque as Eliminatórias, com raríssimas exceções, sempre foi um torneio sujeito à intempéries. “Vai ser uma das mais difíceis da seleção brasileira porque a gente está indo com um conjunto em formação, sem estrutura montada, apesar do Dunga dirigi-la há mais de um ano”, analisa Luiz Antônio Prósperi, editor de Esportes do Estado.

Muito do descrédito da nossa seleção nas Eliminatórias sul-americanas, torneio que começam amanhã (8), quando o Brasil jogará contra o Chile em Santiago, deve-se ao técnico Dunga, que muitos consideram intransigente e despreparado para o cargo, apesar de conseguir classificar a seleção para o Mundial de 2010, na África do Sul, em primeiro lugar. “Não tenho nada contra ele, mas teria que ser outro técnico. Para mim seria o Tite, mas eles (CBF) preferem conveniências, os interesses. Por exemplo, colocamos um treinador (Dunga) que só se preocupa em ganhar. Ele não está preocupado com o futebol brasileiro. Ele quer ganhar os jogos para continuar sendo técnico da seleção brasileira”, dispara o ex-jogador Rivellino, que defendeu a seleção nos mundiais de 1970, 1974 e 1978.

Um estado de coisas

O ex-goleiro da seleção brasileira nos mundiais de 1970, 1974, 1978 e 1986, Emerson Leão, vai logo dizendo que não responde quando lhe perguntam se a seleção está com medo de não se classificar para mais uma Copa do Mundo (é a única seleção que foi a todos os mundiais), pois para ele isso seria o fim do mundo, seria melhor fechar para balanço. A vergonha que a seleção proporcionou na Copa do Mundo do Brasil, segundo ele, é reflexo do que vem acontecendo no País em todas as áreas, principalmente na política.  “O Brasil como um todo não aparece mais nas listas de coisas positivas, a não ser de números altíssimos de corrupção, de assassinatos, de falta de seriedade, de educação, etc. Ou seja, é só coisa ruim e no futebol não poderia ser diferente”, lamenta. Leão completa o raciocínio dizendo que nesses últimos meses abria o caderno de esportes e pensava que estava lendo notícias de corrupção da política, referindo-se aos escândalos envolvendo dirigentes da FIFA. “Não podemos acreditar mais nas entidades ligadas ao futebol, infelizmente”. 

De volta para as Eliminatórias 

O torneio eliminatório é longo, começa agora em outubro de 2015 e vai até outubro de 2017, com dez seleções da América do Sul, disputando quatro vagas diretas - o quinto colocado disputa a repescagem com um time da Oceania. Desde as eliminatórias para a Copa do Mundo de 2002, todas as seleções jogam no sistema de todas contra todas em turno e returno (o sistema já contemplou dois grupos de cinco seleções, quando o Brasil ficava num grupo e a Argentina em outro, já foi de grupo de três seleções e até quatro).

Nunca foi um torneiro fácil para o Brasil. Segundo os especialistas, outro aspecto que pode trazer complicações para a seleção brasileira no torneio é a falta de experiências de alguns jogadores convocados para uma disputa com essas características peculiares. Outro aspecto importante lembrado pelos especialistas é que a seleção brasileira não disputa esse torneio, desde o Mundial de 2010. 

Outro complicador para o Brasil nesse torneio é que outras seleções melhoraram muito nos últimos anos, principalmente as que não eram adversárias diretas da seleção, como Venezuela e a Bolívia. O Chile, que venceu pela primeira vez a Copa América (o Brasil foi eliminado nos pênaltis pelo Paraguai), não será um adversário fácil. “Além da seleção não jogar bem hoje, tem o fato dela não participar há algum tempo. Perdemos um pouco a noção desse torneio. Vários jogadores agora convocados nunca participaram de um torneio como esse, a maioria deles, têm jogadores que não estão acostumados em jogar em um campeonato sul-americano, veja o que aconteceu agora na Copa América, quando o Brasil foi desclassificado, o que torna nossa jornada ainda mais complicada” explica Prósperi.

Esquema tático e grande dependência de Neymar

Como as seleções da América do Sul, quando jogam com o Brasil, normalmente atuam em esquemas táticos que priorizam a defesa, cobra-se muito de Dunga alternativas de jogo que superem essa barreira. Mas Prósperi lembra que o técnico tem sérios problemas com isso. “Não sei se o esquema tático do Dunga vai funcionar diante da retranca das seleções. As partidas serão mais pegadas, mais duras, daquelas que os atletas, que jogam na Europa, estão acostumados”. A dependência em relação a Neymar como homem de resultado é outra preocupação dos especialistas, não podemos esquecer que ele não jogará nas duas primeiras partidas das Eliminatórias, contra o Chile e a Venezuela, por causa da suspensão de quatro jogos que tomou durante a Copa América (dois jogos de suspensão, ele já tinha cumprido no torneio).

Rivellino é categórico quando diz que os jogadores que atuam na Europa não são protagonistas nos seus clubes e que eles não são de criar jogadas, com exceção de Neymar. “Dentro da seleção, que joga lá fora, só tem mesmo Neymar, que cria, que faz jogada individuais, etc. O resto dos atletas só fazem tocar do lado. Claro que de vez em quando eles têm que fazer uma jogada e fazem. Quando vem para a seleção existe essa cobrança de fazer jogadas individuais, ainda mais por eles jogarem em times de bom rendimento. Lá eles funcionam dentro de um esquema tático, que na maioria das vezes é bem diferente do que é desenvolvido na seleção brasileira”.

A primeira derrota

Como todos os especialistas lembraram, as Eliminatórias nunca foram um torneio fácil para a seleção brasileira, mesmo quando éramos favoritos e a camisa verde amarela era temida, o time sofreu algumas derrotas humilhantes. “Todas as vezes, mesmo sendo jogo difícil, o Brasil era favorito, agora não é mais. Entramos numa partida com um time inferior e não somos mais favoritos, alguma coisa está errada”, compara Leão.

A primeira vez que a seleção brasileira foi derrota num jogo de Eliminatórias foi em 25 de julho de 1993, quando fomos a La Paz jogar contra a Bolívia. O Brasil perdeu por dois a zero, derrota que poderia ser até maior, pois a Bolívia deixou de marcar um pênalti, perdido no primeiro tempo, quando a partida estava zero a zero. Faltavam dois minutos para o encerramento do jogo, quando o jogador Marco Etcheverry chutou para o gol de Taffarel, que deixou a bola passar por debaixo das pernas. O outro gol veria logo em seguida. Essa primeira derrota da seleção brasileira numa Eliminatória repercutiu como uma bomba no Brasil, torcedores incrédulos assistiam pela televisão, a vitória da Bolívia, que se classificou para o Mundial de 1994, que como todos sabemos foi vencido pela seleção brasileira, que conquistou o seu tetra campeonato. Quando a seleção voltou para o Brasil, a cobrança por explicações dos jogadores e da comissão técnica foi enorme. Na época ninguém poderia imaginar que a derrota para a Bolívia seria quase insignificante em relação a que a seleção brasileira sofreria da Alemanha, por sete a zero, vinte anos depois, numa Copa do Mundo realizada no Brasil. 


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