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A dor

Os jogadores se acostumaram, como os antigos gladiadores, a incorporar o sofrimento físico

Ugo Giorgetti, O Estado de S. Paulo

19 Fevereiro 2017 | 03h00

Fala-se pouco sobre contusões no futebol. Elas desaparecem no interior de departamentos médicos altamente especializados e saem das vistas. O jogador trata a contusão em alguma parte secreta do clube onde ninguém o vê. Sabe-se que está sob tratamento e isso é tudo. De quando em quando, uma previsão de volta geralmente otimista, frequentemente equivocada.

A possibilidade de contusão é o fantasma que mais assombra as noites e os dias dos jogadores. Se a posição é ameaçada pela chegada de alguém novo, ou pela simpatia ou antipatia da torcida volúvel, isso incomoda, mas só a contusão aterroriza. É quando o futuro passa a ser uma interrogação, uma possibilidade sujeita a inúmeras variações.

Sempre foi assim. Há contusões históricas, cada torcedor tem a sua. Lembro de uma antiga e terrível de Mirandinha, centroavante do São Paulo de anos e anos atrás, artilheiro no melhor de sua forma. A foto antológica do momento da sua contusão foi reproduzida em jornais e revistas. A fotografia brutal fixou a perna retorcida, partida, deformada com o choque, pendurada, indefesa, fraturada da maneira mais visível.

Mirandinha levou anos para voltar e quando voltou não era mais o mesmo. Os tempos eram outros e a medicina esportiva não tão avançada, mas, por outro lado, o jogo também era outro, os choques bem menos violentos. Hoje, vejo disputas de bola e me pergunto como os participantes continuam a jogar, aparentemente ilesos. Como continuam em pé. Creio que continuam ilesos só aparentemente.

Às vezes, penso que todos os jogadores jogam em meio à dor. Se acostumaram, como os antigos gladiadores, a incorporar o sofrimento físico como parte da atividade. Jogando quarta e domingo, é impossível jogar sem sofrer. Os departamentos médicos talvez tenham se transformado em departamentos que de alguma forma preparam o jogador para sofrer o menos possível. É um sacrifício que provavelmente todos estão dispostos a pagar, sobretudo nos times grandes, para ganhar bons salários. O que vai acontecer depois... bom, depois é depois. 

Um amigo médico me contou que um dia, num hospital, viu radiografias da ossatura, inclusive das mãos, de goleiro famoso e não pôde acreditar que ele ainda estivesse em atividade. Não só estava, como era um dos melhores e mais aclamados. Para além da dor, há o medo. É que quando passa a dor começa o medo e a angustia de reiniciar tudo. 

Recentemente houve o caso de Gabriel, meio-campo do Palmeiras. Machucou-se gravemente e desapareceu por meses do noticiário. Várias vezes pensei em escrever sobre ele, o que estaria fazendo, como estaria se sentindo durante o período vazio de recuperação. Saíra titular absoluto, viu ser contratado um substituto, o time tomar outra feição sem ele. Deve ter passado o diabo. Depois de quase um ano voltou nas ultimas partidas do último Brasileiro. Foi bem, mas sua carreira no time tinha ficado para trás. Felizmente, o Corinthians o contratou. Fez bem de ir, fez bem o Corinthians de contratar. Depois da experiência da dor talvez se tenha transformado num jogador ainda melhor.

Da Inglaterra vem a noticia da contusão do outro Gabriel, o Jesus. Essa está sendo manchete em todo lugar, afinal é uma das estrelas do momento. Deve estar ainda sob efeito do choque. Isso vai passar e então começar para ele os momentos mais complicados. Quando sua contusão cessar de ser notícia, quando na monotonia dos dias passar a sondar cada expressão do rosto de cada médico à procura de algum prognóstico, de alguma segurança. Mas isso também vai passar. E quando voltar e estiver seguro, até vai esquecer a dor e os momentos terríveis por que passou. É o privilégio dos que têm 20 anos e a vida pela frente.

 

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